19:44 05 Junho 2020
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    A corporação russa Almaz-Antey, fabricante de material bélico, incluindo os mísseis Buk, reuniu em Moscou jornalistas de todo o mundo para apresentar seu relatório sobre a tragédia do Boeing 777 da Malaysia Airlines, ocorrida em 17 de julho de 2014. O jornalista brasileiro Pedro Paulo Rezende conta como foi a apresentação da Almaz-Antey.

    Na ocasião, o avião caiu em chamas na região de Donetsk, na Ucrânia, alvo então de intensos confrontos entre militares ucranianos do governo de Kiev e forças independentistas locais. A aeronave seguia de Amsterdã, na Holanda, rumo a Kuala Lumpur, na Malásia, quando, ao sobrevoar a região de Donetsk, sofreu o impacto de um objeto de alta energia. Em consequência, o Boeing entrou em combustão e todas as 298 pessoas que estavam a bordo (283 passageiros e 15 tripulantes) morreram carbonizadas.

    O jornalista brasileiro Pedro Paulo Rezende, que acompanhou a divulgação do relatório da Almaz-Antey para o site DefesaNet, editado por Nélson Francisco Düring, fez um amplo relato sobre a questão. Falando à Sputnik Brasil, Rezende contou que os engenheiros, peritos e técnicos da empresa russa explicaram minuciosamente e com muitas ilustrações que o míssil Buk foi lançado em direção à área pela qual passava o avião a partir de uma região ocupada por militares ucranianos e não por grupos rebeldes contrários ao governo de Petro Poroshenko.

    Além disso, segundo Rezende, este tipo de míssil – Buk 9M38 – há muitos anos não é mais utilizado pelas Forças Armadas russas por ser considerado obsoleto.

    Sputnik: Como foi a demonstração da Almaz-Antey e qual a sua impressão sobre o acontecimento?

    Pedro Paulo Rezende: A Almaz-Antey apresentou em julho deste ano um relatório provando matematicamente que não seria possível o míssil Buk atingir o avião a partir do território dominado pelos rebeldes. Essa conclusão matemática foi rejeitada pela Comissão Internacional de Inquérito, que funciona a partir da Holanda. A Almaz-Antey tomou o cuidado de fazer dois testes usando os modelos propostos pela Comissão Internacional de Inquérito para provar que não seria possível atingir o avião, da forma como ocorreu, se seguissem esses dois modelos propostos pela Comissão. Eles fizeram um teste em setembro utilizando placas de metal para simular o avião, exatamente na dimensão do avião, eles fizeram várias placas de duralumínio. E ficou comprovado que no primeiro modelo proposto pela Comissão seriam atingidos a cabine e o motor direito do avião. O que ocorreu, na verdade, é que o avião foi atingido na cabine e no motor esquerdo. Como estes testes não foram levados em conta, foi feito um novo teste no dia 7 de outubro, utilizando como cobaia a fuselagem de um Ilyushin II 86, um avião similar em tamanho ao Boeing 777, e ficou comprovado, mais uma vez, que dentro das propostas examinadas pela Comissão Internacional de Inquérito o avião é atingido na cabine e no motor direito. Ou seja, não foi disparado do território dominado pelas milícias rebeldes de Donetsk, ele foi atirado de uma região que está sob o controle do exército ucraniano. O teste foi muito conclusivo. Eles explodiram uma cabeça de Buk exatamente na posição em que a Comissão Internacional de Inquérito afirma que houve o disparo. É muito claro, muito visível que há uma distorção dentro do relatório internacional.

    S: Então as forças que se opõem ao governo central da Ucrânia não teriam possibilidade de fazer o lançamento desse míssil contra o Boeing 777 da Malaysia Airlines?

    PPR: Até hoje não se comprovou que as milícias possuam esse míssil, ao contrário de fotos que foram feitas por satélite pelas forças russas, que mostram claramente que havia uma bateria de Buk na região da Ucrânia, mas não na região dominada pelos rebeldes. Os americanos disseram que tinham comprovação, mas nunca apresentaram as provas. A única prova concreta que existe da presença de uma bateria de mísseis naquela região é essa bateria que está localizada em uma localidade que pertence à Ucrânia e estava sob controle das forças ucranianas. O problema é que até hoje a Comissão Internacional de Inquérito não aceitou receber os relatórios da Almaz-Antey, e esses relatórios são importantes para que sejam examinados na Corte Europeia de Justiça para que levantem o embargo que existe hoje contra a Almaz-Antey. É bem verdade que o que foi divulgado é um relatório técnico, não é um relatório criminal. Isto deve ser levado em conta. Ainda vai ser feito um relatório criminal e levado à Corte Internacional de Justiça.

    S: Este tipo de míssil Buk ainda é utilizado pelas Forças Armadas da Rússia?

    PPR: Na versão mais moderna. Esta versão que foi utilizada contra o Boeing é uma versão inicial, fabricada na década de 1980 e que deixou de ser fabricada em 1996. Ela não está no arsenal da Rússia desde 2002, porque está obsoleta. Já existem duas versões posteriores, ou seja, aquele é um míssil muito antigo. Os técnicos da Almaz-Antey descobriram isso em função da submunição, porque, quando o míssil explode, perde uma série de pequenos projéteis que servem para perfurar a fuselagem do avião adversário, e esses projéteis todos são em forma de cubo, e nas versões mais modernas eles têm a forma de duplo T, que causa um estrago maior na fuselagem, abre um buraco com a forma parecida com uma borboleta com as asas abertas.

    S: O senhor considerou satisfatório o relatório apresentado pela Almaz-Antey aos jornalistas?

    PPR: O filme com todos os dados matemáticos foi apresentado terça-feira, 13, à imprensa. Eu achei bastante satisfatório e bastante convincente. Na apresentação estavam presentes cerca de 200 a 300 jornalistas de todo o mundo.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

    Tags:
    Boeing 777, Buk, Malaysia Airlines, Boeing, Almaz-Antey, Nélson Düring, Pedro Paulo Rezende, Donetsk, Malásia, Ucrânia, Rússia
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