07:20 28 Janeiro 2020
Ouvir Rádio
    Mundo
    URL curta
    0 10
    Nos siga no

    Com a presença de Pelé, a Seleção Cubana e o New York Cosmos se enfrentaram nesta terça-feira (2) em Havana, numa partida que terminou em 4 a 1 para a equipe norte-americana. Em entrevista exclusiva à Sputnik Brasil, o jornalista Mario Lara, autor de El Blog del Fútbol Cubano, comenta os aspectos políticos do evento.

    A seguir, a íntegra da entrevista:

    Sputnik: Esta é a primeira vez, em 16 anos, que uma equipe de futebol dos EUA joga em Cuba. Este fato, na sua opinião, é mais importante do ponto de vista esportivo ou político?

    Mario Lara: Na verdade, é difícil dizer que um aspecto é mais importante que o outro. Acho que tanto o aspecto atlético quanto o político significam muito. Porque o evento representa uma aproximação entre dois países que há muitos anos têm diferenças ideológicas. E no aspecto esportivo, atlético, é realmente importante porque a visita do Cosmos, um dos clubes americanos de maior relevância e o mais conhecido em nível mundial, está visitando Cuba e dando a possibilidade de jogadores cubanos enfrentarem um clube profissional com renome e figuras como Raúl, Marcos Senna e outros.

    S: Oficialmente os jogadores de Cuba não podem disputar partidas nos EUA porque são vistos como desertores. Com a realização desta partida entre Cuba e Cosmos, você vê esta situação como um primeiro passo para terminar com essa proibição? Isso pode demandar um longo processo?

    ML: Acho que o processo para que os jogadores cubanos possam jogar nos Estados Unidos vai ser longo. Não vai acontecer nada em curto prazo. Claro que uma equipe americana jogando em Cuba pode ser um primeiro passo. Curiosamente, a NASL, onde joga o Cosmos de Nova York, é uma das ligas mais contrárias a aceitar jogadores cubanos que estão nos Estados Unidos e abandonaram a tradição nacional. Ao longo dos anos, os jogadores cubanos ou foram contratados pelos clubes da MLS ou da USL, que são a primeira e a terceira divisões dos Estados Unidos. Mas são raras as vezes em que uma equipe da NASL contou com serviços de jogadores cubanos. Acredito que vai ser um processo lento, mas esperamos que sim, que seja o começo para que jogadores cubanos possam se inserir nas ligas americanas de futebol sem que sejam vistos como desertores e possam continuar a jogar tanto no nível de clubes quanto na Seleção Nacional, algo que neste momento não é possível ou não se aceita em Cuba.

    S: Você sabe se há algum interesse financeiro nesta partida entre Cosmos e a Seleção de Cuba ou este jogo está sendo realizado apenas do ponto de vista da promoção esportiva e política?

    ML: Acho que é mais uma promoção do ponto de vista político e esportivo. É preciso levar em conta que o Cosmos já jogou em 42 países diferentes. Não há muitas equipes de nível internacional que tenham essa capacidade de jogar em tantos países. E, politicamente, se mostra como uma aproximação. O futebol, como sempre foi, é um esporte que alivia atritos e une paixões, e une países que estão em conflito ou que têm pessoas em conflito, como acontece ao longo da história. É o futebol como forma de unir os povos.

    S: Quando uma partida como esta, um jogo como este, entre Cosmos e a Seleção de Cuba assume uma conotação diplomática, política, isso serve para mostrar ao mundo os bons aspectos do esporte, do futebol?

    ML: Penso que sim. O fato de o Cosmos estar em Cuba neste momento em que as relações entre os países estão se abrindo – lentamente, mas estão se abrindo entre os dois países – mostra que sim, que é possível, que os dois países podem ser amigos e resolver diferenças. O futebol pode ser um dos meios que permitam aos dois países se aproximar.

    S: Uma das personalidades que estiveram presentes nesta partida foi Pelé, que chegou a Cuba no início da semana. A presença dele neste jogo reforça o aspecto diplomático da iniciativa? Ou sublinha o aspecto meramente esportivo deste jogo?

    ML: Acredito que é um aspecto mais esportivo. A presença de Pelé é algo histórico para Cuba. É algo que nós, cubanos, sempre quisemos. Pelé foi um dos jogadores mais populares em Cuba durante muitos anos. Acredito que a presença de Pelé, simplesmente por ser quem é, definitivamente eleva o nível do encontro, deste jogo em Havana. 

    S: Uma partida como esta serve para adestrar, para melhorar, a preparação da Seleção de Cuba com vistas às eliminatórias para a Copa do Mundo de 2018 na Rússia?

    ML: Sim, definitivamente, sim. Especialmente neste momento que o futebol cubano está vivendo – uma transição de antigos jogadores para uma geração de talentosos atletas que no ano passado conseguiram classificar-se ao Mundial Sub-20, na Turquia, pela primeira vez na história. E que também estiveram a ponto de eliminar a Seleção Mexicana de Futebol Sub-21 nos Jogos Centro-Americanos e do Caribe. Definitivamente, esses jogos ajudam a criar essa união entre jogadores de convocações anteriores com essa nova geração de jogadores cubanos que estão surgindo.

    S: Na sua opinião, quais as possibilidades de Cuba chegar à Copa do Mundo 2018?

    ML: Neste momento, a chance é nenhuma. Apesar de que existem jogadores com muito talento, é necessário mais tempo para eles, que precisam estar em ligas mais exigentes. Hoje, a liga cubana dura três meses, com 18 partidas, e no resto do ano os jogadores não atuam. Isso, apesar de que em Cuba se aprovou uma lei para que cubanos joguem no estrangeiro.

    S: Os cubanos gostam muito de futebol ou têm outro esporte como preferência?

    ML: Definitivamente, gostamos muito de futebol. Durante anos, o esporte conhecido por todos e principal em Cuba tem sido o beisebol. Não só pelo sucesso que tem na história, mas também pelo apoio do ponto de vista político. O Governo cubano sempre fez muito esforço pelo desenvolvimento do beisebol, por vê-lo como uma arma, uma forma de confrontar os Estados Unidos. Era a possibilidade de vencer o inimigo através do esporte. O futebol não teve o mesmo desenvolvimento nem apoio, mas sempre contou com uma grande quantidade de aficionados. Nos últimos anos, esses fãs cresceram porque se liberou um pouco mais a transmissão de partidas. É possível ver durante toda a semana partidas das principais ligas do mundo. Quando eu era jovem, em Cuba, para poder ouvir uma partida, era preciso sintonizar a Rádio Exterior da Espanha. Era o único lugar em que alguém poda ouvir uma partida. Não ver. Simplesmente escutar. Agora as crianças e os jovens recebem, tanto do estrangeiro como da televisão cubana, partidas da América do Sul e da Europa, e pouco a pouco o futebol vai ultrapassando o beisebol. Nas ruas cubanas, se veem muito mais crianças ou jovens jogando futebol ou batendo uma bola do que o beisebol, que sempre foi o esporte nacional. Sempre se gostou muito do futebol em Cuba. Houve altos e baixos, mas sempre houve muitos apaixonados pelo futebol em Cuba.

    Mais:

    Cuba e EUA realizarão mais uma rodada de negociações na próxima semana
    Obama promove diplomata das conversações com Cuba como a próxima embaixadora no México
    EUA e Cuba farão nova rodada de negociações
    Raul Castro prevê nomeação de embaixadores de Cuba e EUA em um mês
    Tags:
    amistoso, futebol, Jogo de futebol, Mario Lara, Cuba, EUA
    Padrões da comunidadeDiscussão
    Comentar no FacebookComentar na Sputnik
    • Comentar