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    Portugal começou a vacinação contra COVID-19 neste domingo (27). Na primeira fase, serão vacinados profissionais de saúde e pessoas com doenças crônicas. No primeiro grupo, está a auxiliar de enfermagem brasileira Cristiane Romero, que tomou vacina no Hospital Santa Maria, em Lisboa, onde trabalha.

    Depois de oito horas de um plantão no "Covidário", como chamam o setor onde são tratados pacientes com Covid-19, Cristiane esperou mais uma hora na fila até receber uma dose da Pfizer-BioNTech na manhã desta segunda-feira (28). Após 30 minutos de repouso e observação para garantir que não havia nenhuma reação alérgica, ela foi liberada sem nenhum efeito secundário significativo.

    "Confesso que estava um pouco apreensiva por conta dos efeitos colaterais, mas também orgulhosa por fazer parte do primeiro grupo escolhido para tomar a vacina no primeiro lote. Agora, estão vacinando quem tem contato direto com pacientes positivos. Todos teremos que tomar algum dia, como foi a H1N1. Então, já que fui escolhida para estar entre as primeiras, 'bora lá'. É acreditar que Deus está no controle e que nada de mais vai acontecer. No máximo uma dorzinha no local da aplicação e um pouco de náusea. Mas nada além disso", conta Cristiane à Sputnik Brasil.
    A auxiliar de enfermagem brasileira Cristiane Romero é vacinada contra COVID-19 no Hospital Santa Maria, em Lisboa
    © Foto / Divulgação
    A auxiliar de enfermagem brasileira Cristiane Romero é vacinada contra COVID-19 no Hospital Santa Maria, em Lisboa

    A profissional de saúde curitibana começou a trabalhar em abril no hospital de Lisboa, ainda durante a primeira onda do novo coronavírus na Europa. Ela considera a vacina uma esperança no combate à COVID-19, mas ressalta que não se trata de uma cura milagrosa que vai acabar com a pandemia de uma hora para a outra. 

    "É um marco na história, pois, se pararmos para ver, de tempos em tempos, surge uma pandemia. A enfermidade continua, umas têm vacinas, outras são controladas por medicações, como é o caso do HIV. Sabemos que a COVID-19 não vai desaparecer, mas precisamos controlá-la. Essa vacina é uma tentativa, ainda está muito no começo, mas, pelo menos, estamos tentando vencer. Precisamos descobrir a cura ou algo que a estabilize. O que não podemos é deixar que o medo nos paralise", ela recomenda.

    Início de vacinação sem reações adversas graves

    No domingo, primeiro dia de vacinação, foram imunizados profissionais dos centros hospitalares universitários do Porto, Coimbra, Lisboa Norte e Lisboa Central. No Hospital de São João, no Porto, onde o infectologista António Sarmento, de 65 anos, foi o primeiro vacinado em Portugal, também foram imunizadas 2.125 pessoas. Em Lisboa, foram imunizados mais de 1.700 médicos, enfermeiros e outros funcionários de hospitais. 

    Segundo os diretores dos centros hospitalares, não foi observada nenhuma reação adversa grave, apenas algumas "reações ligeiras" como ansiedade. Ainda assim, António Sarmento, que trabalha há 42 anos no Hospital de São João, destacou que efeitos secundários são normais, assim como em outras vacinas.

    "O risco não é zero, mas não é zero para nenhuma medicação nova. A História diz-nos que as vacinas são seguríssimas. Deixar-se vacinar tranquilamente é uma forma enorme de ajuda à comunidade e à humanidade", disse Sarmento após ser imunizado.

    Em sua conta no Twitter, o primeiro-ministro de Portugal, António Costa, também classificou o primeiro dia de vacinação como inesquecível para o país: 

    ​O primeiro lote da Pfizer-BioNTech com 9.750 doses chegou no sábado (26) a Portugal. Nesta segunda, foi entregue um segundo lote com mais 70.200 doses. A vacinação segue até quinta para profissionais da saúde e, a partir de janeiro, vai se estender a profissionais e residentes de Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas (ERPI) e instituições similares, além de profissionais das Forças Armadas e residentes de lares de idosos. 

    Segundo o cronograma do Ministério da Saúde, em fevereiro, a vacinação deve ser ampliada a pessoas com mais de 50 anos com patologias graves, como doenças respiratórias, coronária e insuficiências cardíaca e renal. A estimativa é de que, neste grupo prioritário, sejam vacinados, no mínimo, 950 mil cidadãos entre janeiro e abril, já levando em consideração um possível cenário de atraso na entrega e distribuição. A vacina é gratuita e facultativa.

    Médico carioca que perdeu tio e prima por COVID-19 espera ser vacinado nesta semana

    O médico carioca Marcelo Matos também está na expectativa para tomar a vacina, o que deve acontecer até esta quarta (30). Ele mora em Cascais e está na linha de frente do combate à COVID-19 do Hospital Beatriz Ângelo, em Loures, na Área Metropolitana de Lisboa. Após testar positivo em junho para o novo coronavírus, teve febre baixa, ligeira mialgia e cefaleia persistente, ficando duas semanas afastado do trabalho. Mas conta que o mais difícil foi perder vários pacientes para a doença, além de um tio e uma prima, que morreram no Brasil.

    "Acho que [a vacina] é uma aposta válida. A Pfizer, na minha opinião, passa muita credibilidade, pois é um laboratório muito rico e com investimentos pesados em pesquisa e desenvolvimentos de medicações para haver barreiras imunológicas à propagação do vírus. Se a vacina conferir imunidade, o vírus terá menor poder de propagação, e, consequentemente, de infecção. Isso impactará positivamente no sistema de saúde público, que há pouco vivia em vias de ruptura", analisa Matos.
    O médico carioca Marcelo Matos trabalha na linha de frente contra COVID-19 em Portugal e espera ser vacinado
    © Foto / Divulgação
    O médico carioca Marcelo Matos trabalha na linha de frente contra COVID-19 em Portugal e espera ser vacinado

    Ele explica que os profissionais do hospital receberam um e-mail indicando a necessidade da vacina, mas com a ressalva de que não é compulsória. O médico ressalta que, quem optar por não tomar, precisa preencher um termo de responsabilidade, assumindo que o imunizante foi oferecido e que o profissional não a tomou por iniciativa própria. Matos, que se formou na Universidade Federal do Ceará, considera que Portugal está lidando melhor com a pandemia do que o Brasil e exemplifica comparando com Guaraciaba do Norte, cidade cearense de 40 mil habitantes, onde moram seus pais.

    "Houve o aprendizado da primeira onda, que Portugal controlou bem, ao meu ver. A primeira onda mais suave foi fundamental para a nossa 'curva de aprendizado' para uma doença tão nova e desconhecida. Hoje, as urgências em Portugal estão mais alertas aos sinais precoces de gravidade da doença. Esse fator é fundamental para o início do tratamento precoce e vigilância. No Brasil, com o sistema público tão precário e com escassez de recursos, é mais difícil o manejo dos pacientes graves. Um exemplo claro é a cidade de Guaraciaba do Norte. Lá, o hospital municipal não dispõe de estrutura nenhuma para casos intermediários ou graves. Estes têm que ser drenados ao hospital de Sobral, a 110 km de distância", ele detalha.

    De acordo com estimativas do Ministério da Saúde, em janeiro a vacinação deve chegar a estruturas residenciais para idosos, sendo extensiva aos profissionais que trabalham nos asilos. A brasileira Jacinea Barbosa, que é responsável pelas refeições dos 150 idosos da Santa Casa de Misericórdia de Tomar, aguarda chegar a sua vez. Ela conta que já solicitaram seus dados, como histórico clínico, alergias e número do cartão de saúde. 

    "Estou tranquila, temos que acreditar na ciência. O que motiva em tomar a vacina é proteger o próximo, os mais frágeis. E poder me livrar dessa máscara. Pesquisei e estou de acordo com a União Europeia. A Pfizer tem maior probabilidade de acerto, apesar de nenhuma delas dar a total garantia disso", diz Jacinea à Sputnik Brasil.

    Ela acrescenta que não houve nenhum caso de COVID-19 na unidade em que trabalha, mas que os idosos estão proibidos de receber visitas de familiares desde março, no início da primeira onda da pandemia. Jacinea espera que a imunização possa permitir um retorno gradual à visitação, pois, segundo ela, as visitas são fundamentais para a boa saúde mental dos idosos.

    A segunda fase da vacinação, prevista para começar em abril, contemplará 1,8 milhão de pessoas de idades entre 50 e 74 anos que tenham outras doenças pré-existentes (diabetes, hipertensão arterial, neoplasia maligna ativa, insuficiência hepática, obesidade etc.), além de idosos de mais de 65 anos, mesmo sem qualquer patologia. A última fase será destinada ao restante da população. O planejamento português prevê um total de cerca de 22 milhões de doses.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Brasil, vacinação, vacina, Portugal, Pfizer, novo coronavírus, COVID-19
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