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    Pandemia de COVID-19 no mundo no início de dezembro (93)
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    Portugal anunciou seu plano nacional de vacinação contra COVID-19 nesta quinta-feira (3). As vacinas serão distribuídas em 1.200 centros de saúde pública a partir de janeiro, de forma gratuita e facultativa.

    Especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil têm opiniões diferentes sobre a obrigatoriedade.

    O planejamento português prevê três fases, com um total de cerca de 22 milhões de doses. Na primeira, serão vacinadas pessoas com mais de 50 anos com doenças graves (respiratórias, coronária, insuficiências cardíaca e renal etc.), além de profissionais da saúde, das Forças Armadas e residentes de lares de idosos. A estimativa é de que, neste grupo prioritário, sejam vacinados, no mínimo, 950 mil cidadãos entre janeiro e abril, já levando em consideração um possível cenário de atraso na entrega e distribuição.

    A segunda fase englobará 1,8 milhão de pessoas com idades entre 50 e 74 anos que tenham outras doenças pré-existentes (diabetes, hipertensão, obesidade etc.), além de idosos com mais de 65, mesmo sem qualquer patologia. A última fase será destinada ao restante da população. De acordo com António Costa, primeiro-ministro de Portugal, a vacina será "facultativa, universal e gratuita", e o governo deve gastar até € 200 milhões (cerca de R$ 1,25 bilhão).

    "Primeiro, ser universal, distribuída a todos. Em segundo lugar, ser facultativo, como é a tradição do nosso governo na vacinação. Em terceiro lugar e, fundamental, ser gratuita. E, em quarto lugar, ser distribuída a toda população de acordo com os critérios de prioridade", disse o primeiro-ministro durante a coletiva de imprensa de anúncio do plano de vacinação.

    A obrigatoriedade ou não da vacina contra COVID-19 tem sido debatida em diferentes países. Na Austrália, por exemplo, o primeiro-ministro Scott Morrison chegou a anunciar que faria a vacinação "ser tão obrigatória quanto possível", mas depois recuou frente a reações negativas por parte de australianos. No Brasil, o governador de São Paulo, João Doria, defende a obrigatoriedade por dizer que, numa pandemia, "não faz sentido, você vacinar uns e não vacinar outros". Já o presidente Jair Bolsonaro o rebateu e disse a apoiadores que "a vacina não será obrigatória e ponto final".

    Infectologistas brasileiros têm opiniões diferentes sobre a obrigatoriedade

    No entanto, a Lei 13.979, sancionada pelo próprio Bolsonaro em fevereiro para combater a pandemia, determina realização compulsória de vacinação, coletas de amostras clínicas, testes laboratoriais e outras medidas profiláticas. Longe do ringue político-eleitoral, não há consenso nem mesmo entre especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil, que têm opiniões diferentes. A médica Viviane Briese Bernardini, infectologista pela Sociedade Brasileira de Infectologia, é a favor da obrigatoriedade e ressalta a importância de que todas as pessoas tenham o direito de tomar a vacina gratuitamente o mais rápido possível.

    "A obrigatoriedade é no sentido de que a vacina deve ser tomada e que faz parte do calendário oficial. No momento em que tu deixas na mão da população a escolha de vacinar ou não, deixas para um indivíduo decidir se sim ou não? Acho que não é a melhor forma.  O princípio da vacinação em massa é imunizar o maior número de pessoas, impedindo que desenvolvam uma forma grave da doença e também que elas se infectem e disseminem [o vírus]. Para erradicar uma doença infectocontagiosa da circulação entre humanos, que tem vacina para isso, não adianta vacinar uma pequena parcela da população", explica Viviane à Sputnik Brasil.
    A infectologista Viviane Briese é a favor da vacinação obrigatória para combater a COVID-19
    © Foto / Divulgação
    A infectologista Viviane Briese é a favor da vacinação obrigatória para combater a COVID-19

    Ela cita um exemplo que a faz acreditar na prevenção e na obrigatoriedade: o de uma profissional da terapia ocupacional que tinha um filho de um ano e estava grávida do segundo, mas era contra a vacinação, mesmo sendo filha de uma pediatra.

    "A criança de um ano faleceu por meningite porque a mãe não o levou para tomar a vacina. Vacinação nada mais é do que prevenir que uma doença grave se manifeste. A partir do Bolsonaro que começou essa problemática da obrigatoriedade ou não da vacina, porque nunca foi um problema, nunca foi questionável. Uma mãe nunca questionava a importância ou não de dar uma vacina para um filho. O modo de a vacina bloquear a ação de um vírus é a vacinação em massa", ela complementa.

    Já o infectologista Renato Kfouri, presidente do Departamento de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria, é contra a obrigatoriedade. Ele diz que seria preciso primeiro comprovar a eficácia da vacina. Segundo o especialista, só se pode cogitar uma vacinação obrigatória, com a força da lei, no sentido de controlar uma epidemia, erradicar uma doença, o que não seria o caso da COVID-19.

    "O objetivo não é controlar a disseminação do vírus na comunidade, na imunização indireta, proteção coletiva, erradicação e eliminação. É proteger a população mais vulnerável. Você precisa ter vacinas 100% eficazes, que também pode ser que não seja o caso, e vacinas que previnam não só a infecção, mas de longo prazo, que não percam a imunidade com o tempo, já que a gente não sabe a duração da proteção. Além disso, é preciso de vacinas que, além de prevenir doenças, previnam que adquira a infecção. A vacina pode ser muito boa para prevenir doenças, mas não prevenir infecção e, consequentemente, a transmissão", detalha Kfouri.

    O médico faz a ressalva de que são raros os casos de pais que se recusam a vacinar seus filhos e acredita que a conscientização é um caminho melhor do que a obrigatoriedade.

    "Até hoje, quatro ou cinco pais no Brasil se recusam a vacinar os filhos, e a Justiça teve que entrar e obrigar a vacinar. É claro que o caminho da coerção nunca é o ideal. A persuasão, a educação devem ser sempre buscadas. O convencimento sobre o valor das vacinas e a oportunidade de ter uma atitude cidadã, quando se vacina protegendo a si e aos outros, é o melhor mecanismo. Países que adotam a obrigatoriedade, em geral, têm coberturas mais baixas do que os que não obrigam", ele compara.

    Enfermeira portuguesa diz que será a 1ª a tomar vacina para dar exemplo a idosos

    A enfermeira portuguesa Maria João Leite, que trabalha no Lar Origens, uma Estrutura Residencial para Idosos (ERPI) em Sintra, considera impensável tomar vacinas obrigatórias em um país democrático. Segundo ela, uma população bem informada, dos riscos e benefícios, é o que leva a uma maior adesão ao plano de vacinação. De acordo com o planejamento apresentado pelo governo português, nas ERPI com enfermagem esses profissionais poderão administrar as doses da vacina.

    "No lar em que trabalho, faço questão de ser a primeira a ser vacinada para dar o exemplo. Imagina termos a solução desta pandemia na ponta de uma agulha e não atingirmos esse objetivo por recusas de vacinação? Seria uma tristeza para a humanidade e, na minha opinião, só revelaria o egocentrismo individual. De qualquer forma, eu sou muito crente na força do grupo e em que a informação combate o medo", diz Maria João.

    Ela acrescenta que, em relação a uma vacina produzida em tão pouco tempo, é natural que haja mais insegurança, mas que é preciso usar o conhecimento científico para combater a desinformação e, especialmente, as teorias da conspiração.

    "A comunidade científica mundial uniu-se e trabalhou sem descanso para salvar vidas. [As vacinas] foram submetidas a todas as fases de testes necessárias, e temos várias entidades reguladoras em que temos de confiar. O que falta nestas vacinas? Os resultados finais publicados de forma científica, pois, até agora, as percentagens a que tivemos acesso foram as fornecidas à comunicação social, e não é nisso que se sustentam decisões deste âmbito. Tem de ser em evidência científica para termos segurança. E darmos essa segurança é fundamental para a adesão da população à vacinação. Precisamos, no mínimo, de 70% de cobertura para conseguirmos imunidade de grupo e, aqui, sim tenho receio e acredito estar o maior desafio", ela pondera.

    Uma pesquisa publicada no European Journal of Health Economics questionou 7.164 pessoas de sete países (Portugal, Alemanha, Reino Unido, Dinamarca, Holanda, França, Itália – além de outras 500 da Lombardia) sobre a vontade de serem vacinadas. No total, 73,9% disseram que gostariam de tomar a vacina. Já 18,9% afirmaram que não tinham certeza e 7,2% revelaram não querer tomá-la. Em Portugal, esses percentuais foram de 75%, 21% e 5%, respectivamente.

    Gráfico mostra a vontade que pessoas têm de ser vacinadas em sete países
    © Foto / Divulgação
    Gráfico mostra a vontade que pessoas têm de ser vacinadas em sete países

    A aposentada portuguesa Amélia Sales, de 71 anos, que mora em Lisboa e viveu por dez anos em São Paulo, acredita que a vacina contra COVID-19 deveria ser obrigatória tanto em Portugal como no Brasil, pelo menos para as pessoas que fazem parte de grupos de risco. Com duas doenças pulmonares, ela faz parte do grupo prioritário a ser vacinado a partir de janeiro. Ainda assim, ela diz que consultará seu médico antes de tomar.

    "Acho que deveria ser gratuita e obrigatória. Ainda não tenho conhecimento suficiente para dizer que é tão eficaz para ser obrigatória [para todo mundo]. Mas se, realmente, para os grupos de risco é eficaz, aí já acho que sim. Mas não vou [tomar] sem falar com meu pneumologista. Ele é que vai me dizer se devo tomar. Não tenho conhecimento se aquilo tem efeitos secundários", explica Amélia à Sputnik Brasil.
    A portuguesa Amélia Sales faz parte do grupo de risco e vai consultar seu médico antes de tomar a vacina
    © Sputnik / Lauro Neto
    A portuguesa Amélia Sales faz parte do grupo de risco e vai consultar seu médico antes de tomar a vacina

    Ela conta que, nos últimos anos, tomou duas vacinas contra a pneumonia, que têm surtido o efeito de protegê-la. A portuguesa acredita que, se todas as pessoas tomassem essa vacina, haveria menos gente hospitalizada com a doença, o que geraria menos gastos para o Estado. Apesar de o Brasil ter uma população mais de 20 vezes maior, Amélia faz uma analogia com Portugal, guardadas as devidas proporções, sobre os gastos com hospitais de campanha abertos em função da lotação dos leitos no sistema público de saúde durante a primeira onda da pandemia.

    "Uma pessoa hospitalizada com pneumonia dá muito mais despesas ao Estado. Na COVID-19 tenho o mesmo raciocínio. No Brasil, o sistema de saúde é mais precário para quem não tem planos de saúde. Mas, ainda assim, os gastos serão muito menores para a saúde se as pessoas tomarem as vacinas e não precisarem ser hospitalizadas", ela compara.

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    Pandemia de COVID-19 no mundo no início de dezembro (93)

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    Tags:
    doença, novo coronavírus, COVID-19, Portugal, vacina
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