03:33 20 Outubro 2020
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    Londres argumentou que o fundador do WikiLeaks não corre alto risco de suicídio se for extraditado para os EUA, onde enfrentaria um julgamento sob acusações de espionagem.

    A dra. Sondra Crosby, médica dos EUA que tratou Julian Assange durante exílio em embaixada do Equador, disse à Corte Criminal Central de Inglaterra e País de Gales na tarde de quinta-feira (24) que Assange exibiu sintomas de depressão e perturbação de estresse pós-traumático quando o viu em outubro de 2017, escreve a agência Associated Press.

    A médica norte-americana ficou "muito perturbada" com a deterioração de Assange na embaixada do Equador.

    Durante sua segunda visita, ela observou que o estado mental do ativista político estava "em declínio e [ele] estava descrevendo cada vez mais sintomas" de depressão, distúrbios do sono, autoestima baixa, incapacidade de concentração e pesadelos. Em fevereiro de 2018, o fundador do WikiLeaks descreveu pela primeira vez "seus pensamentos de suicídio" para ela, observando que ele estava passando "bastante tempo pensando nisso".

    Crosby relatou que Assange assistiu várias vezes ao suicídio do bósnio-croata Slobodan Praljak, que tirou sua própria vida no tribunal usando cianeto na TV, após a afirmação de sua sentença por crimes de guerra.

    Ela voltou a vê-lo em fevereiro de 2019, quando o ativista "havia se deteriorado acentuadamente" tanto física quanto mentalmente e que ela estava "muito preocupada com uma infecção dental muito avançada" que lhe causava "dor excruciante" diária, e que o obrigava a tomar narcóticos.

    Fundador do WikiLeaks Julian Assange no Reino Unido
    © AP Photo / Matt Dunham
    Fundador do WikiLeaks Julian Assange no Reino Unido

    Crosby também observou que ele estava muito assustado com as consequências de procurar apoio fora da embaixada, e que seus pensamentos de suicídio haviam aumentado.

    Suicídio cada vez mais próximo

    A dra. Crosby disse que quando ela visitou o premiado jornalista em outubro de 2019, desta vez na prisão de Belmarsh, "ele me pareceu gravemente deprimido", e falou sobre pensar em suicídio centenas de vezes por dia. Ela disse que Julian Assange havia mudado marcadamente em afeto e aparência, não conseguindo se lembrar de nomes e coisas, tendo uma incapacidade de escrever cartas, e falando "como se ele estivesse essencialmente morto".

    O fundador do WikiLeaks também temia revelar o quanto pensava no suicídio, devido aos prisioneiros poderem ser colocados em maior vigilância ou isolamento, "o que seria pior".

    Uma coisa que parecia ajudar era seu acesso aos Samaritanos, uma linha direta anônima para suicídios que podia acessar diariamente.

    Caso na Justiça

    "Acho que o sr. Assange corre um risco muito alto de completar um suicídio se for extraditado", disse a dr. Crosby, em resposta a uma pergunta de Edward Fitzgerald, conselheiro da Rainha (QC, na sigla em inglês), à defesa.

    Ela acrescentou que acredita que "o encarceramento nos EUA é um fator de risco para lesões, e eu me preocupo que ele correria um risco maior de fraturas", devido a seus ossos fracos, que são consistentes com osteogênese imperfeita.

    A acusação questiona a relevância das avaliações médicas do sr. Assange.

    James Lewis, QC, da acusação, perguntou à médica se era justo dizer que ela é "bastante simpática à sua causa".

    Crosby respondeu: "Não, isso não seria justo dizer."

    "Você fala sobre ele estar confinado na embaixada quando na verdade foi uma decisão dele de violar suas condições de fiança", disse Lewis à médica, perguntando por que ela usou tal linguagem em seu relatório.

    A dra. Crosby disse que ela pensava que essa era "uma questão complicada, e com base em seu estado psicológico eu diria que é discutível". A psicóloga comparou a situação a alguém sentindo que foi perseguido em uma sala por alguém com um machado, e não saindo.

    Manifestantes em ato pró-Assange, contra sua extradição da Reino Unido aos Estados Unidos
    © Sputnik / Justin Griffiths-Williams
    Manifestantes em ato pró-Assange, contra sua extradição da Reino Unido aos Estados Unidos

    Em resposta a uma outra pergunta sobre se todas as preocupações de saúde física de Assange haviam sido abordadas, a médica afirmou que, embora muito tenha sido feito, sua osteoporose não foi totalmente avaliada.

    "Você sabe que tem havido vários psiquiatras muito experientes dando provas neste tribunal", retrucou Lewis a Sondra Crosby, acrescentando que todos eles tiveram contato "muito mais recente" que ela.

    Ela concordou dizendo "sim, meu último contato foi em janeiro de 2020. Não tenho tido contato recente com ele desde então".

    "Você está dizendo que sua opinião sobre a saúde mental deve ser preferida à deles?", perguntou Lewis.

    "Eu nunca disse isso", respondeu Crosby.

    Assange na política

    O interrogatório terminou com James Lewis perguntando à dra. Crosby sobre sua confiança no relatório de Nils Melzer, especialista em tortura da ONU.

    A dra. Crosby referiu que ela ignorou as avaliações políticas por não serem relevantes, e apenas confiou no testemunho dos "dois especialistas médicos altamente qualificados" que descobriram que o ativista da WikiLeaks sofria de efeitos de trauma psicológico, e estava com saúde precária, sendo a mesma conclusão à qual chegou.

    O procurador perguntou à médica se ela estava ciente de que ninguém jamais extraditado do Reino Unido para os Estados Unidos havia cometido suicídio. Ela respondeu que não é uma especialista em extradição ou estatísticas de extradição do Reino Unido.

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    Tags:
    Slobodan Praljak, WikiLeaks, ONU, eua, Reino Unido, Julian Assange
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