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    O ciberativista australiano foi vigiado no interior da embaixada equatoriana em Londres durante mais de um ano, permitindo que os EUA lançassem um mandado de prisão internacional para impedir sua fuga.

    A vigilância sistemática de Julian Assange na embaixada do Equador em Londres teria permitido aos Estados Unidos bloquear uma operação secretamente planejada para permitir sua fuga do Reino Unido em 25 de dezembro de 2017, segundo disse à Sputnik Mundo o advogado Aitor Martínez, da equipe internacional de defesa do ciberativista.

    O Serviço Nacional de Inteligência do Equador (SENAIN, na sigla em espanhol) confiou a segurança da representação londrina ao ex-militar espanhol David Morales Guillén e sua empresa Undercover Global (UC Global).

    Nos 18 ou 20 meses que antecederam a quebra do contrato, no verão de 2018, ninguém escapou do cerco das câmeras que foram instaladas secretamente no refúgio de Assange, no bairro londrino de Knightsbridge, de acordo com a denúncia apresentada em Madri pelo jornalista australiano enquanto lutava a partir da prisão contra a ordem de sua extradição para os EUA.

    'Grande irmão' disfarçado

    "Naqueles anos, os réus criaram uma espécie de 'grande irmão', no qual todos os movimentos do Sr. Assange e dos que lhe eram próximos eram controlados", afirma a denúncia, que está sendo julgada na Corte Nacional Espanhola.

    Mesmo o então chefe do SENAIN, Rommy Vallejo, ficou registrado no servidor e banco de dados das atividades do "Hotel" (embaixada) e das visitas do "Convidado" (Assange) que Morales Guillén colocou à disposição de seu "cliente americano", como comprovam os materiais apresentados ao juiz.

    Vallejo visitou Assange em 21 de dezembro de 2017, quando "estava sendo explorada a possibilidade" de retirá-lo do país com um passaporte diplomático equatoriano e, portanto, sob a proteção da "imunidade e inviolabilidade da Convenção de Viena de 1961", explicou o advogado à Sputnik.

    Suspeitas de espionagem dupla

    "Projetamos a operação para seis ou sete pessoas, no máximo. Julian era muito paranoico porque suspeitava que a empresa o estivesse espionando. Eu ia ao banheiro, ligava a torneira e conversávamos. Nenhum de nós acreditou nele, mas ele tinha toda a razão", diz o advogado espanhol.

    Vallejo seria a última peça do plano, o coordenador da saída do prédio e da viagem para um "terceiro país".

    O plano falhou devido à suposta denúncia do proprietário da UC Global aos seus contatos na Las Vegas Sands, o império de cassinos de Sheldon Adelson, um magnata que patrocinou a campanha presidencial de Donald Trump, próximo de Mike Pompeo e um financiador regular do Partido Republicano.

    "O último passo foi o do chefe do SENAIN, Rommy Vallejo, que visitou Julian para esclarecer como ele iria sair da embaixada, onde o carro diplomático seria colocado, se fariam um ensaio prévio com algum diplomata... estas eram questões da operação de saída, que deveria acontecer no dia 25 de dezembro", lembra Martínez.

    Bolívia, Venezuela, Grécia, Sérvia, Bélgica e China estavam entre os possíveis destinos da fuga estudada pelo ativista australiano.

    Varanda da Embaixada do Equador, aonde o jornalista Julian Assange ficou asilado de 2012 a 2019
    © Sputnik / Alex MacNaughton
    Varanda da Embaixada do Equador, aonde o jornalista Julian Assange ficou asilado de 2012 a 2019

    "Estávamos lutando contra o relógio, procurando um país que o admitisse, e havia muitas opções, mas a Rússia não era uma. Julian não queria ir para a Rússia, porque alimentaria a teoria da conspiração de que ele era um agente russo", diz ele na entrevista à Sputnik.

    Sinais de alarme

    David Morales Guillén recebeu, na mesma noite de 21 de dezembro, o relatório detalhado da visita de Vallejo à Embaixada do Equador em Londres, e um link eletrônico para as gravações audiovisuais do dia, que ele "insistentemente" solicitou aos seus funcionários em e-mails agora incluídos na denúncia.

    No dia seguinte, os Estados Unidos enviaram a Londres um mandado de prisão internacional para o ex-fundador do WikiLeaks, e o embaixador dos EUA em Quito deixou clara sua oposição ao plano, organizado por um pequeno grupo de pessoas, de acordo com a documentação judicial à qual a Sputnik teve acesso.

    "Não faz sentido para o contratante espionar a pessoa que o contrata... [isso] prova que os serviços de espionagem estavam sendo realizados para a inteligência americana ou seus intermediários na Las Vegas Sands", refere o processo criminal contra Morales Guillén e a UC Global.

    Testemunhas protegidas

    A investigação da Corte de Madri revela um elemento crucial no processo britânico de extradição, que os EUA ativaram enquanto Assange estava detido na embaixada equatoriana.

    Ex-funcionários da UC Global estão dispostos a testemunhar por videoconferência se o Tribunal de Westminster garantir a proteção de suas identidades em um nível semelhante ao que eles desfrutam na Espanha.

    Se trata de três testemunhas protegidas, que entregaram ao juiz José de la Mata cópias de segurança dos computadores da empresa, caixas de correio eletrônico e outras provas da aparente violação abusiva da privacidade de Assange e a interceptação de conversas sobre suas opções legais contra os EUA ou seu estado de saúde, entre outras questões sensíveis.

    Martínez considera "inconcebível que o sistema judicial britânico" continue negando ao seu cliente a liberdade cautelar no auge da pandemia de coronavírus, e que seja mantido o cronograma de audiências públicas, previsto para ser retomado em 18 de maio.

    "Eles têm Julian completamente confinado à cela por 23 horas e meia; ele não pode preparar nenhum processo legal porque seus advogados não podem visitá-lo. Que direito ele tem a uma defesa? Que disparate completo", reclama.

    O advogado acredita que "Morales está completamente apanhado" e que as gravações feitas na embaixada trarão "surpresas" no julgamento de extradição contra o fundador da plataforma pioneira de vazamentos.

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    Londres, Madri, WikiLeaks, Sputnik, Sputnik Mundo, Espanha, Equador, Julian Assange, EUA, Reino Unido
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