07:44 17 Agosto 2018
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    Migrante embrulhado em uma manta da Cruz Vermelha na baía de Tarifa, depois de um barco com 135 migrantes ter sido resgatado pela Guarda Costeira espanhola no mar Mediterrâneo, 24 de julho de 2018

    'Assalto' africano ao enclave espanhol: concretização da profecia de Kadhafi?

    © AFP 2018/ JORGE GUERRERO
    Europa
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    Em 26 de julho, mais de 500 migrantes africanos atravessaram fronteira fortalecida do enclave espanhol de Ceuta, entrando ilegalmente na União Europeia. Já em 2011, quando nem se pensava que crise atual aconteceria, o ex-líder líbio, Muammar Kadhafi, parece ter previsto algo parecido antes de ser assassinado.

    O colunista Bernhard Schwarz da Sputnik Alemanha expressou opinião de que a avalanche migratória alimentou a mídia por todo o mundo: na manhã da quinta-feira passada, as Guardas Civis da Espanha e Marrocos tentaram conter a entrada de centenas de migrantes na fronteira da União Europeia com Marrocos, mais especificamente no enclave espanhol de Ceuta. Como resultado do possível ataque planejado, guardas foram atacados com lança-chamas, fezes e substâncias químicas.

    Guardas pareciam perplexos. Não se trata da primeira entrada de migrantes em Ceuta, mas com certeza se trata da mais violenta. Nos arredores do enclave espanhol, dezenas de milhares de africanos pobres estão à espera de entrar na Europa.

    Muito provavelmente, a crise migratória atingiu o auge, apesar de o número de pedidos de asilo estar diminuindo. Centenas de migrantes se mostram firmes no desejo de entrar na UE a qualquer custo, e ninguém poderá contê-los.

    Por enquanto, Bruxelas não reagiu ao incidente, mas, se em breve não for adotado um plano de ação concreto, há riscos de a violência e a anarquia se estourarem no coração da Europa.

    Ainda antes do início da guerra civil em 2011, o ex-líder líbio, Muammar Kadhafi, avisou: "Vocês devem me entender corretamente. Se querem me oprimir e desestabilizar, vão aumentar a confusão, farão o jogo de [Osama] bin Laden e ajudarão grupos armados de rebeldes. Vai acontecer o seguinte: serão abalados com uma onda de migração da África que se dirigirá da Líbia à Europa. Ninguém estará aqui para contê-los."

    Kadhafi talvez não imaginasse que seria assassinado pelos rebeldes na rua após intervenção da OTAN. Mas o seu aviso estava rodeado de razão.

    Antes de 2011, a Líbia era o país mais rico da África, sendo desejado por todos que passavam fome na Eritreia e Níger.

    A Líbia era um dos países com maior número de imigrantes. Hoje a Líbia é um Estado destruído, onde há dois governos, mas não há ordem. A degradação da Líbia também desestabilizou países vizinhos; situação instável é percebida do Níger à Somália. No decorrer da guerra civil, França e EUA forneceram ativamente armas aos rebeldes líbios que, logicamente, não as devolveram depois do fim da guerra. O equipamento militar do arsenal de Kadhafi foi roubado. Assim, na Líbia surgiu uma verdadeira "feira de armas". A organização Human Rights Watch advertiu abertamente após o fim da guerra civil: "Trata-se da maior proliferação de armas já vista. Nas próximas décadas, ameaçará toda a região." Desenvolvimento parecido da situação foi percebido também depois das intervenções norte-americanas no Iraque, no Afeganistão, e antes do envolvimento da Rússia, na Síria.

    Na Alemanha, grande parte dos pedidos de asilo vem de refugiados dos países acima mencionados. Pessoas, em sua maioria, deixam o Níger, Eritreia, Somália e Chade em busca de melhorias no continente europeu. Mais de 75% dos refugiados, que se dirigem à Europa pelo mar, saem de portos líbios.

    A política da chanceler alemã, Angela Merkel, de "consertaremos de qualquer forma" lembra a fraqueza do Império Romano pouco antes do colapso. Romanos não conseguiram frear a crise migratória, quando os godos no limiar e durante a queda dos hunos fugiram ao Império Romano. Em primeiro lugar, os godos foram acolhidos pacificamente, recebendo comida, mas, quando o fluxo ganhou grandes proporções, os romanos iniciaram a guerra para pará-los.

    Além do mais, as autoridades romanas resolveram guardar comida para si, fazendo com que os godos, que viviam em Roma, se sentissem injustiçados, e a rebelião começou. Por isso, a queda do Império Romano teve início antes da crise migratória, o que é um paralelo horrível para a Europa atual.

    Hoje, depois do ataque a Ceuta, surge uma pergunta importante: como os centros que recebem pedidos de asilo devem se proteger, levando em conta que a população da África está exponencialmente crescendo. Até 2050 ela corresponderá a 2,5 bilhões de pessoas, sendo o dobro da quantidade atual. O fluxo de refugiados, por causa da fome, da economia fraca, da corrupção e da falta de perspectivas, pode aumentar. Além disso, os refugiados muito provavelmente não aceitarão rejeição de pedido de asilo e tentarão entrar na Europa com ou sem pedido.

    Uma luz de esperança é avistada na Síria, de onde atualmente sai o maior número de refugiados para a Europa. Com o apoio da Rússia, o presidente sírio, Bashar Assad, conseguiu limpar a maior parte do território dos terroristas do Daesh (organização proibida na Rússia), e a guerra civil está prestes a acabar.

    Depois da visita da delegação russa, Assad confirmou para todos os refugiados que "é garantido o regresso seguro". Já está em curso o trabalho ativo para o retorno dos refugiados sírios dos países vizinhos — Turquia, Líbano e Jordânia — para participação da restauração do país árabe. Muito provavelmente, no futuro, serão realizadas negociações com Assad para firmar acordos parecidos de regresso de refugiados.

    Opinião do autor pode não corresponder à opinião da redação

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    Tags:
    asilo, assalto, fluxos migratórios, refugiados, crise, Muammar Kadhafi, Angela Merkel, Espanha, Alemanha, Europa, Líbia
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