16:06 23 Maio 2018
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    Soldados do Exército alemão na Lituânia (arquivo)

    UE quer liderar após EUA deixarem acordo com Irã, mas oferece mais dúvidas do que soluções

    © AP Photo / Mindaugas Kulbis
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    A Europa precisa substituir os Estados Unidos como líder mundial, já que Washington não se enquadra mais nesse papel, disse o chefe da Comissão Europeia após a saída da administração Trump do acordo nuclear com o Irã. Se a União Europeia (UE) pode fazer isso, é outra questão.

    "Neste ponto, temos que substituir os EUA que, como ator internacional, perderam o vigor e, por causa disso, a longo prazo, a influência", afirmou o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, ao falar ao parlamento regional da Bélgica na quarta-feira. Ele continuou dizendo que Washington estava se afastando das relações internacionais construtivas "com uma ferocidade que só pode nos surpreender".

    A principal autoridade europeia acusou os EUA de não estarem dispostos a "cooperar com outras partes do mundo". Suas palavras chegaram poucos dias depois de o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciar que retiraria os EUA do acordo nuclear iraniano, que ele denunciou repetidamente como "o pior acordo já negociado". Apesar de enfrentar críticas de outros envolvidos no acordo, bem como alguns outros membros da comunidade internacional, o líder dos EUA parece estar seguro da sua decisão.

    Juncker nunca abordou se a Europa é realmente capaz de ultrapassar os EUA no topo, no entanto. Enquanto isso, a última tentativa dos líderes da UE de exercer sua influência — convencendo Trump a permanecer no acordo com o Irã — foi um fracasso espetacular.

    Agora, os líderes europeus prometem trabalhar juntos e fazer o melhor para manter o acordo iraniano no lugar. Resta saber se podem fazê-lo, mesmo com a ajuda da Rússia, da China e do próprio Irã, que reafirmaram seu compromisso com o documento.

    Embora seja comparável com os EUA em termos de alguns indicadores econômicos gerais, como o PIB em preços correntes, a UE é muito mais heterogênea em sua estrutura, pois ainda há uma grande lacuna entre as nações ocidentais prósperas e os membros do bloco oriental mais novos, pelo menos quando se trata de desempenho econômico.

    Além disso, o futuro econômico da UE é incerto, já que o bloco está prestes a perder um dos seus maiores contribuintes líquidos — o Reino Unido — para o Brexit. Essa perspectiva já forçou Bruxelas a elaborar um novo orçamento da UE que envolve cortes de gastos e demandas por mais contribuições financeiras dos Estados membros ao mesmo tempo. Essas propostas provavelmente provocarão indignação dos países da Europa Oriental, que ainda são os principais receptores dos chamados fundos de coesão, que são usados para o desenvolvimento em países europeus mais pobres.

    As questões políticas também corroem a unidade da UE. A União ainda luta para desenvolver uma política comum de refugiados, já que seus membros orientais se recusam veementemente a aceitar mais migrantes, o que Bruxelas exige.

    Recentemente, a Europa também tem enfrentado uma onda de populismo associada à ascensão da direita em muitos países, outra dor de cabeça para Bruxelas. As autoridades da UE estão particularmente em desacordo com a Polônia e a Hungria sobre o que chamam de violações do Estado de direito. A UE já ameaçou repetidamente os dois Estados da Europa Oriental com sanções, que Varsóvia e Budapeste chamam de pressão política.

    Além disso, a França e a Alemanha parecem estar pressionando por uma profunda reforma da UE, exigindo ainda mais coesão dentro do bloco, já que uma parte significativa da população europeia parece desconfiada da União em sua atual posição.

    Anão militar

    Os EUA podem ter "perdido o vigor", mas ainda assim pagam grande parte das defesas europeias via OTAN. A ambição de Juncker pela liderança global da UE pode ser prejudicada pela falta de poder militar da União.

    Washington está gastando cerca de 2,5 vezes mais com a OTAN do que com o restante dos aliados, e Trump repetidamente criticou as nações europeias por não conseguirem acompanhar o ritmo. Apenas cinco dos 28 países da OTAN agora atingem a marca de 2% do PIB — EUA, Reino Unido, Estônia, Grécia e Polônia.

    O plano do exército conjunto da Europa foi apresentado pela primeira vez na década de 1950, e ainda está muito distante da realidade. O pacto da Cooperação Estruturada Permanente (CEP), que é o mais próximo de uma espécie de acordo de cooperação militar da UE, entrou em vigor apenas em dezembro de 2017. Trata-se de um número limitado de projetos de cooperação — como uma equipe de resposta rápida digital e um Comando Médico Europeu, e ainda não está claro se tudo funcionará como pretendido.

    Além disso, até mesmo uma potência econômica europeia como a Alemanha parece estar sofrendo de uma crise sobre suas Forças Armadas. A Bundeswehr, uma das maiores forças armadas da OTAN, tem sido recentemente uma fonte constante de notícias sobre aviões que não podem voar e tanques que quebram. Em algum momento, um infeliz incidente efetivamente deixou a Alemanha sem toda a sua frota de submarinos.

    Como se não bastasse, a reputação dos militares alemães sofreu recentemente de uma série de escândalos que vão desde estupros e casos de abuso sexual até alegadas simpatias nazistas entre alguns soldados.

    Em fevereiro de 2018, também ficou claro que a Alemanha estava mal preparada para liderar a força de 5.000 soldados da OTAN, que estava programada para liderar até 2019. Com tantas questões internas minando a liderança mundial da UE, talvez seja necessário ficar para trás os EUA por um tempo ainda.

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    Tags:
    JCPOA, segurança, defesa, acordo nuclear, OTAN, Bundeswehr, União Europeia, Donald Trump, Jean-Claude Juncker, Reino Unido, Alemanha, Irã, Europa, Estados Unidos
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