19:43 12 Abril 2021
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    Após água ter se juntado a outros ativos em Wall Street, Sputnik consultou sobre o tema a analista argentina de recursos naturais Elsa Bruzzone, autora do livro "As guerras da água".

    Em 7 de dezembro, a bolsa CME Group lançou o primeiro contrato de comércio de futuros de água do mundo, que começou a ser vendido sob o nome de índice Nasdaq Veles California Waters (NQH20). A indicação constata ser baseado no indicador de preços de água no estado da Califórnia, que em seu primeiro dia de operações valeu US$ 486,53 por acre-pé (R$ 2473,57), uma medida utilizada nos EUA, equivalente a 1.233 metros cúbicos.

    O lançamento do recurso ao mercado permitirá, de acordo com seus comercializadores, "uma melhor gestão dos riscos associados à escassez de água e uma melhor correlação entre oferta e demanda nos mercados". A Califórnia sofre escassez de água devido a secas frequentes, o que dificulta acesso à produção.

    A presença de futuros de água em Wall Street abre a possibilidade de investidores de todo o mundo especularem preços, bem como pode provocar efeito contagiante em outros países e regiões mundiais.

    "Não me surpreendi", reagiu à notícia a analista de recursos naturais Elsa Bruzzone em entrevista à Sputnik. "Volta a ser colocado sobre a mesa o debate de se a água é um direito humano ou uma mercadoria. Debate que nunca surgiu até o início da década de 1990 porque sempre foi subentendido que acesso à água era um direito humano", explicou.

    "Na década de 1990, o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional, as agências governamentais dos países mais ricos e as corporações transnacionais – muitas delas dedicadas ao comércio de água – instalaram a ideia de que [a água] pode ser mercadoria sujeita às leis da oferta e da demanda no mercado", constatou a especialista.

    Trader no salão da bolsa de valores de Wall Street observa variações nos preços das ações.
    © AP Photo / Mark Lennihan
    Trader no salão da bolsa de valores de Wall Street observa variações nos preços das ações

    Segundo a entrevistada, não seria estranho que surgissem conflitos entre países por possessão do recurso agora mais precioso, como aconteceu com outros recursos que são cotados na bolsa como petróleo ou ouro. A diferença deles é que a água é básica para a preservação da vida, apontou a analista.

    No entanto, nos últimos tempos estão surgindo cada vez mais conversações sobre contaminação de água no mundo, até mesmo entre políticos. Porém, classificando os pretextos dados por potências mundiais para proteção da água como "canções de sereia", a especialista pontua a necessidade de ficar alerta com estes debates de proteção, preservação e utilização racional de bens comuns provocadas por grandes potências. Assim, a água se tornou uma mercadoria, antes sendo um dos direitos humanos básicos.

    A ONU se expressou na mesma linha, afirmando que "a comercialização [da água] em Wall Street viola os direitos humanos fundamentais".

    Mesmo assim, o especialista sobre o direito à água Pedro Arrojo Agudo ressaltou que "a água tem um conjunto de valores vitais para nossa sociedade que a lógica do mercado não reconhece. Portanto, não pode se gerir adequadamente, e muito menos no âmbito financeiro tão propenso à especulação".

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    Tags:
    bolsa de valores, economia, água, Wall Street
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