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    Solo congelado da Groenlândia guardado durante projeto ultrassecreto na Guerra Fria revela que camada de gelo do Ártico é mais recente e mais sensível às mudanças climáticas. Se descongelar, pode aumentar nível dos mares em até sete metros.

    Cientistas do Exército dos EUA desenterraram o núcleo de gelo no noroeste da Groenlândia em 1966 como parte do Projeto Iceworm, uma missão secreta para construir uma base subterrânea que esconde centenas de ogivas nucleares, onde estariam dentro do alcance de ataque da União Soviética. Uma estação de pesquisa do Ártico chamada Camp Century foi foco do Exército para o projeto. Mas Iceworm fracassou e a base foi abandonada, deixando para trás o núcleo de gelo em um freezer na Dinamarca até ser redescoberto em 2017.

    Engenheiros do Laboratório de Engenharia e Pesquisa de Regiões Frias capturam um núcleo de gelo em Camp Century, Groenlândia. De 1961 a 1966, a equipe de pesquisa, liderada por Lyle Hansen, analisou o gelo do fundo do lençol glacial para estudar as condições atmosféricas de até 115.000 anos atrás
    © Foto / Pulic domain / ERDC Cold Regions Research and Engineering Laboratory
    Engenheiros do Laboratório de Engenharia e Pesquisa de Regiões Frias capturam um núcleo de gelo em Camp Century, Groenlândia. De 1961 a 1966, a equipe de pesquisa, liderada por Lyle Hansen, analisou o gelo do fundo do lençol glacial para estudar as condições atmosféricas de até 115.000 anos atrás

    Em estudo recente, o pedaço de solo congelado coletado durante a Guerra Fria revelou aos cientistas fósseis de plantas enterrados que podem ter "apenas" um milhão de anos, e este fato gera preocupação. Os cientistas estimavam que a atual camada de gelo da Groenlândia existe há cerca de 2,6 milhões de anos. No entanto, suas novas descobertas mostram que o gelo desapareceu quase inteiramente em algum momento mais recente.

    Se a nova pesquisa for confirmada e a maior parte do gelo da Groenlândia desapareceu há relativamente pouco tempo, não seria um indicativo positivo para a estabilidade de sua camada congelada atual em resposta às mudanças climáticas causadas pelo homem.

    Hoje em dia, a maior parte da Groenlândia é coberta por gelo, que se estende por 1,7 milhão de quilômetros quadrados, maior do que a extensão de todos os estados do nordeste juntos. Se todo este gelo derreter, os mares subiriam cerca de sete metros, de acordo com a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional.

    "Isso seria o suficiente para inundar cidades costeiras em todo o mundo", escreveram os pesquisadores no novo estudo publicado em março na revista Proceedings of the National Academy of Sciences.

    Ciência da Guerra Fria

    O Corpo de Engenheiros do Exército dos EUA começou a construir Camp Century em 1959. Eles extraíram um núcleo de gelo medindo 3,4 metros de uma profundidade de 1.368 metros abaixo do gelo.

    "O fundo do núcleo de gelo corresponde a pedaços congelados de sedimentos, de cerca de dez centímetros de comprimento e dez centímetros de largura", disse Andrew Christ, que lidera a pesquisa, ao Live Science. "Eles os colocaram em potes de biscoitos de vidro e os rotularam de 'Subgelo do Camp Century' – e então os esqueceram."

    Quando começaram a estudar o bloco de gelo e encontraram fósseis de plantas, os cientistas vibraram. Essas plantas, possivelmente de uma floresta boreal, poderiam crescer na Groenlândia apenas se a camada de gelo da ilha tivesse praticamente desaparecido, então a etapa a seguir foi descobrir o quão recentemente isso aconteceu, escreveram os autores do estudo.

    Com base nas taxas de isótopos, os autores do estudo determinaram que aquele pedaço de solo viu a luz solar pela última vez entre algumas centenas de milhares e cerca de um milhão de anos atrás. Traços de ceras nas folhas nos sedimentos do núcleo assemelham-se aos dos atuais ecossistemas de tundra na Groenlândia, de acordo com o estudo.

     Restos da antiga tundra da Groenlândia foram preservados no solo abaixo do manto de gelo
    Restos da antiga tundra da Groenlândia foram preservados no solo abaixo do manto de gelo
    "Definitivamente tínhamos um noroeste da Groenlândia sem gelo naquele período de tempo", disse Andrew Christ, que é professor do Departamento de Geologia da Universidade de Vermont, nos EUA.

    Os cientistas já vêm alertando para um processo acelerado de perda de gelo, com previsão de que a neve no inverno vai parar de reabastecer o derretimento sazonal em 2055.

    "Isso é importante à medida que avançamos para um futuro mais quente", ponderou Christ. "Nosso sistema climático tem um equilíbrio delicado. Se mudar o suficiente, você pode derreter grandes porções dessas camadas de gelo e elevar o nível do mar – o que inundaria e transbordaria grandes porções das áreas mais densamente povoadas da Terra."

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    Tags:
    fósseis, inundação, degelo, mudanças climáticas, Guerra Fria, Groenlândia, Ártico
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