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    Poucos sabem, mas próximo de Moscou estão enterrados os restos de um projeto ambicioso que teria rivalizado com o Grande Colisor de Hádrons, o maior e mais poderoso acelerador de partículas do mundo.

    O mais poderoso acelerador de partículas do planeta, o Grande Colisor de Hádrons (LHC, na sigla em inglês), foi concluído em 2008 pela Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear (CERN, na sigla em francês). Todavia, ainda na década de 1950, a União Soviética começou um projeto não menos ambicioso que teria rivalizado com a escala imensa do LHC.

    Primeiros passos

    Durante grande parte da Guerra Fria, cientistas soviéticos, europeus e americanos tentaram construir aceleradores de partículas cada vez mais poderosos para realizar experimentos importantes em física nuclear e de partículas. Essas complicadas e caras máquinas precisavam ser construídas em forma de anel e usar campos eletromagnéticos para propelir partículas carregadas com velocidades e energias extremamente altas de maneira a colidirem umas com as outras e permitir que os cientistas obtivessem informações cruciais para pesquisas em processos industriais, radioterapia, biomedicina, raios X etc.

    Sala de controle nas instalações VEPP-2, no Instituto de Física Nuclear da Seção Siberiana da Academia Soviética de Ciências, 1973
    © Sputnik / A. Lobov
    Sala de controle nas instalações VEPP-2, no Instituto de Física Nuclear da Seção Siberiana da Academia Soviética de Ciências, 1973

    O trabalho de criação de aceleradores começou quase simultaneamente, em meados dos anos 1950, na Itália, nos EUA e no Instituto Budker de Física Nuclear na cidade siberiana de Akademgorodok (literalmente Cidade da Ciência, em russo), perto de Novossibirsk, Rússia. Entre 1963 e 1974, os físicos soviéticos construíram três grandes colisores – o VEP-1 (VEP é a sigla russa para feixes de elétrons em colisão), o VEPP-2 (o segundo P é para pósitron) e o VEPP- 2M.

    Construção do UNK

    No entanto, com o passar dos anos 1980, os esforços soviéticos pareciam estar diminuindo. Enquanto outros países inauguravam novos aceleradores de partículas se aproveitando da revolução da tecnologia da informação, os cientistas soviéticos estavam presos à tecnologia da década de 1970 que, embora revolucionária na altura de sua criação, não podia mais por conta própria atender às demandas cada vez mais ambiciosas dos físicos.

    Em 1983, o governo soviético interveio e aprovou um novo projeto – o Complexo de Aceleração e Armazenamento, conhecido como UNK, uma enorme instalação científica com um túnel principal de 21 km (a título de comparação, o túnel do LHC tem 27 km de circunferência), dezenas de edifícios de apoio e a capacidade de fornecer aos pesquisadores até três mil giga-elétron-volts (GeV) de potência, ou seja, cerca de três vezes a do Laboratório Fermi National Accelerator, nos arredores de Chicago, Illinois, nos EUA, o acelerador de partículas mais poderoso do mundo na altura.
    Inauguração do projeto UNK.
    © Foto / Instituto de Física de Altas Energias
    Inauguração do projeto UNK

    Cerca de um bilhão de rublos soviéticos foram investidos no projeto e o UNK começou a ser construído a cerca de 100 km a sudoeste de Moscou, no Instituto de Física de Altas Energias em Protvino, um importante centro científico que ganhou destaque internacional na comunidade da física no final dos anos 1960 após a construção do síncrotron de prótons U-70, com a capacidade de gerar 76 GeV de energia de prótons, um recorde mundial na época.

    Construção de instalações de suporte sobre o solo para o acelerador de prótons UNK
    © Foto / Instituto de Física de Altas Energias
    Construção de instalações de suporte sobre o solo para o acelerador de prótons UNK

    UNK: entre a lebre e a tartaruga

    De acordo com o plano, o U-70 seria utilizado para a primeira etapa de aceleração, com um túnel de 21 km de comprimento, cinco metros de diâmetro interno e situado entre 20 metros e 60 metros de profundidade. Em intervalos de aproximadamente 1,5 km, seriam instaladas enormes salas subterrâneas contendo equipamentos de medição, com essas áreas conectadas à superfície por meio de poços verticais usados para fiação, transporte e outros fins.

    Entre 1983 e 1986, o trabalho prosseguiu em ritmo de tartaruga, com cerca de apenas 1,5 km do complexo do túnel construído. Em 1987, a construção foi intensificada drasticamente e, no que foi um passo sem precedentes na época, a URSS comprou um par de máquinas tuneladoras modernas da empresa canadense Lovat para ajudar no processo.

    Em 1989, cerca de 70% do anel do túnel principal e mais de 95% do "túnel de injeção" secundário, de 2,5 km, destinado à transferência de partículas do U-70 para o UNK, foram terminados, três dos 12 edifícios de apoio planejados foram concluídos e mais de 20 edifícios industriais de vários andares, conectados a comunicações e serviços, começaram a ser erguidos. Empolgados com o progresso acelerado, os físicos do instituto esperavam colocar a instalação em funcionamento e realizar seus primeiros experimentos em meados da década de 1990.

    Seção concluída do túnel.
    © Foto / Instituto de Física de Altas Energias
    Seção concluída do túnel

    Infelizmente, foi nessa época que o projeto começou a enfrentar dificuldades financeiras, com reformas econômicas e políticas desastradas, combinadas com a perda de muitos dos aliados do Conselho de Assistência Econômica Mútua da União Soviética, levando a um virtual congelamento do financiamento.

    Fim do sonho

    O colapso da União Soviética em dezembro de 1991 parecia selar completamente o destino do UNK. No entanto, o novo governo logo calculou que o custo de desativar o anel inacabado seria alto demais, enquanto o destruir por inundação representaria uma ameaça ao equilíbrio ecológico local. Portanto, nos três anos seguintes, a construção continuou e o túnel principal foi finalmente concluído em meados de 1994. Todavia, os componentes técnicos mais caros se mostraram impossíveis de completar. Por exemplo, apenas algumas dezenas dos 2.500 ímãs supercondutores, de dez toneladas cada um, foram entregues para instalação.

    Em 1998, o mesmo ano em que o CERN começou a construção do LHC, a Rússia não pagou suas dívidas externas e o projeto UNK foi encerrado para sempre. O túnel principal permanece preservado em um estado desativado e contém iluminação e ventilação de emergência em funcionamento, com água subterrânea bombeada para evitar o colapso do túnel.

    O CERN assinou um acordo de cooperação com o Instituto de Física de Altas Energias em 1993 e cerca de 700 cientistas russos (e muitos mais de outras antigas repúblicas soviéticas) acabaram participando da construção do LHC.

    Primeiro-ministro russo, Dmitri Medvedev, observa o detector de partículas ATLAS, construído no LHC, enquanto visita o CERN em Genebra, na Suíça.
    © Sputnik / Dmitry Astakhov
    Primeiro-ministro russo, Dmitri Medvedev, observa o detector de partículas ATLAS, construído no LHC, enquanto visita o CERN em Genebra, na Suíça
    Memória

    O projeto UNK tinha um site que, todavia, atualmente está fora do ar. Felizmente, existem registros do site, com fotos do projeto em vários estágios de construção em Wayback Machine.

    As instalações inacabadas do UNK continuam a ser uma fonte de fascínio para os "escavadores", jovens russos em busca de emoções que tentam entrar em áreas subterrâneas secretas. No entanto, qualquer viajante aventureiro esteja avisado: a instalação tem segurança no local e tomou medidas ativas para impedir as pessoas de entrarem "acidentalmente" na vasta cidade científica subterrânea inacabada.

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    Grande Colisor de Hádrons, Cern, LHC, União Soviética, União Soviética
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