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    Pesquisadores encontraram evidências conectando um anormal período de frio extremo na Roma antiga com uma fonte improvável: erupção maciça de um vulcão no Alasca, no lado oposto da Terra.

    Por volta da época do assassinato de Júlio César em 44 a.C., fontes escritas descrevem um período de clima excepcionalmente frio, quebras nas safras, fome, doenças e agitação na região do Mediterrâneo.

    Vulcão enigmático

    Esses fenômenos teriam contribuído para a queda da República Romana e do Reino Ptolemaico do Egito, e há muito que historiadores suspeitam que um vulcão seja a causa sem, contudo, conseguirem identificá-lo.

    Equipe internacional de cientistas e historiadores, liderada por Joe McConnell do Instituto de Pesquisa do Deserto (DRI, na sigla em inglês), de Reno (Nevada, EUA), em um novo estudo publicado em 22 de junho na revista PNAS, analisou – na tentativa de decifrar o enigma – amostras de piroclasto (vestígios vulcânicos) coletadas em núcleos de gelo ártico.

    O estudo indica que os pesquisadores conseguiram ligar o referido período de clima extremo inexplicável no Mediterrâneo à erupção do vulcão Okmok, no Alasca, ocorrida em 43 a.C.

    "É fascinante encontrar evidências de que um vulcão do outro lado da Terra entrou em erupção e contribuiu efetivamente para a morte de romanos e egípcios e a ascensão do Império Romano", afirmou McConnell, citado pelo portal.

    Resultados

    A descoberta foi feita no ano passado no DRI, quando McConnell e o pesquisador suíço Michael Sigl, da Universidade de Berna (Suíça) e coautor do estudo, coletaram de uma amostra de núcleo de gelo uma camada de piroclasto excepcionalmente bem preservada.

    Novas análises foram efetuadas em núcleos de gelo da Groenlândia e Rússia, algumas das quais coletadas nos anos 90 e conservadas em laboratórios dos EUA, Dinamarca e Alemanha.

    Usando estas e outras medições anteriores, os cientistas lograram determinar que tinham claramente ocorrido duas erupções distintas, um evento no início de 45 a.C. – poderoso, de curta duração e relativamente localizado – bem como outro muito maior, em 43 d.C. e mais expandido, com precipitação vulcânica que durou mais de dois anos.

    O vulcão Pavlof lança cinzas nas ilhas Aleutas do Alasca (foto de arquivo)
    © REUTERS / US Coast Guard/Lieutenant Commander Nahshon Almandmoss
    O vulcão Pavlof lança cinzas nas ilhas Aleutas do Alasca (foto de arquivo)

    Os pesquisadores realizaram então uma análise geoquímica das amostras do piroclasto da segunda erupção encontrada no gelo, comparando os pequenos fragmentos com os da erupção de Okmok II no Alasca, uma das maiores erupções vulcânicas dos últimos 2.500 anos.

    "Comparamos a impressão digital química do piroclasto encontrada no gelo com o de vulcões que se pensa tenham entrado em erupção naquela época, ficando muito claro que sua fonte foi a segunda erupção em 43 a.C. do vulcão Okmok II", disse Gill Plunkett, coautor do estudo.

    A equipe internacional coletou evidências de suporte em todo o mundo, incluindo registros climáticos baseados em anéis de árvores da Escandinávia, das Montanhas Brancas da Áustria e da Califórnia e registros climáticos de espeleotema (formações rochosas) da caverna Shihua no nordeste da China.

    Usaram então a modelagem do sistema Terra para desenvolver uma compreensão mais completa do tempo e magnitude do vulcanismo durante este período e seus efeitos sobre o clima e a história.

    De acordo com suas descobertas, os dois anos após a erupção do Okmok II foram alguns dos mais frios do Hemisfério Norte nos últimos 2.500 anos e a década que se seguiu foi a quarta mais fria.

    Os modelos climáticos sugerem que as temperaturas médias sazonais podem ter caído até 7 °C abaixo do normal durante o verão e outono que se seguiram à erupção de 43 a.C., com precipitações de verão de 50 a 120 por cento acima do normal em toda a Europa do Sul e precipitações de outono superando quatro vezes o habitual.

    "Na região do Mediterrâneo, estas condições úmidas e extremamente frias durante a primavera, que é extremamente importante para a agricultura, provavelmente afetaram as colheitas, agravando os problemas de abastecimento durante as convulsões políticas do período", afirmou o arqueólogo Andrew Wilson da Universidade de Oxford e coautor do estudo.

    "Estas descobertas dão credibilidade aos relatos de frio, fome, escassez de alimentos e doenças descritos por fontes antigas", concluiu.

    "Particularmente impressionante foi a gravidade da inundação do Nilo na época da erupção de Okmok e a fome e a doença que foram relatadas em fontes egípcias", acrescentou Joseph Manning, historiador da Universidade de Yale (EUA) e igualmente coautor, para quem "os efeitos climáticos foram um choque severo para uma sociedade já estressada em um momento crucial da [sua] história."

    Maus presságios

    A atividade vulcânica também ajuda a explicar certos fenômenos atmosféricos incomuns que foram descritos como presságios na época do assassinato de Júlio César – coisas como halos solares, escurecimento do Sol no céu, ou parélios (fenômenos óticos atmosféricos em que surgem pontos de luz ao lado do Sol).

    No entanto, datando muitas dessas observações de antes da erupção de Okmok II em 43 a.C., estariam provavelmente relacionadas a uma erupção de menor amplitude do monte Etna em 44 a.C.

    Etna em erupção
    © REUTERS / Antonio Parrinello
    Etna em erupção

    Embora os autores do estudo reconheçam que muitos outros fatores tenham contribuído para a queda da República Romana e do Reino Ptolemaico, acreditam, no entanto, que os efeitos climáticos da erupção de Okmok II desempenharam um papel inegavelmente importante.

    Opinam, assim, que sua descoberta ajuda a preencher uma lacuna de conhecimento sobre este período da história que há muito intrigava arqueólogos e historiadores antigos.

    "As pessoas têm especulado sobre isso há muitos anos, por isso é entusiasmante poder dar algumas respostas", congratulou-se McConnell.

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    Tags:
    Roma, Itália, Alasca, vulcão
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