20:11 22 Setembro 2018
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    Módulos Antárticos Emergenciais do Proantar

    Por que o Brasil faz investimentos científico-militares na Antártica?

    Marinha do Brasil / Divulgação
    Ciência e tecnologia
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    Após alertas de pesquisadores de que a parte científica do Programa Antártico Brasileiro deveria ser paralisada no final deste mês por falta de recursos, a divulgação de edital para o financiamento de 75 bolsas de pesquisa na área traz alento à comunidade científica brasileira.

    A participação do Brasil na Antártica ganha sobrevida com o edital do Governo Federal para pesquisa no continente, anunciando verbas para 75 bolsas. Em entrevista à Sputnik Brasil, o geógrafo Jefferson Simões, vice-presidente do Comitê Científico sobre Pesquisa Antártica, ressalta a importância do financiamento em um momento de cortes no Orçamento do Governo Federal.

    "[O edital] está salvando o Programa Antártico Brasileiro. Porque desde 2013 nós não tínhamos nenhum edital, o programa estava em uma situação emergencial, e isso vai possibilitar a continuidade desse programa essencial para manutenção do protagonismo brasileiro na questão da Antártica", afirma o professor da UFRS – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, relembrando que os recursos garantem o projeto para os próximos três a quatro anos.

    Ao todo serão investidos R$ 18 milhões, sendo R$ 5,7 milhões apenas para o financiamento de bolsas de mestrado e doutorado. O restante será usado para o custeio dos insumos de material de pesquisa laboratorial e missões de campo. "Muitas vezes os cientistas passam até três meses isolados", aponta o geógrafo. Segundo ele, cerca de 75% das pesquisas são realizadas em acampamentos temporários e nos navios de pesquisa da Marinha Almirante Maximiano e Ary Rongel.

    Atualmente, com a Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF) em processo de reconstrução após um incêndio que a destruiu em fevereiro de 2012, a Marinha presta apoio aos projetos científicos por meio dos Módulos Antárticos Emergenciais (MAE), complexo provisório que abriga cientistas e militares brasileiros, dispostos em 45 módulos, em uma área de aproximadamente 940m². Além, é claro, do uso do Navio Polar Almirante Maximiano e do Navio de Apoio Oceanográfico Ary Rongel, dos acampamentos na região e da ocupação de estações científicas de outros países por meio de cooperação internacional.

    Reconstrução da Estação Antártica Comandante Ferraz
    Marinha do Brasil / Divulgação
    Reconstrução da Estação Antártica Comandante Ferraz

    Ao todo, 32 países trabalham na região. Segundo o professor Jefferson Simões, o programa, com os novos recursos, deverá manter a liderança do Brasil na América Latina, mas o orçamento ainda será inferior ao investido pelos outros países do grupo BRICS.

    "O Proantar é um programa de nível intermediário, mas é líder na América Latina. Acredito que com esses novos recursos nós conseguiremos manter nos próximos quatro anos essa liderança. Estamos melhorando muito a nossa produção intelectual", ressalta o cientista, que lamenta o fato de o investimento brasileiro ser menor do que o de outros países menos desenvolvidos.

    "Evidentemente, é um programa – temos que ser realistas – pobre. O Brasil é o que menos investe do BRICS. Ele investe menos que a África do Sul, um país que tem um nível socioeconômico e um IDH [Índice de Desenvolvimento Humano] menor que o do Brasil, e com os mesmos problemas brasileiros", aponta Simões.

    O pequeno investimento não afetou apenas o campo da pesquisa, mas o Proantar como um todo. Em entrevista à Sputnik Brasil, o capitão-de-mar-e-guerra Eduardo Júnior, responsável pela logística do programa, informou que a Marinha foi impactada diretamente com os cortes no orçamento.

    "Os cortes no orçamento do Proantar impactaram significativamente o processo de abastecimento e manutenção da EACF, bem como a manutenção dos meios navais e aeronavais que participam do programa. Entretanto, a Marinha do Brasil o suplementa com muito esforço, retirando do orçamento da Força parcela significativa para atender às demandas dos projetos científicos", enfatiza o comandante.

    A previsão de conclusão da Estação é para março de 2019, com um processo licitatório orçado em US$ 98 milhões. Ainda de acordo com Eduardo Júnior, as novas edificações da EACF configuram uma área de aproximadamente 4.500m² dividida em seis setores distintos: privativo, social, de serviços, de operação/manutenção, de laboratórios e de módulos isolados. "Destaca-se no projeto arquitetônico a área de laboratórios, conformando 14 unidades no prédio principal, projetadas para atender a uma multiplicidade de exigências, denotando a prioridade do Proantar para as atividades científicas", enfatiza o comandante.

    Para o militar, a presença brasileira no continente é fundamental para que o país tenha poder decisório sobre o futuro da região.

    "O reconhecimento internacional de nossa presença na Antártica permitiu, em 12 de setembro de 1983, a aceitação do Brasil como Parte Consultiva do Tratado da Antártica. O status de membro consultivo do Tratado da Antártica permite ao Brasil participar das decisões sobre o futuro do continente", destaca Eduardo Júnior.

    A Antártica é vista como estratégica por diversos países do mundo, principalmente em relação às mudanças climáticas. Para o vice-presidente do Comitê Científico sobre Pesquisa Antártica, Jefferson Simões, a região é fundamental no controle do clima no planeta.

    "O gelo da Antártica é tão importante quanto a Amazônia no controle do sistema climático. A circulação atmosférica e oceânica é controlada tanto pelos trópicos quanto pelo gelo da Antártica", explica Simões.

    Além das mudanças climáticas, o edital do Governo Federal abrange áreas de pesquisa como criosfera, ecossistemas antárticos, geodinâmico na Antártica, química dos oceanos e medicina polar. O cientista ressalta que, apesar de num primeiro momento as pesquisas parecerem fora da realidade brasileira, há uma estratégia em procurar relações entre aquele continente e o país.

    "Ficou claro nesse edital que todos os temas estão seguindo um plano de ação que foi estabelecido em 2013 e vai até 2022. Existe uma estratégia de procurar relações entre o Brasil e a Antártica", explica o professor.

    Para ter o programa em funcionamento, a Marinha do Brasil mantém na EACF uma equipe de 15 militares durante o período de um ano, para apoio aos projetos científicos. De acordo com o capitão-de-mar-e-guerra Eduardo Júnior, a operação dos navios e o funcionamento da Estação se caracteriza pela época do ano.

    "Durante o verão antártico, período de outubro a março, os dois navios [Navio Polar Almirante Maximiano e Navio de Apoio Oceanográfico Ary Rongel] partem do Rio de Janeiro em direção à EACF, a fim de efetuarem abastecimento de gêneros e combustíveis necessários ao funcionamento das instalações. Durante o inverno, período de abril a setembro, os navios regressam ao Rio de Janeiro para efetuarem as manutenções de rotina e reabastecerem para a próxima operação. Nesse período, permanece na EACF somente o grupo composto por 15 militares", explica o oficial.

    As temperaturas médias no continente costumam variar entre 30°C e 65°C negativos. É nesse cenário que irão trabalhar os pesquisadores brasileiros que pretendem se inscrever no edital. As propostas de pesquisa devem ser encaminhadas ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) até 8 de outubro, e o resultado deve ser divulgado em 30 de novembro.

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    Tags:
    ecossistemas, mudanças climáticas, estação de pesquisa, pesquisa científica, Marinha do Brasil, Estação Antártica Comandante Ferraz, Jefferson Simões, África do Sul, América Latina, Antártica, Brasil
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