07:15 02 Agosto 2021
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    Para especialista ouvido pela Sputnik Brasil, o etanol ainda é rentável mesmo com custos de produção elevados, por conta dos preços atuais do barril do petróleo em torno R$ 370 e pelo perfil poluente do combustível de origem fóssil.

    Especialistas estimam que os dois maiores produtores de etanol do mundo, Estados Unidos e Brasil, podem reduzir a fabricação de etanol nos próximos meses. O motivo seria o aumento dos custos do milho e da cana-de-açúcar, que acabam por repassar os valores para o biocombustível.

    Diante das apostas de perda da viabilidade econômica do etanol, Marcos Fava Neves, titular do Departamento de Administração da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto da USP, discorda. O professor disse à Sputnik acreditar que com o valor elevado do petróleo, o etanol segue rentável.

    "Cabe ainda esse aumento de custos de produção para a fabricação de etanol tanto de cana como de milho, com o petróleo acima de US$ 70 (R$ 347) como está agora ainda permite rentabilidade para essas produções", pontuou.

    Os EUA e o Brasil foram responsáveis por cerca de 75% das exportações globais no ano passado. E juntos, representam cerca de 90% do etanol produzido e consumido no mundo, segundo a S&P Global Platts Analytics. Por conta disso, Neves não acredita que os EUA reduzam a produção. E caso venham a diminuir, isso pode significar uma chance para o Brasil levar o produto nacional para mais exportações.

    Em Windsor, no estado norte-americano Colorado, uma usina de etanol funciona ao lado de silos de milho, em 7 de julho de 2006
    © REUTERS / Rick Wilking
    Em Windsor, no estado norte-americano Colorado, uma usina de etanol funciona ao lado de silos de milho, em 7 de julho de 2006

    A produção de etanol brasileiro vem enfrentando diversos desafios na última década, apesar de incentivos públicos. Desde 1993, o etanol anidro é adicionado na gasolina em todo o país. Atualmente, é permitido até 27% de etanol na mistura direta nas bombas. Também o aumento da frota de veículos leves e a introdução de carros flex no país, que podem funcionar com gasolina ou etanol ou qualquer mistura dos dois aumentaram o consumo. Mas mesmo assim o biocombustível não "deslanchou" em produtividade e segue estável se observarmos os últimos 10 anos.

    Para o professor, isso é explicado pelos custos elevados do agronegócio. "A produção ficou mais cara, as terras ficaram mais caras, os insumos ficaram mais caros. Os custos aumentaram, mas a produtividade não aumentou. Esse é o problema principal", apontou o especialista.

    Além disso, os produtores de cana, principalmente da região centro-sul, enfrentam uma grave seca, que deve reduzir a safra de maneira considerável, entre 5% a 10%, segundo estimativas. Para o professor, essa redução é favorável para preços com a retomada da economia.

    "Isso significa menor volume de açúcar e de etanol para um consumo maior em virtude de retomada da economia mundial, que vai precisar de mais alimentos e mais combustível. Essa redução de safra vai trazer preços maiores", conclui.

    Ao passo que a redução na produção de etanol brasileiro afeta o preço e a oferta de combustíveis no país, ainda assim é possível acreditar em uma recuperação no médio prazo.

    "É o melhor combustível hoje em termos de emissões por desempenho. As pressões mundiais pela descarbonização são muito favoráveis para a cana", diz o professor ao destacar que o grande desafio é driblar o gargalo dos custos de produção para produzir mais usando menos.

    Para ele, o Brasil voltando a crescer e o mercado de combustível paralelamente na mesma direção, pode haver "uma pressão grande", para "segurar o consumo", principalmente a partir do segundo semestre e no período de entressafra.

    Trator movimenta farelo de cana de açúcar para produção de biocombustível em 28 de janeiro de 2010
    © Folhapress / Pierre Duarte
    Trator movimenta farelo de cana de açúcar para produção de biocombustível em 28 de janeiro de 2010

    Sobre a proposta da Federação Nacional do Comércio de Combustíveis e de Lubrificantes (Fecombustíveis) que solicitou ao governo federal que reduza a mistura obrigatória de etanol à gasolina brasileira, Neves opina totalmente contra, para ele "não há nenhum sinal de escassez" de etanol pra justificar a medida.

    "Não sou favorável a mudança de regras do jogo, pois os investidores quando fazem os seus investimentos eles olham pra regras do jogo e não podemos ficar alterando isso", e completou "não faz o mínimo sentido solicitar a redução [da mistura] e com certeza é um retrocesso brutal do ponto de vista ambiental", avaliou.

    Até mesmo novas tecnologias de carros elétricos vem considerando o uso de etanol como um tipo de bateria sustentável no desenvolvimento de carros menos poluentes, comentou também Marcos Fava Neves.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    petróleo, etanol, produção, Brasil, EUA, milho, cana-de-açúcar, biocombustível, combustível, preços de combustíveis
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