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    Situação com coronavírus no Brasil em meados de março de 2021 (116)
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    A Sputnik Brasil conversou com especialistas para entender quais deveriam ser as prioridades do novo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, que substituiu o general Eduardo Pazuello.

    Em um dos momentos mais graves da pandemia de COVID-19 no país, o presidente Jair Bolsonaro anunciou, na segunda-feira (15), o quarto ministro da Saúde desde o início da crise sanitária.

    O cardiologista Marcelo Queiroga, escolhido para assumir o posto até então ocupado pelo general Eduardo Pazuello, foi indicado ao cargo pelo senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), filho do presidente. Queiroga é presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia e, após as eleições de 2018, participou da equipe de transição de governo, contribuindo para as questões relacionadas à Saúde.

    Como novo ministro, já declarou que o lockdown "não pode ser política de governo" e só deve ser aplicado em "situações extremas".

    Porém, para especialistas da área médica com quem a Sputnik Brasil conversou, o cenário de caos no país que Queiroga herda de Pazuello demanda algumas medidas urgentes do ministro.

    No Rio de Janeiro, uma mulher carrega flores no cemitério São Francisco Xavier no Dia de Finados, em meio à pandemia da COVID-19, em 2 de novembro de 2020
    © Folhapress / Jorge Hely
    No Rio de Janeiro, uma mulher carrega flores no cemitério São Francisco Xavier no Dia de Finados, em meio à pandemia da COVID-19, em 2 de novembro de 2020

    Após mais de um ano do registro do primeiro caso de COVID-19 em território nacional, o Brasil atingiu, nesta semana, a marca de 282 mil mortes em função da doença, com mais de 11,6 milhões de diagnósticos confirmados.

    Só nesta terça-feira (16), foram 2.798 óbitos e 84.124 casos em 24 horas. A média móvel dos últimos sete dias é de 1.976, novamente um recorde. Com relação à média de 14 dias atrás, a variação foi de +48%, o que indica uma tendência de alta nos óbitos pela doença.

    O descontrole do número de novos casos tem feito hospitais de diversas cidades do país entrar em colapso. Muitos municípios em estados como São Paulo e Paraná já anunciaram que estão sem leitos de UTI para atender novos pacientes, acarretando em mais mortes de pessoas que sequer conseguiram tratamento adequado contra a COVID-19.

    Ao todo, 23 estados mais o Distrito Federal estão com a quantidade de mortes em alta. Neste momento, apenas o Rio de Janeiro e o Amazonas veem uma redução no número de óbitos. Na Bahia, há estabilidade.

    Além disso, o lento processo de vacinação em uma população de 212 milhões de habitantes ainda não contribui para achatar a curva de contágios. Até esta terça-feira (16), 10.389.077 de pessoas receberam ao menos a primeira dose. O número representa apenas 4,91% da população.

    Segundo a epidemiologista Ethel Maciel, professora da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), o novo ministro deveria, primeiramente, criar um gabinete contra a crise, centralizando ações de forma coordenada.

    Em seguida, a especialista cita outros pilares para o país vencer a batalha contra a doença: a mudança nas recomendações sobre o uso de máscaras e isolamento social, a aquisição de novas vacinas e testagem em massa.

    "O que nós esperamos é que efetivamente o ministro da Saúde cuide da saúde dos brasileiros e brasileiras. E para isso, o Ministério da Saúde deve pautar o que é necessário, e não o contrário. Não o presidente dizer para o ministério, um presidente que não é da área da saúde e que não compreende quais são as questões técnicas necessárias. Deve ser o contrário", disse Maciel em entrevista à Sputnik Brasil.
    Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, usa máscara protetora durante cerimônia no Palácio do Planalto, Brasília, 10 de março de 2021
    © REUTERS / Ueslei Marcelino
    Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, usa máscara protetora durante cerimônia no Palácio do Planalto, Brasília, 10 de março de 2021

    A epidemiologista acredita ainda que a coordenação da crise deve envolver não só a Saúde, mas também setores como a Educação, a Assistência Social e a Economia.

    "Precisamos que as pessoas tenham acesso ao auxílio emergencial, e auxílio emergencial digno, para que elas possam fazer um isolamento. Para tudo isso, é preciso, principalmente, uma coordenação técnica pautada na Ciência, nas evidências científicas", afirmou.

    Maciel lembrou ainda que, atualmente, mais de um ano após a descoberta do novo coronavírus, a humanidade já tem conhecimentos mais aprofundados sobre os remédios que funcionam, quais são inúteis contra a COVID-19 e aqueles que ainda estão sendo estudados.

    "O ministério precisa ter uma recomendação para todo o território nacional. Nós não podemos mais ficar administrando medicamentos que não têm evidência científica, causando, inclusive, efeitos adversos importantes em várias pessoas, que precisam procurar o serviço da saúde por conta dos efeitos dos medicamentos", disse.
    Organização Mundial da Saúde (OMS) excluiu a cloroquina da lista de opções em análise para o tratamento da COVID-19
    © Folhapress / Dirceu Portugal /Fotoarena
    Organização Mundial da Saúde (OMS) excluiu a cloroquina da lista de opções em análise para o tratamento da COVID-19

    A virologista Giliane Trindade vai na mesma linha. Segundo a especialista, professora do Departamento de Microbiologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o primeiro passo deveria ser de fato estabelecer uma gestão coordenada em todo o país.

    Ela afirma que o ministério precisa ser o ponto de referência nacional, tanto para a tomada de decisões, como para a comunicação com a população.

    "É muito importante que as decisões sejam tomadas no sentido de se abolir medidas negacionistas e de se enfatizar a necessidade e a importância das medidas sanitárias que nós temos para frear essa pandemia", disse Trindade, citando o uso de máscaras, a higienização das mãos, o distanciamento social e a importância de evitar aglomerações.

    A virologista vai além e aponta o caminho do lockdown como fundamental para poder conter a pandemia. Ela lembra que, quanto mais o vírus circular pelo território nacional, maiores as chances de surgirem novas variantes, cada vez mais transmissíveis e letais.

    Outra medida importante, segunda Trindade, é a ampliação dos leitos de UTI. Em sua visão, o Ministério da Saúde deveria ter um plano em caráter nacional para garantir mais internações, com todas as regiões do Brasil envolvidas.

    Por último, a especialista aponta que o governo precisa trabalhar para adquirir mais vacinas para a população. Segundo a Organização Mundial da Saúde, para poder impedir a circulação do vírus, um país precisa ter no mínimo de 60% a 70% de sua população imunizada.

    "Essa combinação de lockdown com ampliação da vacinação vai ser crucial para a gente poder frear essa pandemia, para gente poder evitar essa disseminação tão rápida do vírus e seus desdobramentos como a geração dos mutantes que nós estamos observando e que, por sua vez, tem como consequência um aumento do uso dos leitos, das enfermarias e da necessidade de assistência hospitalar", indicou a virologista.
    Mulher indígena observa segunda dose da vacina CoronaVac contra o SARS-CoV-2 em uma unidade de saúde de Guarulhos, São Paulo, Brasil, 2 de março de 2021
    © REUTERS / Carla Carniel
    Mulher indígena observa segunda dose da vacina CoronaVac contra o SARS-CoV-2 em uma unidade de saúde de Guarulhos, São Paulo, Brasil, 2 de março de 2021

    Como agir para salvar vidas dos que já estão com a doença?

    Para Gulnar Azevedo e Silva, presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), é preciso garantir uma boa logística e coordenação de ações entre os órgãos de Saúde.

    Em entrevista à Sputnik Brasil, a especialista disse que o Ministério da Saúde deve dar todo o suporte necessário para que estados e municípios possam fazer o melhor para os pacientes na ponta desta cadeia.

    "Uma vez identificando que é um caso que vai necessitar de assistência, o mais rápido possível essa pessoa tem que ser encaminhada e transferida. Então, é necessário mobilizar todo o esquema de transporte e o SAMU [Serviço de Atendimento Móvel de Urgência]. Lugares que tenham dificuldade têm que chamar o corpo de bombeiros. O que for possível, todo o serviço e toda a estrutura de Estado têm que se mobilizar para isso", afirmou Azevedo, que também é professora do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).
    Ala de emergência no hospital Nossa Senhora da Conceição, em Porto Alegre (RS), lotado em função da pandemia do coronavírus
    © REUTERS / Diego Vara
    Ala de emergência no hospital Nossa Senhora da Conceição, em Porto Alegre (RS), lotado em função da pandemia do coronavírus

    Nos hospitais, segundo ela, é importante saber verificar que nível de cuidado cada paciente vai necessitar.

    E para o bom funcionamento de todos os processos, desde a identificação do caso até o tratamento intensivo, o Sistema Único de Saúde (SUS) e também os hospitais privados precisam de apoio do governo federal, seja investindo em mais leitos ou deslocando mais profissionais para atender localidades com alta demanda.

    "Toda a equipe [médica] tem que estar muito integrada para poder garantir o melhor. E é isso que nós queremos, um sistema de saúde que responda a isso. Mas neste momento é urgente a garantia de vagas e a regulação rápida. O que a gente está assistindo de pessoas esperando, com filas grandes, mais de 100 pessoas esperando um leito... Isso é inaceitável. O SUS não precisava estar passando por isso se os profissionais estivessem sendo valorizados", afirmou a presidente da Abrasco.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Marcelo Queiroga, Jair Bolsonaro, Eduardo Pazuello, Ministério da Saúde, Ministro da Saúde, novo coronavírus, pandemia, COVID-19
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