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    Situação com coronavírus no Brasil em meados de março de 2021 (116)
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    Com a chegada de Marcelo Queiroga ao Ministério da Saúde, o que deve mudar no combate à COVID-19 no Brasil? Para responder esse questionamento, a Sputnik Brasil conversou com dois especialistas em saúde pública.

    Ontem (15), em uma leitura sobre as recentes trocas no Ministério da Saúde do Brasil, o vice-presidente Hamilton Mourão foi sucinto: "Difícil alguém consertar tudo". A frase, em si, revela uma espécie de reconhecimento por parte do governo de Jair Bolsonaro de que a situação da pasta havia chegado a um limite.

    Além do caos com relação à falta de diretrizes centralizadas no combate à pandemia, e os problemas com a vacinação em massa, a tragédia em Manaus está em vias de ser cobrada no Congresso. Senadores admitem abertamente a possibilidade de uma CPI da COVID-19 atingir o ex-ministro Eduardo Pazuello, assim como o presidente da República.

    A troca de ministros - a quarta em dois anos - deflagrou a necessidade de uma mudança radical no combate à pandemia, assim como o temor do Executivo com as possíveis conclusões de uma CPI. Mas o que muda, de fato, no Ministério da Saúde? Quais são as intenções do presidente com a chegada de Marcelo Queiroga?

    O novo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, chega ao Ministério da Saúde, em Brasília (DF), 15 de março de 2021
    © Folhapress / Raul Spinassé
    O novo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, chega ao Ministério da Saúde, em Brasília (DF), 15 de março de 2021

    Em entrevista à Sputnik Brasil, o fundador da Anvisa, Gonzalo Vecina Neto, e o médico epidemiologista da UERJ Guilherme Werneck, comentaram as mudanças na pasta e suas consequências.

    Eduardo Pazuello: general ou ministro?

    O general Eduardo Pazuello assumiu o Ministério da Saúde quando o Brasil tinha 15 mil mortos pela COVID-19. Ele entrega o cargo com quase 280 mil. Na avaliação do vice-presidente do Brasil, "a realidade é que a gestão do Pazuello vem sendo muito criticada, muito contestada".

    Para Guilherme Werneck, "o general [Eduardo] Pazuello foi incapaz de agir de forma efetiva no Ministério da Saúde para conter a pandemia da COVID-19 no país. O saldo da gestão do general Pazuello é de 280 mil mortes e 12 milhões de casos de pessoas infectadas. É uma gestão que representa um fracasso. E mais: [ele] sai do Ministério com um plano nacional de imunizações pouco efetivo e incapaz de garantir à população brasileira uma cobertura vacinal rápida e abrangente".
    Ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, durante cerimônia de distribuição da CoronaVac, em São Paulo, 18 de janeiro de 2021
    © REUTERS / Carla Carniel
    Ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, durante cerimônia de distribuição da CoronaVac, em São Paulo, 18 de janeiro de 2021

    Expectativa para o novo ministro

    Meio ao caos da pandemia, a troca no ministério foi vista com bons olhos para ambos especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil. Porém, eles lembraram que após a médica Ludhmila Abrahão Hajjar ter recusado o convite, médicos e autoridades sanitárias ligaram o sinal de alerta: havia algo acontecendo nos bastidores. Posteriormente, em entrevista, ela explicou:

    "Acho que esse não é o momento para que eu assuma a pasta do Ministério da Saúde por alguns motivos, principalmente por motivos técnicos". Em seguida, ela disse que o que aprendeu "está acima de qualquer ideologia e acima de qualquer expectativa que não seja pautada em ciência".

    Médica Ludhmila Abrahão Hajjar é vista embarcando no aeroporto de Brasília, no Distrito Federal, após reunião com o presidente Jair Bolsonaro
    © Folhapress / Mateus Bonomi
    Médica Ludhmila Abrahão Hajjar é vista embarcando no aeroporto de Brasília, no Distrito Federal, após reunião com o presidente Jair Bolsonaro
    Questionado sobre a mudança em meio a este contexto, Guilherme Werneck entende que "a chegada do doutor Marcelo Queiroga ao Ministério da Saúde gera mais dúvidas e do que expectativas de uma mudança de rumo" no que tange ao enfrentamento da COVID-19 no país.

    Guilherme enfatizou que este é quarto ministro em dois anos. Segundo ele, os dois primeiros foram exonerados porque pautaram seu trabalho no conhecimento científico. O especialista explicou porque não acredita que novo ministro conseguirá impor uma nova agenda à pasta.

    "Primeiro, ele não foi a primeira pessoa convidada para ocupar o cargo. A pessoa que foi convidada, a médica Ludhmilla Hajjar, manifestou ao presidente as condições para assumir o Ministério da Saúde: seguir a ciência e autonomia para mudar radicalmente o enfrentamento da pandemia no país. Mas isso não foi aceito pelo presidente", afirmou.

    Em seguida, ele questionou: "Será que esse Ministério da Saúde vai enfrentar as ideias do presidente e promover uma mudança radical de rumos? Essa é a pergunta e a expectativa que os próximos dias responderão".

    Presidente Jair Bolsonaro mostra caixa de cloroquina durante cerimônia de posse do ministro da Saúde, general Eduardo Pauzello, no salão nobre do Palácio do Planalto, em Brasília (DF)
    © Folhapress / Edu Andrade/Fatopress
    Presidente Jair Bolsonaro mostra caixa de cloroquina durante cerimônia de posse do ministro da Saúde, general Eduardo Pauzello, no salão nobre do Palácio do Planalto, em Brasília (DF)

    Fundador da Anvisa, Gonzalo Vecina partilha deste entendimento, e ainda fez uma alerta: "Eu acho que ele que pode durar menos tempo que o Nelson Teich". Segundo ele, "o presidente [Bolsonaro] tem opiniões absolutamente estapafúrdicas em relação ao isolamento social, o uso de máscaras... Se ele tentar fazer com que o ministro assuma essas opiniões, será desastroso".

    Incerteza e um voto de confiança

    Ao falar sobre o novo ministro, tanto Gonzalo Vecina quanto Guilherme Werneck defendem um voto de confiança ao profissional. Nas palavras do fundador da Anvisa, "quando a situação está assim, e há uma troca, a gente sempre espera que essa troca seja para melhor. Eu não quero que o Brasil fique pior, eu quero que o Brasil fique melhor. A minha esperança é que o Queiroga possa trazer isso".

    Vecina avalia que Queiroga "é um médico bem formado, tem pós-graduação, e particularmente é uma liderança dentro da profissão, entre os cardiologistas, que o elegeram presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia, uma das mais importantes que temos. O Queiroga é um homem bem preparado, e é bolsonarista. Aparentemente, por tudo o que ele tem falado, ele não é um negacionista".

    ​"É uma pessoa bem informada, aparentemente já demonstrou que não é a favor do uso de medicamentos que não tenham sido aprovados para serem utilizados na pandemia. Minha esperança é que ele consiga fazer o que precisa ser feito: constituir uma boa equipe, substituir os militares que não entendem de saúde, e fazer um bom governo", afirmou.

    Guilherme Werneck, por sua vez, disse que "o doutor Marcelo Queiroga se manifestou em outras ocasiões com aspectos que eu considero interessantes e básicos para que uma pessoa seja capaz de uma forma efetiva guiar o Ministério da Saúde. Ou seja: tratamentos devem se basear na melhor evidência científica, vacinas são as melhores opções para o controle da pandemia, e são necessárias ações de distanciamento social para que se reduza a transmissão".

    O especialista advertiu, todavia, que essas manifestações não vão ao encontro dos interesses do governo Federal. Neste sentido, Gonzalo Vecina alertou: "o presidente [Bolsonaro] tem uma opinião hoje, e amanhã outra. Diferente é a posição do Queiroga. Precisamos dar um voto de confiança à ele".

    Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, retira máscara protetora durante cerimônia no Palácio do Planalto, 10 de março de 2021
    © AP Photo / Eraldo Peres
    Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, retira máscara protetora durante cerimônia no Palácio do Planalto, 10 de março de 2021

    O Ministério da Saúde precisa de autonomia

    Ambos especialista ouvidos por esta reportagem acreditam que isolamento social é, ocasionalmente, necessário, e a autonomia do ministério, imprescindível. No entanto, o que se tem visto até agora é um governo federal que insiste em intervir nos assuntos da pasta da Saúde.

    Para Gonzalo Vecina, esse será o grande desafio de Marcelo Queiroga. "Espero que ele consiga alguma autonomia, particularmente com relação ao centrão. Porque algumas das pessoas que ele vai ter que substituir foram indicadas pelo centrão. Se ele não exercer essa autonomia, ele perde a capacidade de gestão do Ministério [da Saúde], com certeza", afirmou.
    O cemitério de Vila Nova Cachoeirinha, na zona norte de São Paulo (SP), no dia em que o Brasil atingiu a marca das 250 mil mortes provocadas pela COVID-19, em 25 de fevereiro de 2021.
    © Folhapress / Futura Press
    O cemitério de Vila Nova Cachoeirinha, na zona norte de São Paulo (SP), no dia em que o Brasil atingiu a marca das 250 mil mortes provocadas pela COVID-19

    Neste sentido, Guilherme Werneck lembrou que "o doutor Marcelo Queiroga, logo após assumir a pasta, já fez manifestações dúbias em relação o uso de medicamentos que não são comprovadamente eficazes para a COVID-19. Ele também questionou a necessidade de ações mais fortes de isolamento social. As dúvidas [sobre a autonomia] permanecem".

    Segundo ele, "não é preciso ser médico para ser Ministro da Saúde, mas é preciso ter capacidade de liderança e uma percepção do que é essencial". O general Pazuello não soube fazer isso. Ele aceitou a seguir como submisso às vontades do presidente da República".

    Ao concluir seu argumento sobre a importância de um ministério autônomo, o especialista da UERJ avisou: "A pandemia não é um problema somente médico. É claro que a medicina é muito importante. Mas essa é apenas uma parcela da sociedade que precisa ser consultada. Precisam ser consultadas outras entidades que abarcam outros profissionais da área de saúde, assim como profissionais da economia e sociedade civil".

    Onde estão as vacinas?

    Apesar de ter anunciado (e voltado atrás) inúmeras vezes o cronograma para vacinação no Brasil, inclusive destacando a centralização na compra de imunizantes, o general Eduardo Pazuello enfrentou problemas na distribuição de doses pelo país. 

    No momento, o Brasil se aproxima da marca dos dez milhões de vacinados contra a COVID-19. Ao menos uma dose de vacina foi aplicada em 10.081.771 de brasileiros, correspondente a 4,76% da população do país.

    Funcionária da saúde Sonia Mara com ornamento de carnaval em clínica municipal que funciona como estação de vacinação contra COVID-19, enquanto celebrações tradicionais foram canceladas devido à pandemia, Rio de Janeiro, Brasil, 16 de fevereiro de 2021
    © REUTERS / Ricardo Moraes
    Funcionária da saúde Sonia Mara com ornamento de carnaval em clínica municipal que funciona como estação de vacinação contra COVID-19, enquanto celebrações tradicionais foram canceladas devido à pandemia, Rio de Janeiro, Brasil, 16 de fevereiro de 2021

    Para Gonzalo Vecina, os resultados são insuficientes. "A situação da compra de vacinas é tão desesperadora, que com relação ao Paulo Guedes, ele [novo ministro] receberá total apoio. O Paulo Guedes sabe que sem vacina, a economia não anda. Então vamos esperar que ele [Ricardo Queiroga] saia à campo e compre vacinas para serem entregues neste ano".

    Guilherme Werneck também entende que "a questão do acesso à vacina é uma situação gravíssima no país".

    Segundo ele, "o Brasil se atrasou muito, e dificultou muito esse processo, e chega muito atrasado em relação aos outros países no acesso à vacinação para uma população estimada em 180 milhões de pessoas. O problema não é só aquisição de vacinas", alertou.

    Segundo ele, é preciso tocar outras negociações para chegada de insumos para produção de vacinas no Brasil. Werneck defende uma revisão do plano nacional de imunizações, que, segundo ele, é vago, impreciso e sem metas. Esse plano precisa ser revisto com participação de diferentes entes federativos.

    Mulher indígena aguarda para receber a vacina da Sinovac na margem do rio Urubu, no estado de Amazonas, Brasil, 13 de fevereiro de 2021
    © REUTERS / Bruno Kelly
    Mulher indígena aguarda para receber a vacina da Sinovac na margem do rio Urubu, no estado de Amazonas, Brasil, 13 de fevereiro de 2021

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

    Tema:
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    Tags:
    Jair Bolsonaro, vacinação, vacina, COVID-19, Anvisa, Brasil, Ministério da Saúde, saúde pública
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