22:33 11 Abril 2021
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    Primeiro satélite 100% brasileiro, o Amazônia 1 chega ao espaço sob grande expectativa, sendo chamado de vigilante da floresta. Para especialista ouvido com exclusividade pela Sputnik Brasil, o projeto é interessante, mas poderia ser melhor.

    Após os acordos firmados com os EUA sobre a utilização da base da Alcântara, o programa espacial do Brasil deu mais um importante passo com o lançamento do Amazônia 1, satélite que foi ao espaço no último domingo (28) na missão PSLV-C51, da agência espacial indiana, a Indian Space Research Organisation (ISRO).

    Sua principal atribuição será gerar imagens diárias para monitoramento ambiental brasileiro, contribuindo para o Deter, sistema coordenado pelo Inpe que acompanha o desmatamento no país em tempo real.

    ​A novidade foi amplamente divulgada pelas redes sociais do governo de Jair Bolsonaro, que celebraram o feito como uma grande vitória e um possível sinal aos observadores internacionais de maior comprometimento com a questão climática.

    Para o especialista em Defesa e em Relações Internacionais ouvido pela Sputnik Brasil, Pedro Paulo Rezende, o Amazonia 1 tem motivos para ser celebrado, porém, é insuficiente tratando-se das dificuldades que consistem o combate ao desmatamento na região amazônica.

    Um satélite contra o desmatamento​

    O Brasil dedicou 13 anos de trabalho e um investimento de R$ 380 milhões para produzir o Amazônia 1. Seu lançamento, na Índia, custou cerca de R$ 140 milhões. Para o especialista em Defesa Pedro Paulo Rezende, o investimento valeu a pena. Segundo ele, "o Amazonia 1 é um avanço enorme para a vigilância ambiental brasileira".

    Questionado se novo o satélite pode, conforme foi anunciado, ajudar no combate ao desmatamento, Pedro Paulo é cético. O entrevistado enfatizou que sua "a única falha é não ter o radar de banda L acoplado".

    Amazônia 1, primeiro satélite totalmente brasileiro
    © Foto / Divulgação/Governo federal
    Amazônia 1, primeiro satélite totalmente brasileiro
    "Ele poderia ser melhor, ter sido equipado com um radar na banda L, que permite que você veja o desmatamento real da Amazônia. Ele trabalha com sensores térmicos, com sensores fotográficos comuns; envia os dados em tempo real para o centro de operações, que fica em São José dos Campos", afirmou.

    A importância do radar na Banda L

    Pedro Paulo Rezende explicou que os benefícios de um radar na Banda L já foram comprovados no Brasil. Ele relembrou que, em 2004, após uma parceria entre os governos brasileiro e japonês, o satélite ALOS (Advanced Land Observing Satellite, na sigla em inglês) revelou dados surpreendentes sobre o desmatamento na região amazônica.

    "O Brasil quando teve acesso ao satélite ALOS, de origem japonesa, que tinha um radar na banda L, pôde descobrir que o desmatamento brasileiro era dez vezes maior ao que se previa. Foi um ano [2004], inclusive, que o número de desmatamento no Brasil deu um salto espantoso, no governo Lula ainda", afirmou.
    Desmatamento na Amazônia
    Wilson Dias/ Agência Brasil
    Desmatamento na Amazônia

    O entrevistado relembrou que, na época, "estavam desmatando abaixo da copa das árvores, e o satélite tradicional, como o Amazônia 1, não conseguia detectar, porque a copa cobria, e embaixo estavam arrancando madeira".

    "O ALOS permitiu, inclusive, um grande avanço do Ibama nas operações para combate do desmatamento ilegal", assinalou.

    Pedro Paulo Rezende acredita há pontos positivos no lançamento do que está sendo chamado de o primeiro satélite 100% brasileiro em órbita. "O Amazônia 1 pode servir para o monitoramento da produção agrícola. Ele pode prever o sucesso ou insucesso de safras, e também tem uma capacidade secundária de ajudar no combate ao crime".

    Brigada do IBAMA tentam controlar focos de incêndio em Apui, no Amazonas
    © REUTERS / Ueslei Marcelino
    Brigada do IBAMA tentam controlar focos de incêndio em Apui, no Amazonas

    O Brasil no espaço

    Questionado a respeito das ambições espaciais do Brasil, Pedro Paulo Rezende entende que "o programa espacial brasileiro encontra-se em um impasse".

    "O Brasil precisa decidir se vai continuar na proposta de um lançador de satélites próprio, que seria o VLM [veículo lançador de microssatélites] ou o VLS [veículo lançador de satélites], em função, inclusive, das normas estabelecidas pelo o acordo com os EUA. As regras estabelecidas com este acordo com os EUA são extremamente rígidas. Não permitem que a gente use o dinheiro de arrendamento da base para desenvolver lançadores. É um problema sério", comentou.

    Ao comentar sobre os acordos sobre tecnologia espacial entre Brasil e EUA, o especialista entende que os EUA, com o acordo de Alcântara, "desejam que o Brasil vire uma espécie de Canadá. Há vários no mundo com capacidade para fabricar um lançador [de satélites] que não fabricam. Posso te dar como exemplo o Reino Unido, o Canadá. Esses países investem pesadamente em satélites, mas é preciso pagar o lançador para países que disponibilizam esse serviço".

    Organização de Pesquisa Espacial da Índia (ISRO) lança o satélite a partir do centro espacial Satish Dhavan
    © AP Photo / Arun Sankar K
    Organização de Pesquisa Espacial da Índia (ISRO) lança o satélite a partir do centro espacial Satish Dhavan

    "Os mais importantes hoje em dia são: Rússia; EUA; China; a Índia, em um segundo plano, e também o Japão", enfatizou.

    A despeito desta questão envolvendo o lançamento de satélites, o especialista está satisfeito com a agenda do programa espacial do Brasil.

    "O programa de satélites brasileiros vai continuar de vento em popa. O Amazônia 1 é muito bom para descobrir queimadas, em função de seus sensores térmicos. E o Amazônia 2 pode ser que utilize uma banda radar, provavelmente a L, que é a mais adequada para varredura da Amazônia", concluiu.
    Lançamento de foguete RS-20 da Rússia levando a bordo a Genesis-2, nave espacial dos EUA, no local de testes Yasny, região de Orenburgo, Rússia
    © Sputnik / Vladimir Fedorenko
    Lançamento de foguete RS-20 da Rússia levando a bordo a Genesis-2, nave espacial dos EUA, no local de testes Yasny, região de Orenburgo, Rússia

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    fiscalização, desmatamento, programa espacial, Agência Espacial Brasileira, agência espacial, satélite, Amazônia
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