05:57 08 Março 2021
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    Brasil e COVID-19 em meados de fevereiro de 2021 (80)
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    Um mês após o início da campanha de vacinação contra a COVID-19, o Brasil continua com problemas de abastecimento de vacinas e vive o pior momento da pandemia na média de mortes. A Sputnik Brasil ouviu profissionais de saúde que avaliaram as primeiras quatro semanas da imunização no país.

    No dia 17 de janeiro deste ano teve início no Brasil a campanha de vacinação contra a COVID-19. Precedida por polêmicas e expectativas, o início da imunização ficou marcado por disputas políticas e pela escassez de doses das vacinas. Mesmo com a aprovação emergencial de dois imunizantes naquela data pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), apenas a vacina CoronaVac estava disponível para aplicação imediata.

    Um mês depois, os problemas com insumos e disponibilidade das vacinas continuam. Na segunda maior capital do país, o Rio de Janeiro, a campanha de vacinação está atualmente paralisada por falta de doses de vacina, situação que se repete em outros municípios menores. Em alguns locais, denúncias de fraudes também foram levantadas enquanto em outros, problemas de infraestrutura acarretaram a perda de doses dos imunizantes.

    Profisisonal de saúde recebe dose da vacina CoronaVac no Rio de Janeiro
    © REUTERS / Ricardo Moraes
    Profisisonal de saúde recebe dose da vacina CoronaVac no Rio de Janeiro

    Diante dos percalços, dados do consórcio dos veículos de imprensa mostram que o país já aplicou em cerca de 5,5 milhões de brasileiros pelo menos a primeira dose da vacina contra a COVID-19, o equivalente a apenas 2,6% da população brasileira, o que ainda está longe de servir de freio para a pandemia.

    Para Gulnar Azevedo e Silva, professora do Instituto de Medicina Social da UERJ e presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO), houve falta de planejamento do governo brasileiro para lidar com a crise sanitária que já ceifou 241 mil vidas no país.

    "O Brasil perdeu tempo no ano passado no sentido de negociar melhor, de planejar melhor o que seria, primeiro a necessidade de vacinas e depois como se organizar para isso. Então, quando as vacinas foram aprovadas em uso emergencial pela Anvisa, tudo isso já vinha sendo construído de uma forma muito errática", afirma Azevedo em entrevista à Sputnik Brasil.

    Gerson Salvador, médico e especialista em infectologia e saúde pública, atua em São Paulo na linha de frente do combate à pandemia e aponta que a "incompetência" do ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, se refletiu no mau emprego de doses das vacinas. A falta de coordenação, aponta Salvador, deixou a definição de prioridades na vacinação a cargo dos municípios e houve distorções nesses critérios.

    "A gente viu profissionais que têm formação na área da saúde, mas que não estão trabalhando na linha assistencial - mesmo pessoas jovens, sem comorbidades – recebendo vacina, enquanto pessoas com maior exposição acabaram não sendo vacinadas. Temos vários exemplos por todo o país", avalia Salvador em entrevista à Sputnik Brasil.

    "Queria dizer que [a campanha de vacinação] é mal coordenada, mal organizada e a coordenação é marcada pela ingerência de uma pessoa que não tem competência", diz o médico, que aponta que os 2,6% já vacinados no país "não necessariamente" são pessoas que deveriam ter sido imunizadas primeiro.

    Luiz Paulo Rosa, médico e especialista em Saúde Coletiva que atua na linha de frente no interior do Rio Grande do Norte, ressalta que a falta de coordenação não condiz com o histórico brasileiro em campanhas de vacinação, lembrando que em outros momentos, como na crise da H1N1, em 2009, a imunização foi muito mais veloz.

    "Considerando a nossa história, a gente está regredindo, quando vemos historicamente que tivemos campanhas de vacinação muito mais eficazes no passado. A gente está no caminho certo, que é o rumo da vacinação, só que estamos percorrendo caminhos mais longos porque falta organização", afirma o médico à Sputnik Brasil.

    Jonathan Vicente, biomédico patologista clínico e especialista em saúde coletiva também aponta erros no início da vacinação, e lamenta que pessoas com síndrome de Down, por exemplo, não foram priorizadas.

    "O principal [problema] mesmo é a compra de vacinas. [É necessário] comprar vacinas, aumentar o grupo prioritário e vacinar o mais rápido possível, principalmente porque estamos em uma pandemia em curso e sem uma liderança política que possa fazer essa compra e trazer essa ajuda que todos nós brasileiros estamos precisando", opina Vicente em entrevista à Sputnik Brasil.

    Com a falta de doses de vacinas ocorrendo no mundo inteiro devido à alta demanda, a representante da ABRASCO, Gulnar Azevedo, aponta que a desorganização se tornou um entrave particular do Brasil na campanha de imunização.

    "A falta de organização, de estruturação, de definição, de comunicação, a falta de completa integração entre estados e municípios e o governo federal. Então tudo isso está levando ao que a gente está percebendo. A situação de escassez de doses de vacina vem ocorrendo no mundo inteiro. Agora, o Brasil, além dessa escassez, está lidando com uma grande desorganização", ressalta a presidente da ABRASCO, que afirma que a atual situação brasileira no combate à pandemia é um reflexo da "incompetência" do governo federal.

    Pico na média de mortes e conscientização sobre as vacinas

    Atualmente o Brasil registra as maiores médias diárias de mortes desde o início da crise sanitária. No último domingo (14), a média de óbitos diários chegou a 1.105. Segundo os profissionais de saúde ouvidos pela Sputnik Brasil, a piora na pandemia não necessariamente influencia de forma direta a velocidade da aplicação de doses da vacina na população, mas deve aumentar a urgência da imunização.

    "No processo de vacinação o impacto maior [do aumento de casos] talvez seja o de gerar uma certa insegurança nas pessoas, porque apesar de observar que a vacinação está acontecendo, o número de casos e mortes continua alto", afirma o médico Luiz Paulo Rosa, que acredita que a falta de controle da pandemia em meio à campanha de imunização pode diminuir a adesão da população às vacinas.
    Profissionais da saúde municipais vão de barco ao longo das margens bancos do rio Solimões, onde vivem Ribeirinhos, para fornecer a vacina AstraZeneca/Oxford contra o coronavírus, Manacapuru, Brasil, 1º de fevereiro de 2021
    © REUTERS / Bruno Kelly
    Profissionais da saúde municipais vão de barco ao longo das margens bancos do rio Solimões, onde vivem Ribeirinhos, para fornecer a vacina AstraZeneca/Oxford contra o coronavírus, Manacapuru, Brasil, 1º de fevereiro de 2021

    O especialista em Saúde Coletiva critica a falta de uma campanha central de conscientização sobre a vacina e recorda que a vacinação concorre com a desinformação sobre os imunizantes.

    "Quando a gente não tem campanhas de vacinação que estimulem a população a se vacinar e que sejam esclarecedoras, às vezes fica um pouco limitado, e isso atrasa a própria vacinação. Eu já atendi idosos, por exemplo, que já disseram que nunca tomaram vacinas porque têm medo", recorda Luiz Paulo Rosa, que ressalta a necessidade de um "trabalho de formiguinha" dos profissionais de saúde para explicar à população que as vacinas são seguras.

    Já o biomédico Jonathan Vicente recorda que a vacina não tem efeito imediato, o que deveria aumentar a atenção à prevenção, com medidas já conhecidas como o uso de máscaras e o isolamento social.

    "Cada organismo reage de uma forma, dependendo da faixa etária e do próprio sistema imunológico da pessoa. Em geral, [o tempo necessário para a proteção] dura por volta de duas semanas após a segunda dose, [...] que é o tempo que leva para a pessoa criar anticorpos neutralizantes que barram a entrada do vírus nas células", diz o biomédico.
    Homem recebe vacina de AstraZeneca/Oxford contra coronavírus em Manaus, Brasil, 29 de janeiro de 2020
    © REUTERS / Bruno Kelly
    Homem recebe vacina de AstraZeneca/Oxford contra coronavírus em Manaus, Brasil, 29 de janeiro de 2020

    A presidente da ABRASCO, Gulnar Azevedo, diz ainda que o cenário pode piorar após o Carnaval devido à incompetência do governo em centralizar uma campanha de conscientização contra aglomerações, e lembra que a vacinação não será capaz de deter a doença nesse momento. Segundo ela, enquanto medidas como o uso de máscaras e o isolamento seguem fundamentais, a compra de novas vacinas se torna necessária para acelerar a imunização.

    "Além das vacinas já aprovadas, é importante negociar a aquisição de outras vacinas, incorporando ao PNI [Plano Nacional de Imunizações] outras vacinas, para que a gente resolva o problema de quantidade [de doses de vacinas]", afirma a presidente da ABRASCO.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Brasil e COVID-19 em meados de fevereiro de 2021 (80)

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    Abrasco, Eduardo Pazuello, Rio de Janeiro, São Paulo, Jair Bolsonaro, Brasil, COVID-19, João Doria
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