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    Brasil e COVID-19 em meados de fevereiro de 2021 (80)
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    A Frente Nacional dos Prefeitos questiona a conduta do ministro da Saúde durante a pandemia e a falta de interlocução com as cidades. Com o fim do estoque de imunizantes, muitos municípios tiveram que interromper a campanha de imunização.

    A escassez de vacinas e a consequente paralisação do processo de imunização contra a COVID-19 em diversas cidades provocaram uma nova crise no país, agora entre prefeitos e o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello. À espera de novas remessas para vacinar a maioria da população, os municípios agora pressionam o governo federal e criticam a falta de diálogo e de respostas no que diz respeito à pandemia.

    No Rio de Janeiro, por exemplo, o prefeito Eduardo Paes (DEM) anunciou, na segunda-feira (15), a interrupção da aplicação de vacinas pela falta de doses.

    ​A Secretaria de Saúde de Ananindeua, no Pará, também informou, no domingo (14), que o estoque chegou ao fim. O governo paraense questiona o critério para a distribuição das vacinas, já que o estado é o último colocado em quantidade de doses com relação à proporção da população.

    O prefeito de Florianópolis (SC), Gean Loureiro (DEM), põe o lento ritmo da campanha na conta do governo federal, lembrando que o estado fica só atrás do Pará no ranking de distribuição.

    ​Com tantas questões em comum, a Frente Nacional de Prefeitos (FNP) soltou uma nota, nesta terça-feira (16), em que fala em "sucessivos equívocos do governo federal na coordenação do enfrentamento à COVID-19".

    "Que o Brasil não soube lidar com a pandemia, não restam dúvidas, mas, prefeitas e prefeitos, que sempre solicitaram e incentivaram a organização nacional, agora exigem respostas", diz o texto.

    A FNP pediu ainda urgência na criação de um cronograma com prazos e metas estipulados para a vacinação de grupos por faixa etária, doentes crônicos e outras categorias de profissionais. A entidade ressalta que a retomada da economia e a geração de emprego e renda dependem da agilidade deste processo de imunização.

     Vacinação de idosos contra COVID-19 no Rio de Janeiro, 5 de fevereiro de 2021
    © REUTERS / Pilar Olivares
    Vacinação de idosos contra COVID-19 no Rio de Janeiro, 5 de fevereiro de 2021

    Em entrevista à Sputnik Brasil, Gilberto Perre, secretário-executivo da Frente Nacional de Prefeitos, afirma que os erros apontados pela FNP são a dubiedade do governo federal na condução da crise e falta de diálogo com os municípios.

    "Em vários momentos, o governo minimizou a crise sanitária, rechaçou a possibilidade de termos vacinas com ingredientes chineses, desdenhou da importância das regras de distanciamento e de uso de máscara. Essa dubiedade atrapalhou demais. E, claro, atrasou a aquisição de vacinas, tão importante nesse momento. Além disso, há uma falta de diálogo sistemática, que temos observado", pontuou Perre.

    Segundo o secretário-executivo da FNP, o diálogo "encontra-se interditado". Ele revela que as reuniões com o Ministério da Saúde não vêm ocorrendo com a frequência que os prefeitos gostariam e entendem como razoável.

    "Não me compete avaliação do ponto de vista político da situação do ministro de Estado Eduardo Pazuello. Mas é fato que os prefeitos têm reivindicado junto ao ministério diálogo permanente, acompanhamento da crise, informações precisas para serem levadas à população", frisou.
    Profissionais de saúde carregam lote de doses da vacina CoronaVac em barco próximo à Terra Indígena Rio Urubu, em Itacoatiara, no Amazonas
    © REUTERS / Bruno Kelly
    Profissionais de saúde carregam lote de doses da vacina CoronaVac em barco próximo à Terra Indígena Rio Urubu, em Itacoatiara, no Amazonas

    Perre diz ainda que o questionamento dos prefeitos é "sereno e técnico". Ele lembra que a relação entre municípios e o governo federal é permanente e histórica e que ocorre em diversos países do mundo, com negociações que favoreçam a população na ponta.

    "Não há nenhum ingrediente eleitoral na mesa", afirmou, ressaltando que as críticas à condução da pandemia pelo governo federal são fundamentadas em fatos.

    Militares em cargos de confiança na Saúde

    Geraldo Tadeu Monteiro, cientista político e professor da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), acredita que as prefeituras estão corretas na cobrança.

    "Temos assistido, ao longo dos últimos 12 meses, uma sucessão muito grande de equívocos de um governo que está muito mais interessado em fazer política de maneira permanente do que entregar os bens públicos, ou seja, entregar Saúde, Educação, Meio-Ambiente e política econômica", disse à Sputnik Brasil.

    O cientista político lembra que os prefeitos estão preocupados em serem vistos pela população como os responsáveis pela crise da falta de vacina: "Eles estão na ponta, tentando organizar seus sistemas municipais de Saúde". Para Monteiro, a reclamação dos prefeitos visa colocar as coisas "no seu devido lugar".

    "Se não há vacinação, é porque não há vacina. Se não há vacina, é porque o próprio Ministério da Saúde foi incompetente para conseguir essas doses", afirmou.

    O professor vai além e diz que, em circunstâncias normais, o ministro Eduardo Pazuello não se sustentaria no cargo após o colapso na Saúde com a falta de oxigênio em Manaus (AM).

    Monteiro lembra que muitos cargos do primeiro, segundo e terceiro escalão estão ocupados por militares, que não têm interlocução com os setores de Saúde e com os secretários municipais e estaduais.

    "Por isso, há a crítica de que o ministério não dialoga, porque não sabe dialogar. As pessoas que estão nos cargos de confiança não são da área da Saúde, não entendem a Saúde", criticou.

    Entidade pede saída de Pazuello

    A Confederação Nacional de Municípios (CNM) já pediu a troca do comando do ministro da Saúde. Segundo o órgão, houve várias tentativas de diálogo com a atual gestão. A CNM afirma que a pasta tem "reiteradamente ignorado os prefeitos", com uma "total inexistência de diálogo".

    O presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello
    © Folhapress / Pedro Ladeira
    O presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello

    Para a entidade, Pazuello não acreditou na vacinação como a saída para a crise e não realizou o planejamento necessário para a aquisição dos imunizantes.

    "O movimento municipalista, por meio da Confederação Nacional de Municípios (CNM), vem a público, em nome dos gestores locais que assistem e vivem desesperadamente a angústia e o sofrimento da população que corre aos postos de saúde na busca de vacinas contra a COVID-19, manifestar sua indignação com a condução da crise sanitária pelo Ministério da Saúde e solicitar a troca de comando da pasta", diz a nota da CNM, divulgada na terça-feira (16).

    Fórum de Governadores

    Eduardo Pazuello apresentou, nesta quarta-feira (17), em reunião com governadores, um novo cronograma que prevê a chegada de 454,9 milhões de vacinas de diferentes farmacêuticas até o mês de julho.

    O planejamento do Ministério da Saúde inclui a entrega de vacinas produzidas por farmacêuticas com as quais o Brasil ainda não firmou contrato, como é o caso da Sputnik V, da Covaxin e da Moderna.

    Na reunião do Fórum de Governadores, coordenada pelo governador do Piauí, Wellington Dias, Pazuello voltou a afirmar que toda a população brasileira será vacinada ainda em 2021.

    "Temos uma previsão fantástica de recebimento de vacinas", disse o ministro.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Brasil e COVID-19 em meados de fevereiro de 2021 (80)

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    prefeitos, vacinação, vacina, imunização, saúde, Ministério da Saúde, Eduardo Pazuello, pandemia, novo coronavírus, COVID-19
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