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    Brasil lidando contra COVID-19 no final de janeiro de 2021 (92)
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    O prefeito Eduardo Paes decretou ontem (21) o cancelamento do Carnaval no Rio de Janeiro. As escolas de samba, porém, esperavam que o anúncio viesse acompanhado de outras medidas, principalmente para atenuar as perdas financeiras. Para compreender este cenário, a Sputnik Brasil ouviu diversos protagonistas do Carnaval carioca.

    Há muita literatura sobre Carnaval no Rio de Janeiro. Sociólogos, historiadores e antropólogos por anos se dedicam ao estudo deste tema. Há, todavia, um consenso não formal sobre a festa profana dos cariocas: existem dois carnavais no Rio, o primeiro, o mais conhecido, envolve o espetáculo na Sapucaí; e o outro, mais humilde, envolve as centenas de blocos que desfilam pela cidade, assim como escolas de samba menores.

    Em um deles, há dinheiro e financiamento público vigoroso. No outro, a falta de recursos se tornou via de regra nos últimos anos, e com a chegada da pandemia da COVID-19 em 2020, o cenário é caos e desordem. Para compreender a atual situação dos principais atores da maior festa urbana da cidade, a Sputnik Brasil conversou com especialistas e protagonistas de diversas escolas de samba.

    Mocidade no 2º dia do desfile das escolas de samba
    Sputnik / Luana Rayssa
    Mocidade no 2º dia do desfile das escolas de samba

    Neste contexto, discutimos a decisão do prefeito do Rio, Eduardo Paes, que na quinta-feira (21) cancelou o Carnaval fora de época, programado para julho, assim como as repercussões econômicas desta medida. Vale lembrar que, no ano passado, a festa injetou cerca de R$ 8 bilhões no turismo do país, sendo R$ 2,6 bilhões apenas no Rio de Janeiro.

    ​Para a autora do livro "Serra, Serrinha, Serrano: o Império do Samba", Rachel Valença, "fora a questão cultural, existe a [questão] econômica do Carnaval, e ele representa muito para a cidade. As escolas empregam muitas pessoas, e além disso, a cidade recebe um número enorme de turistas, atraídos pelo desfile e pelos blocos". Para ela, o "Carnaval não tem a atenção que merece. O poder público sempre foi muito cego com relação à importância econômica da festa. A Bahia, por exemplo, investe nisso, mas o RJ parece que tem vergonha. É preciso respeitar a nossa cultura"

    "As pessoas que trabalham indiretamente foram muito afetados pela falta de movimento. Eu não acredito que o Carnaval de julho poderia ser tão bem sucedido quanto em fevereiro. O poder público tem que sanar de alguma forma esse problema. O poder público fecha os olhos para isso, mas até agora não há contrapartida, é uma coisa muito cruel, é o modo como tratamos o nosso Carnaval", sustenta a pesquisadora.

    Para Francisco Horta, presidente da Unidos da Tijuca, "a decisão de programar a festa para julho foi vista com bons olhos, pois "ajudaria as escolas, trabalhadores e operários". Porém, ele ressaltou que um desfile na Sapucaí não se faz em dois dias, e sim em um ano. "É preciso fazer ensaios, fazer aglomeração. Mesmo que a vacina seja liberada, e sendo otimista, tendo uma boa vacinação em junho, como fazer um carnaval neste tempo?".

    Carro alegórico da Unidos da Tijuca na Sapucaí
    © Sputnik / Rogério Silva Pinto
    Carro alegórico da Unidos da Tijuca na Sapucaí

    A posição de Francisco Horta é partilhada pela maioria das grandes escolas. Ainda ontem (21), por uma nota oficial, a LIESA manifestou seu apoio e compreensão à decisão de Paes, "tendo em vista o aumento geral dos casos de COVID-19 e o atual momento". A São Clemente, outra escola de samba que falou com exclusividade à Sputnik Brasil, informou que "a agremiação está parada no momento, impossibilitada de fazer qualquer atividade em função da COVID-19. O que temos até agora é um enredo, e só. Não fizemos mais nada".

    A justificativa para a ausência de planos para o Carnaval, para ambas agremiações ouvidas por esta reportagem, é que a questão financeira está apertada. Francisco Horta explicou que a Unidos da Tijuca fazia shows, eventos, festas, mas "nós não estamos fazendo nada. A Tijuca deve ao banco, e estamos mantendo assim agora. Não sei como será daqui para frente. É preciso a Liga bolar uma solução, um recurso antecipado. Os funcionários estão em um desespero muito grande. Eu até consegui doar alimentos, mas isso não é o bastante".

    "Na última reunião que fizemos, tivemos esperança de pedir o adiantamento das verbas. Havia a esperança de fazer um Carnaval em julho, mas era preciso decidir isso no mais tardar em 30 de janeiro, para ter um espetáculo de qualidade. Agora é se reunir com os coirmãos e a Liga para ver o que é possível. Precisamos urgentemente de recursos", disse Francisco Horta.

    Já a São Clemente, após enfatizar que a ausência de atividades ao longo do ano nas quadras impossibilita as escolas financeiramente, disse que o Carnaval estava, mesmo antes do cancelamento, totalmente parado. A agremiação relembrou que neste ano completará 60 anos, e que havia um calendário de festas para celebrar a ocasião, mas nem isso foi possível ser feito. Para eles, a posição a ser defendida no momento é a saúde da população.

    Em verdade, este sentimento foi partilhado por praticamente todas as escolas. O presidente da Vila Isabel, Fernando Fernandes, afirmou que "a Vila respeita e acompanha os protocolos de saúde. A gente não pode esquecer disso. A gente tem que ouvir as autoridades de saúde. Infelizmente é isso. A doença tá ai". O Salgueiro, por sua vez, além de compreender o cancelamento dos desfiles de 2021, também suspendeu a realização das eliminatórias para a escolha do samba enredo da escola. Em nota, a agremiação também lembrou dos trabalhadores do carnaval.

    Desfile do Salgueiro no segundo dia de desfiles do Grupo Especial
    © Sputnik / Paula Magalhães
    Desfile do Salgueiro no segundo dia de desfiles do Grupo Especial

    Os trabalhadores do Carnaval, e a festa em Intendente Magalhães

    Enquanto as grandes escolas lamentam e se reúnem para debater formas de repor as perdas do cancelamento do Carnaval, um outro Carnaval carioca agoniza, o das pequenas escolas, dos blocos, de parte considerável da população que corre para avenida Intendente Magalhães, em Madureira, fugindo dos altos valores cobrados na Sapucaí.

    Para compreendermos esta situação, a Sputnik Brasil conversou com Leonardo Barbosa Cavalcanti, presidente da Unidos do Cabral, no Cachambi. Para ele, a "notícia do cancelamento foi uma surpresa e, ao mesmo tempo, algo esperado. Prova disso é que a unidos do Cabral sequer tinha lançado enredo. Esperávamos que diminuísse o numero de mortos, e que houvesse uma saída para essa questão da pandemia, principalmente com as vacinas. Mas ficamos o ano todo parados, e mantemos assim porque a nossa preocupação é a pandemia.
    Carnaval de rua no Rio de Janeiro
    © REUTERS / Ricardo Moraes
    Carnaval de rua no Rio de Janeiro

    "A nossa escola não tem funcionários, e sim colaboradores. Na verdade, vivemos dos poucos recursos públicos que a prefeitura nos oferta. Mas, como neste ano faltou dinheiro, o Carnaval de 2021, para nós, sequer pode ser cogitado", disse.

    "A atual situação é que está difícil para sobreviver. Temos grandes dificuldades de estrutura nas quadras, instrumentos quebrados e muitos problemas. A lei Adir Blanc nos ajudou um pouco, deu para respirar. Mas a situação é crítica demais. As pessoas que trabalham com Carnaval em Intendente Magalhães estão sem receber. Somos referência em nossos bairros, fazemos parte da história do Carnaval, mas seguimos esquecidos", afirma o presidente.

    "O Carnaval de 2022 é o que nos resta. Mas será tudo muito prejudicado. As escolas precisam se reinventar, porque não há movimentação nas quadras atualmente, as festas, as feijoadas, não há nada. Não temos nada. É preciso manter acessa a chama da escola, ou corremos o risco de chegar em 2022 sem força, sem um desfile para fazer na avenida. São 400 dias sem atividades, quadras ociosas e sem funcionar. É preciso que poder público nos ajude. O Carnaval, longe do marketing, não é menos importante do que os outros. Fazemos parte da história da cidade, e estamos abandonados", denunciou.

    Bloco Céu na Terra Desfila em Santa Teresa
    © AP Photo / Silvia Izquierdo
    Bloco Céu na Terra Desfila em Santa Teresa

    Nesta quinta-feira, Clayton Ferreira, presidente da Liga Independente das Escolas de Samba do Brasil (Liesb), que representa as escolas que desfilam em Intendente Magalhães, disse que para essas agremiações que são pequenas e dispõem de poucos recursos para organizar seus desfiles, foi um alívio a notícia de que não vai haver carnaval em julho. Ele disse que a Liesb já está discutindo com a Riotur formas de ajudar quem vive da folia o ano todo. A primeira reunião foi nesta quinta-feira (21) e um segundo encontro estaria marcado para a semana que vem. Porém, até agora, não há nada concreto ofertado à mesa de negociações.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Brasil lidando contra COVID-19 no final de janeiro de 2021 (92)

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    Eduardo Paes, Liga das Escolas de Samba, escolas de samba, Rio de Janeiro, Carnaval
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