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    Coronavírus no Brasil no início de dezembro (59)
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    O turismo tenta se recuperar dos efeitos da pandemia e vê com temor a possibilidade de uma nova onda no Brasil. A Sputnik conversou com a ABIH e com o secretário de Turismo de Brotas (SP), que conseguiu crescer em plena pandemia, para saber qual será o futuro do setor.

    Apesar de ter registrado uma queda no nível de propagação da COVID-19 a partir de agosto, que se tornou mais expressiva nos meses de setembro e outubro, o Brasil se aproxima da taxa de 180 mil mortos pela doença, de acordo com o consórcio de veículos de imprensa, que reúne dados das secretarias estaduais de saúde. Além disso, as últimas semanas do mês de novembro indicam um aumento nas infecções pela doença, gerando o temor de que, assim como vem acontecendo na Europa, uma segunda onda da pandemia do novo coronavírus possa chegar ao país antes da existência de uma vacina eficaz. 

    O setor do turismo é um dos mais afetados pela pandemia, já que depende diretamente da circulação de pessoas. Segundo uma pesquisa publicada pela Travel Consul, uma aliança global de marketing que reúne companhias de publicidade especializadas em viagens e turismo, a pandemia gerou um impacto superior a 70% nas receitas de agências e operadoras do setor.

    Em entrevista à Sputnik Brasil, Manoel Linhares, presidente nacional da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH Nacional), afirma que, até março de 2019, a indústria do turismo estava indo muito bem no Brasil. "Com a chegada da COVID-19, o turismo foi um dos primeiros setores a entrar em crise e acredito que será o último a sair. No caso da hotelaria, nós somos diferentes do agronegócio, da indústria, porque não temos estoques para armazenar e guardar para mais tarde. A cada noite não vendida, é prejuízo total", comenta.

    Linhares conta que, no auge da pandemia, cerca de 80% dos hotéis ficaram fechados, e os que continuaram funcionando trabalharam com uma ocupação em torno de 5% a 8%. O presidente nacional da ABIH explica que, na hotelaria, o ponto de equilíbrio é uma ocupação de aproximadamente 50%, só depois disso os hotéis começam a aferir lucro. Além disso, na opinião de Linhares, o custo de operação é muito alto, devido ao peso da carga tributária e ao preço dos insumos. 

    "Quando há uma crise dentro do turismo e da hotelaria, em torno de 20%, por exemplo, nós conseguimos aguentar e suportar.  Mas no caso de 95%, é devastador. Se chegar essa segunda onda, será muito ruim, não só para a hotelaria, mas para o turismo em geral. O turismo gera impacto em diversos outros setores, a cada quatro postos de trabalho gerados, um é do turismo. Nós trabalhamos com gente, com pessoas, em três turnos. Geramos em torno de 380 mil empregos diretos, e 1,1 milhão em empregos indiretos", afirma Linhares.

    Para o presidente nacional da ABIH, o Brasil não aguenta uma segunda onda, pois os empresários do setor estão no limite de suas contas. Além disso, Linhares aponta que a chamada "alta temporada", que acontece no verão, já está prejudicada por causa da ausência de grandes eventos, como Réveillon e Carnaval, que costumam atrair muitos turistas, principalmente nas cidades litorâneas. Linhares, no entanto, ressalta que a hotelaria é um setor que "está preparado para cuidar bem de seus hóspedes".

    "Mesmo durante o período em que os hotéis ficaram fechados, nós oferecemos cursos para nossos colaboradores para que eles possam se adaptar às novas regras de distanciamento e higienização. Criamos um grupo que hoje reúne 20 entidades hoteleiras para trabalharmos em conjunto durante a pandemia, o que se transformou em um grande legado: a união das entidades para trabalhar em conjunto [...]. O setor hoteleiro está preparado desde a chegada até a saída dos hóspedes, obedecendo os protocolos, não só ao bem-receber, mas para oferecer segurança", destaca o presidente nacional da ABIH.

    Linhares considera que uma alternativa para o setor é investir mais no turismo regional e interno, buscando alternativas que envolvam mais práticas em espaços abertos, turismo de natureza, evitando as aglomerações, mas mantendo o setor aquecido, e aproveitando todas as belezas e atrativos naturais que um país continental e diverso como Brasil pode oferecer.

    Brotas (SP), um caso de sucesso em plena pandemia

    Os atrativos naturais foram justamente o que fizeram de Brotas, município com cerca de 25 mil habitantes situado a 235 km da capital paulista, surpreender e registrar um aumento expressivo no fluxo de turistas nos meses de agosto, setembro e outubro. De acordo com a Secretaria de Turismo de Brotas, a cidade - que é considerada a capital do turismo de aventura no Brasil - registrou seu melhor desempenho nesses meses nos últimos cinco anos, com um crescimento de 37,8% em relação a 2019.

    Além disso, o município obteve um aumento de 37% na venda de vouchers - as pulseiras que dão acesso aos atrativos de aventura, como rafting, rapel e tirolesa -, crescimento de 10% no número de hospedagens e contribuiu para a redução do desemprego na cidade, com um aumento de 10% nas vagas relacionadas ao turismo, que é o setor que mais emprega no município.

    Rafting em Brotas (SP)
    © Foto / Divulgação/Sec. Tur. de Brotas
    Rafting em Brotas (SP)
    Em entrevista à Sputnik Brasil, o secretário de Turismo de Brotas, Fábio Pontes, conta que a cidade se fechou muito cedo, logo que foi declarada a pandemia em março. "Fizemos uma reunião com todo o setor de turismo, a associação comercial e fechamos a cidade. Ficamos com tudo parado, e aí começou a crescer muito o desemprego, começaram os problemas sociais, os problemas de segurança", conta Fábio.

    O secretário assinala que, em abril, houve três grandes feriados, e que a prefeitura tentou fechar a cidade para que o vírus não entrasse, impedindo a entrada de pessoas de fora. No entanto, a Justiça negou o pedido. Com isso, as autoridades decidiram fazer uma barreira sanitária, não só para aferir a temperatura e manter a vigilância epidemiológica, mas também para realizar uma pesquisa junto aos carros com placas de fora da cidade.

    "Nós perguntávamos o que motivou essas pessoas a virem para Brotas se estava tudo fechado. As respostas foram diversas e, surpreendentemente, nós recebemos três mil pessoas no feriado da Páscoa com tudo fechado. Isso já nos deu um sinal de alerta. E muitas pessoas da cidade também saíram. Depois, nos outros dois feriados, tivemos novamente cerca de três mil pessoas visitando a cidade", conta o secretário.

    Assim que eclodiu a pandemia, prefeitura de Brotas criou um gabinete de combate ao coronavírus e, em maio, a administração chegou à conclusão de que não adiantava a cidade ficar fechada. A economia estava enfraquecida, com muito desemprego, e as pessoas continuavam entrando na cidade, então era preciso mudar de estratégia.

    Turista pratica arvorismo em Brotas (SP)
    © Foto / Divulgação/Sec. Tur. de Brotas
    Turista pratica arvorismo em Brotas (SP)
    "Decidimos abrir, dar treinamento para todos os empresários e abrimos gradativamente. Primeiro, abrimos o varejo, enquanto o turismo seria o último. Mas eu me reuni com os representantes do setor de turismo na cidade e opinei que deveríamos abrir, pois esta é a segunda principal atividade econômica da cidade, o setor que mais gera empregos. No entanto, seria necessário elaborar um protocolo sanitário para esportes de aventura, que até o momento não existia no Brasil. Buscamos os protocolos na Espanha e em Portugal e adaptamos para a nossa realidade. Depois disso, conseguimos abrir o turismo, em 1º de julho, com capacidade reduzida (40%)", conta Fábio.

    O secretário acrescenta que, apesar da abertura para o turismo, a cidade continuou realizando a vigilância epidemiológica, seguindo todos os protocolos, e conseguiu manter os números baixos. A partir disso, o aumento da atividade foi gradativo até a abertura total (100%) em 1º de setembro, para a semana do feriado de 7 de Setembro, que foi um marco para a cidade, que chegou a receber dez mil pessoas.

    Passados 14 dias do feriado, o município realizou um levantamento para ver se a abertura teria um impacto significativo no número de infectados, mas não houve crescimento.

    "Conseguimos aliar a questão da economia com a saúde. Por isso, conseguimos esses números expressivos", conta Fábio Pontes.
    Tirolesa em Brotas (SP)
    © Foto / Divulgação/Sec. Tur. de Brotas/Sandro Fraga
    Tirolesa em Brotas (SP)

    De acordo com a pesquisa da Travel Consul, as três maiores preocupações do turista em tempos de COVID-19 são as certificações de saúde e segurança (73,5%), o gerenciamento que as diferentes localidades fazem da pandemia (59,6%), enquanto o preço (39,4%) está apenas em terceiro lugar.

    Fábio acredita que o fato de Brotas ter muitos atrativos ao ar livre e ter feito um controle muito bom da pandemia justificam o desempenho da cidade.

    "As pessoas estão procurando cidades que ofereçam atividades ao ar livre e de contato com a natureza. Os empresários também estão fazendo a parte deles, pois a maior preocupação do turista hoje é saber quais são as medidas sanitárias que os estabelecimentos e as operadoras das diferentes atividades estão tomando, antes mesmo do preço [...]. A parte da economia turística em Brotas está aquecida e surpreendeu com esses números positivos, se avaliarmos de 2016 para cá, o crescimento mais que dobrou", conclui o secretário.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

    Tema:
    Coronavírus no Brasil no início de dezembro (59)

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    Tags:
    COVID-19, pandemia, economia, Brasil, ecoturismo, turismo
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