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    COVID-19 no Brasil em meados de janeiro de 2021 (97)
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    Uma carga de oxigênio enviada pela Venezuela para ajudar Manaus, cidade castigada por uma nova onda da pandemia de COVID-19, entrou em território brasileiro, informaram fontes oficiais.

    A caravana, com 136 mil litros de oxigênio, deve ajudar a amenizar a situação em Manaus, cidade de 2,2 milhões de habitantes, onde os hospitais entraram em colapso após uma explosão de casos do coronavírus.

    O país enviou a ajuda ao Brasil apesar de o governo do presidente Jair Bolsonaro não reconhecer o do venezuelano Maduro, a quem chama de "ditador" de esquerda.

    Presidente venezuelano, Nicolás Maduro
    © REUTERS / Manaure Quintero
    Presidente venezuelano, Nicolás Maduro
    "Deixem este oxigênio chegar rapidamente ao povo do Brasil. Deixem o povo do Brasil saber que da melhor maneira que podemos, estamos prontos para apoiar", declarou Maduro ao anunciar a ajuda, segundo publicou a AP.

    Para discutir o tema da ajuda venezuelana, a Sputnik Brasil conversou com Guilherme Basto-Lima, analista internacional da PUC-Rio, doutorando em Planejamento Urbano e Regional pela UFRJ e especialista em Cidades e culturas políticas latino-americanas.

    Perguntado se o ato de auxílio venezuelano pode resultar em um degelo das relações entre os governos do Brasil e do país vizinho, ou pelo menos aumentar a colaboração fronteiriça, o especialista disse que há dois fatores determinantes que devem orientar a política internacional brasileira durante os próximos meses.

    "Primeiro quais vão ser as respostas que os países vão dar à pandemia nessa etapa em que a vacinação já é realidade em alguns lugares e outros já se adiantam para estabelecer seus calendários. E em segundo lugar, o novo governo dos EUA, que aos poucos deve dar uma nova orientação à política externa americana que seguramente vai impactar as relações do Brasil com a Venezuela e demais vizinhos", avaliou Guilherme.

    Segundo o especialista, a Venezuela enfatizou no anúncio da ajuda que era um ato de solidariedade entre os povos, que não necessariamente estava esperando alguma contrapartida. Essa solidariedade venezuelana é para eles uma tarefa do governo, que inclusive foi estendida a vários outros países, como por exemplo Reino Unido e EUA.

    Para Guilherme, outro fator que pode influir nessa mudança de relacionamento com a Venezuela é uma possível troca de comando no Itamaraty, devido a críticas ao atual ministro Ernesto Araújo: "Pode acontecer uma troca por alguém com um perfil mais moderado, até porque Ernesto não tem mais o cenário no qual se alinhava ao governo Trump, que está acabando".

    Relação de Bolsonaro com o governo da Venezuela

    Em recentes declarações de Bolsonaro após o anúncio da ajuda venezuelana, o presidente fez ironias e questionamentos sobre o governo do país vizinho. Guilherme acredita que "essa drástica reorientação que o governo Bolsonaro vem tentando conferir à política externa brasileira tem tido como resultado um fracasso absoluto em qualquer aspecto que for analisado".

    Presidente Jair Bolsonaro olha para o céu durante cerimônia no Palácio do Planalto, em Brasília, 12 de janeiro de 2021
    © REUTERS / Adriano Machado
    Presidente Jair Bolsonaro olha para o céu durante cerimônia no Palácio do Planalto, em Brasília, 12 de janeiro de 2021
    "Do ponto de vista de nossos vizinhos e irmãos sul-americanos, é um completo desastre. Nesse episódio onde nosso país foi ajudado e a resposta dada foi a ironia, o estilo fanfarrão, com as tradicionais bravatas do presidente, isso apenas apequena não só o presidente como também o Brasil. Não vejo que isso possa abrir uma escalada de tensões, mas por outro lado quem gosta desse estilo também se cansa, porque não vê resultados concretos a partir disso", declarou o especialista.

    Venezuela busca contatos políticos com outras entidades nacionais

    Criticado pelo governo brasileiro, Maduro poderia estar tentando através da ajuda manter contato com entidades, estados e municípios brasileiros para manter sua política externa com o Brasil viva?

    Guilherme opina que a "própria inabilidade da diplomacia brasileira nos últimos dois anos abre um espaço para que os entes federados, como cidades e estados, ocupem esse lugar que o país deixa de disputar no cenário internacional"

    Em Brasília, o Palácio do Itamaraty é visto pelo lado de fora, em 11 de agosto de 2020.
    © Folhapress / Futura Press / Wallace Martins
    Em Brasília, o Palácio do Itamaraty é visto pelo lado de fora, em 11 de agosto de 2020.

    "Um exemplo recente, há coisa de três ou quatro dias atrás, foi o consórcio de estados do Nordeste estar fechando um acordo com o governo da Rússia para o envio de 40 milhões de doses da vacina Sputnik V e é provável que o Supremo Tribunal Federal autorize esse tipo de movimento, porque o estado brasileiro está dando provas de que não consegue dar resposta ao problema da pandemia. Eu imagino que certamente a diplomacia venezuelana vai tentar aprofundar esses laços, como fez no passado em um acordo com o governo do Paraná que estimulava a exibição do canal Telesur em território paranaense", avaliou o especialista.

    A Venezuela enfrenta a pior crise econômica de sua história moderna, com hiperinflação e sete anos de recessão, o que impactou seu próprio sistema de saúde, afetado pela escassez de suprimentos médicos e material de proteção para a COVID-19.

    Maduro aprovou a partida de um comboio de seis caminhões-tanque carregados de oxigênio rumo ao Brasil, evento transmitido nacionalmente no último domingo (17) pela TV estatal do país.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    COVID-19 no Brasil em meados de janeiro de 2021 (97)

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    suprimentos, novo coronavírus, COVID-19, pandemia, doença, saúde, relações exterirores, relações bilaterais, América do Sul, Venezuela, Brasil
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