07:16 25 Abril 2019
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    Polícia Militar no Rio de Janeiro durante operação no bairro de Santa Teresa, 8 de fevereiro de 2019

    O suicídio e a farda: o silencioso sofrimento dos policiais no Brasil (VÍDEO)

    © AP Photo / Carson Gardiner
    Brasil
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    Solon Neto
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    Os policiais brasileiros estão deprimidos e cometendo suicídio. A situação vem sendo objeto de estudo de pesquisadores e de protesto por policiais diante da falta de política de prevenção e de dados sobre a questão. A Sputnik Brasil ouviu cientistas e policiais em três estados brasileiros sobre o contexto desse cenário trágico.

    Alexandre Félix Campos decidiu se tornar policial civil em São Paulo, pois sonhava, como muitos jovens policiais, ajudar a proteger a população. Passados 15 anos de uma carreira promissora como investigador, ele começou a sentir o fardo da profissão. O policial passou a ter crises de dores crônicas, ansiedade e depressão. Queixando-se da falta de apoio da instituição, começou a se tratar. O tratamento já dura sete anos e hoje Alexandre denuncia a falta de cuidado psicológico com os policiais e a condição de "subcidadania" à qual os agentes de segurança estão submetidos.

    'Eu não aceitava ser fraco'

    "Nos últimos 10 anos, eu tive, assim próximo — pessoas do meu convívio, amigos, colegas de trabalho — eu tive cinco casos [de suicídio]. Cinco casos de amigos meus, pessoas com quem eu trabalhava, pessoas que estavam do meu lado. São cinco casos. Mais aquele caso que eu te falei de um escrivão que morreu alcoolizado nas ruas porque […] inclusive, morreu na rua mesmo. Ele saiu bêbado e morreu na rua, encostou em um muro lá e morreu. Então são seis, né? Na verdade, eu considero seis, porque esse cara também se suicidou. Ele foi se matando aos poucos. Sempre tem", lembra o policial Alexandre, taciturno, em entrevista à Sputnik Brasil.

    Alexandre ainda esclarece que, com exceção deste caso, que considera o sexto caso de suicídio que viu entre colegas, todos os outros tiraram a própria vida usando arma de fogo.

    Hoje, no estado de São Paulo, morrem mais policiais devido a suicídio do que em confrontos nas ruas. Entre 2017 e 2018, foram 71 suicídios nas Polícias Civil e Militar paulistas, enquanto nove policiais morreram em confronto nas ruas.

    O policial relata que o trabalho na polícia lhe acarretou uma série de problemas de saúde, pessoais e psicológicos. Ele conta que a dedicação total nos primeiros 15 anos como policial fez com que ele se afastasse da família e com que seu casamento acabasse. Da mesma forma, Alexandre passou a sentir dores crônicas em decorrência do estresse da profissão.

    "Eu, por exemplo, não fiz uso excessivo do álcool, nem de nenhuma outra droga ilícita. No entanto, eu me viciei em analgésico, porque eu tinha tantas dores, passava tanto mal […] e eu tomava um monte de analgésico para poder suportar aquilo", lembra.

    A aura criada em torno da profissão e da instituição, além da identidade assumida como policial, ele explica, retardou sua busca por ajuda. "Eu não queria, eu não podia, eu não aceitava ser fraco. Assim, po***, o cara tem 30 anos de polícia, eu tenho só 15, estou na metade do caminho, como assim?", explica o policial, mostrando que se comparava com colegas há mais tempo na profissão.

    O que ele mais lamenta desse período é que, quando não havia mais como resistir à necessidade de pedir ajuda, não encontrou o apoio que necessitava.

    "Logo depois, eu adoeci. E no momento em que eu não consegui mais disfarçar que eu estava doente e que eu precisava me cuidar, eu passei a ser tratado como um problema. Então não é só a sensação, mas a própria realidade é muito dura", recorda o agente de segurança paulista.

    "Um policial que chega e fala 'olha, eu tenho um problema psicológico', esse cara vai ser tratado como um problema. E todo mundo vai querer se afastar dele. É isso que acontece comigo e com outras pessoas", assinala Alexandre.

    Esse quadro de desamparo é descrito pelos pesquisadores como um dos fatores de risco principais para o adoecimento psíquico e o suicídio entre os policiais brasileiros.

    A pesquisadora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Dayse Miranda, é uma das principais especialistas na questão no Brasil. Coordenadora do Grupo de Estudo e Pesquisa em Suicídio e Prevenção do Laboratório de Análise da Violência da UERJ, ela coleciona artigos sobre a questão, além de ser autora do livro "Por que os policiais se matam".

    Miranda, em entrevista à Sputnik Brasil, aponta três fatores importantes de suas pesquisas sobre os motivos e características que levam os policiais ao suicídio. Segundo ela, as pesquisas mostram que ser do sexo masculino e ter acesso a uma arma de fogo são fatores que podem estar ligados ao suicídio entre policiais. Além disso, a pesquisadora destaca também a ausência de políticas para lidar com os profissionais adoecidos mentalmente, que, mesmo em tratamento, continuam com armas ao alcance.

    "Não existe, pelo menos falando das instituições que eu estudei aqui no Brasil, com exceção de São Paulo, uma política definida do acautelamento do uso da arma de fogo. Ou seja, policiais, que estão adoecidos, têm acesso à arma de fogo", aponta.

    A pesquisadora explica que, no caso do Rio de Janeiro, em particular, não há um regulamento para essa situação. E isso se daria porque muitos policiais fazem bicos fora da corporação para complementar renda. Ficar sem a arma atrapalharia funções paralelas.

    "A terceira variável que é importante, além do acesso, é também como que essas organizações policiais lidam com esse tema. Elas não têm uma política de humanização, de lidar com esse profissional. Então, normalmente o policial é visto como um profissional que precisa dar resultados, precisa atender a demanda da sociedade, independentemente da sua condição de saúde emocional e mental", aponta Miranda.

    O estresse da profissão, segundo as pesquisas de Dayse Miranda, não seria o maior problema, e sim a falta de mecanismos para coibir o adoecimento dos policiais.

    "O risco não é um problema para o policial. O que é um problema para o policial é a falta de cuidado com ele. Isso eu vi em todas as instituições, não só no Brasil como também nos Estados Unidos e na Inglaterra", diz a pesquisadora da UERJ.

    O ambiente de desconfiança e insegurança das instituições policiais, somado à falta de reconhecimento e de acolhimento com os agentes, cria uma situação indesejada de vulnerabilidade para os policiais que exige uma política para saúde mental dos profissionais.

    A subcidadania e a contradição na narrativa policial

    "Tem uma coisa que me irrita profundamente desde sempre. Já tive várias discussões sobre isso. Porque aquelas pessoas que querem te elogiar, elas te dizem assim: 'admiro muito seu trabalho, porque você é extremamente importante, porque você arrisca sua própria vida para proteger a minha'. Eu falei: 'eu não, não é bem por aí'.

    "Quero protegê-los, sim, o meu trabalho é protegê-los, sim, mas eu preciso também me proteger, porque eu também tenho mãe. Minha mãe também chora se eu morrer. Eu tenho filhos, meus filhos vão sentir minha falta se eu morrer", reclama Alexandre.

    "A gente lida diretamente com a expressão mais fria, mais dura da humanidade. A gente vai lidar com inquérito para investigar pedofilia. Poxa, eu tenho filhos, cara! Sabe!? Você vai ver imagens de uma criança sendo violentada. Isso não é fácil", acrescenta.

    O investigador de polícia acredita que o policial vive uma situação ingrata, em que lhe faltam direitos como trabalhador, ao mesmo tempo, que lhe sobram exigências institucionais e da população. Uma situação que, para ele, é mantida tanto à esquerda quanto à direita do espectro político.

    "[A atividade policial] hoje é tida em duas expressões opostas. Uma que trata o policial como herói — construiu-se a ideia de que o policial é um ser com superpoderes, alguém que recebe um chamado divino ou coisa assim. Do outro lado, as pessoas que se opõem a essa visão de que o policial é um herói, mas que constroem a ideia do policial apenas como um instrumento de opressão estatal. Ambas as visões desumanizam o policial", lamenta Alexandre.

    Para o policial civil, essa situação cria uma dicotomia entre o policial como vilão e o policial como super-herói, que se espalha pelo imaginário popular e também se fixa na identidade do policial.

    Alexandre faz parte de uma associação de policiais, presente em vários estados, chamada Policiais Antifascismo. A organização defende um modelo de polícia cidadã que entenda o policial como trabalhador.

    "Só assim a gente acredita que teremos uma prestação de serviço social pela polícia de forma humana e garantidora dos direitos de todos e não mais como serviçal de uma determinada parcela da sociedade. E o que acontece hoje, que a polícia serve única e exclusivamente a interesses de uma determinada elite", afirma.

    No exercício dessa função, Alexandre explica que entre policiais militares, por exemplo, são negados direitos básicos tais como a livre a expressão e a livre associação. O não cumprimento disso pode levar o policial a ser preso.

    "O policial hoje é treinado, ele é adestrado mesmo — como diz o atual secretário de Segurança Pública do Estado de São Paulo — para ser um cão de guarda", pontua Alexandre. Ele explica que esse treinamento busca criar um soldado "sem sentimentos", que apenas cumpra ordens. E essas ordens, continua, são pensadas por pessoas que nunca fizeram parte da base da polícia.

    A polícia brasileira seria liderada e organizada por uma elite, dentro e fora das polícias, que aplica uma política "de guerra" que desumaniza o policial e também o cidadão atendido. Alexandre se refere à hierarquia dentro das polícias, mais evidente na estrutura militar.

    Para o movimento composto por Alexandre, a falta de liberdade de expressão entre policiais é uma situação estressora e de desumanidade.

    Ele explica que mesmo dentro da Polícia Civil já passou por situações de represália. Em uma palestra anterior, ele proferiu opiniões negativas em relação ao governo e sua política de segurança pública. Como consequência, Alexandre foi chamado e interrogado pela Corregedoria, porém, sem abertura de processo.

    "Eu fui levado para a Corregedoria. Me mandaram um ofício, sem número de processo, não tinha nada. Eu fui ouvido sem nenhum procedimento formal. Porque foi um negócio para represália pura. Me levaram para a Corregedoria para me assustar e eu parar de falar. Quando a gente fala de subcidadania, é isso", conta.

    Alexandre recorda ainda que não lhe é permitido falar contra a instituição em que trabalha, o que consta na própria lei que regula a atividade do policial civil em São Paulo.

    "O grande problema que gera essa violência institucional é a violência praticada contra o próprio policial. Porque o policial entra em uma instituição e ele tem que pensar a partir do que está sendo pensado naquela instituição. Então ele é descaracterizado, despersonalizado", aponta o investigador.

    Ele remonta a um dado muito conhecido sobre a atuação policial no Brasil e acrescenta que as mortes de policiais e cidadãos estão na mesma classe social.

    "A polícia brasileira mata muito, mas morre muito também. Aí as pessoas tentam querer dizer que existe um equilíbrio, dá a ideia de que há um equilíbrio, existem pessoas morrendo dos dois lados diferentes — sendo que na verdade não é. Os policiais que morrem e os 'bandidos' que morrem são todos do mesmo estrato social", arremata.

    Apesar da conhecida situação da política de segurança pública brasileira, as últimas eleições no Brasil coroaram uma política de enfrentamento ainda maior, apresentando uma demanda de "flexibilização da autodefesa" dos policiais e facilitação do acesso da população às armas de fogo.

    Essa política de guerra não é unânime e tem gerado desconforto em parte dos policiais, pois eles entendem que o exercício da profissão pode se tornar mais perigoso, segundo o policial civil Alexandre Félix.

    "Dentro da grande massa de policiais que nós temos hoje no Brasil, isso gera um desconforto terrível. Porque qualquer policial que sabe exatamente como é lidar com a sociedade, lidar com essa condição beligerante de estar sempre em guerra, como se estivesse em guerra, isso gera, inclusive, medo ao policial. Porque o policial sabe, inclusive, também que a sociedade vai reagir de forma violenta", reage o policial.

    Para Alexandre, essa política coloca o policial em um campo de "extremo risco", podendo gerar "medo" e "sufoco", pressionando e desumanizando a força policial.

    "Eu sou policial há 23 anos. Eu não entrei na polícia para matar. Essa não é a minha função. Eu não quero fazer isso", diz o investigador, que ressalta as consequências psicológicas das mortes em confronto pela polícia. Uma situação que, para ele, também é consequência de um comando policial afastado da base.

    "O policial, quando ele é mandado para a rua para executar uma política de extermínio, esse policial não fica bem […]. É aí é que começa o policial a sofrer de ansiedade, depressão", expõe Alexandre.

    Para a pesquisadora da UERJ, Dayse Miranda, a parcela dos policiais que apoia a política de segurança pública de enfrentamento demonstra um lado contraditório.

    Isso, porque, ela explica, "eles [os policiais] pedem para a sociedade que eles sejam reconhecidos como seres humanos, que eles têm família, direitos humanos para eles", e que, no entanto, "eles também defendem a liberdade para matar em sua legítima defesa".

    Para Miranda, essa contradição é também um desconhecimento sobre o impacto dessa política sobre a própria saúde mental e emocional desses policiais. A razão disso, segundo a hipótese de Miranda, é "que eles já estão fundamentados na ideia de que eles são super-heróis, de que eles estão a serviço da sociedade […] e que eles não falham".

    As pesquisas da professora da UERJ apontam que o policial leva em média 14 anos para começar a demonstrar sintomas de estresse pós-traumático, que passam por ataque cardíaco, falta de concentração, transtorno de ansiedade e problemas com o sono.

    "Há um desconhecimento dessa possível relação entre violência e saúde mental do policial. E por isso, por eles desconhecerem isso, eles defendem que a forma do Estado protegê-los é dando liberdade para que eles decidam quando é o momento de matar. E pior, em nome da autodefesa. Então, assim, voltamos ao faroeste", aponta.

    "Aqui no Rio teve um caso de um policial que deu 50 tiros a esmo […]. Esse policial estava em tratamento psiquiátrico, acrescenta, dizendo que esse tipo de situação ainda depende da decisão de comandantes pelo Brasil afora devido à falta de uma política institucional."

    O pesquisador do Instituto Econômico de Pesquisa Aplicada (IPEA), Daniel Cerqueira, relembra, em entrevista à Sputnik Brasil, que o país, ao sair da ditadura militar e manter as polícias militares, teve os policiais encarados como apenas um órgão de repressão pelos setores progressistas, ao mesmo tempo, que as autoridades utilizaram os oficiais "sem o menor respeito com a profissão do policial".

    "Nós temos um profissional que vive no dia a dia aquela experiência de vida e morte, e é desvalorizado pela sociedade. O que acontecia de ruim 'é por causa do policial que não resolveu o problema, né?'", ressalta.

    Essa situação em que o policial é, por um lado, mal visto por setores progressistas e, por outro, desrespeitado pelas autoridades enquanto profissional e trabalhador, abriu espaço para um discurso sedutor.

    "Aí aparece alguém dizendo o seguinte: 'Não, os policiais são heróis, eles que têm que combater o crime, que tem que ir lá e matar esses criminosos. Eles vão salvar a sociedade'. Aquele discurso, por mais raso que seja, ele é um discurso que conquista a mente dos policiais a partir de uma retórica falaciosa", aponta o pesquisador.

    Para Cerqueira, a construção do heroísmo em torno do policial se torna um discurso útil tanto para conquistá-lo quanto para a manutenção de uma política que os mantém em risco e beneficia setores que comandam o Estado.

    "Um herói não precisa ter as condições profissionais de trabalho adequadas. Ele é herói! Ele não precisa ter uma situação tática para fazer uma abordagem de forma que minimize as chances de ele sofrer algum ferimento. Ele não precisa ter um equipamento de segurança. Ele é um herói!", enfatiza.

    "Ele não tem direito nenhum, na verdade. Ele é um cão de guerra, ele tem que ir lá e fazer o que tem que ser feito. Esse discurso de colocá-los como um herói nesse momento conquistou o coração de muitos policiais. Só que eu acho que falta clareza para esses policiais verem que por trás desse discurso raso está, na verdade, um grande desrespeito ao profissional policial. Ele precisa ser respeitado, valorizado enquanto profissional e ter as condições de trabalho adequadas", opina Cerqueira.

    Para ele, tendo em conta a forma como atua e responde à sociedade, as polícias não estariam agindo de acordo com os princípios constitucionais.

    "Eu acho que as polícias ainda não adentraram no estado democrático de direito. As polícias são verdadeiras caixas pretas no Brasil. Para você conseguir alguma informação nas polícias militares é muito difícil. Quando na verdade nós estamos falando de uma organização pública, que produz um bem público, de utilidade pública, e, portanto, deveria ter o controle e a transparência das informações para haver o controle democrático do que acontece ali, sobretudo porque são organizações que detêm o monopólio da força", aponta.

    "[A] ótica irresponsável da segurança pública é a ótica do confronto, é a ótica de achar que colocar o policial cumprindo um falso papel de herói cujo objetivo dele é entrar nas comunidades e eliminar o criminoso", especifica o pesquisador.

    Cerqueira acredita que através dessa política a tendência é que o problema aumente e que essa retórica não dê resultados em lugar nenhum.

    "Em nenhum lugar do mundo, em nenhum município, nenhuma cidade onde a polícia conseguiu reduzir crimes se utilizou essa ótica belicista, que na verdade só vai aumentar o problema. Se utilizou, sim, um trabalho policial, uma polícia que priorize, sobretudo, a inteligência concatenada com o trabalho social para evitar que a criança de hoje vire o bandido de amanhã", acrescenta.

    Para o pesquisador, a tendência com a adoção dessa retórica na segurança pública deve jogar mais lenha na fogueira da violência, e na linha de frente das consequências estariam os policiais.

    Cerqueira remonta ao fato de que o trabalho policial é, em qualquer lugar do mundo, uma atividade estressante. Mas acredita que o cenário brasileiro, com o aprofundamento da política de guerra, gera ainda mais estresse e adoecimento ao policial, com situações de desrespeito ao profissional como trabalhador.

    "[Houve] uma situação que aconteceu há um ou dois meses no Paraná, em que vários policiais foram afastados por problemas mentais. E aí o comando da polícia determinou que esses caras voltassem ao trabalho, mesmo com o afastamento médico. Resultado: teve um policial que estava completamente adoentado, desequilibrado, foi trabalhar e ao longo do período já foi dando tiro para todo lado. Chegou ao batalhão, acertou, parece, o tenente, acertou um outro soldado, tomou um tiro e se suicidou", conta.

    Entre policiais, suicídio é três vezes maior do que na população em geral

    "Na verdade, a prevalência de suicídio entre os policiais nos EUA é até um pouco menor do que a prevalência de suicídio da população civil. E no Brasil? No Brasil essa taxa é três vezes maior entre os policiais do que na população civil", diz Daniel Cerqueira.

    Uma pesquisa desenvolvida por Daniel Cerqueira está traçando um paralelo entre as profissões e as mortes no Brasil. Os dados preliminares, especificamente sobre o suicídio, são alarmantes.

    "No Brasil, a gente concluiu o seguinte: que em 2016, enquanto na população civil no Brasil há uma taxa de suicídio de 5,5 por 100 mil — ou seja, para cada 100 mil habitantes, 5,5 pessoas, em média, se suicidam — no Brasil essa taxa em 100 mil para policiais é de 15,3. Ou seja, para cada 100 mil policiais, 15,3, em média, se suicidam", diz Cerqueira. O pesquisador acredita que se esse levantamento for colocado apenas para os policiais militares, a taxa deve ser ainda maior.

    Para ele, o que determina essa situação, portanto, não é o trabalho de policial, mas, sim, o entorno e o contexto da atividade, seja no apoio ao policial, seja nos serviços prestados pelo Estado.

    "No Rio de Janeiro, se você for olhar qual é a taxa de homicídios no Rio de Janeiro, ela está um pouco menor do que 40 para cada 100 mil habitantes. Agora, se você olhar a taxa de homicídios de policiais no Rio de Janeiro, ela é de 277 por 100 mil habitantes. Então, qual é a situação que nós temos? Nós temos uma política e uma retórica irresponsável da guerra, que faz com que esses policiais tenham incentivo de entrar nessas comunidades atirando e matando, e, de fato, a polícia mata muito no Brasil — em relação aos Estados Unidos, ela mata seis vezes mais do que o policial americano", aponta.

    Para exemplificar as consequências do que chama de "situação limite" para o policial, o pesquisador do IPEA apresenta números relacionados aos policiais do Espírito Santo, onde, em 2017, houve uma greve informal de policiais.

    "O Espírito Santo, em 2015, teve um policial que se suicidou. Em 2016, nenhum. Em 2017, cinco policiais se suicidaram, que foi exatamente quando teve a crise, aquela greve da polícia. Para você ter uma ideia, em 2016, nove policiais lá no Espírito Santo tinham tentado suicídio, um ano depois, ou seja, em 2017, que foi o ano da greve, 32 policiais tentaram suicídio", aponta Cerqueira.

    Em dois anos, São Paulo registra 71 suicídios de policiais e nove mortes em serviço

    A pesquisadora da UERJ, Dayse Miranda, acredita que o estado de São Paulo é um dos que avançou "em termos de programas e em termos de serviços que você não vê no Brasil inteiro" em relação à saúde mental dos policias.

    Entretanto, ela mesma ressalta que o estado tem registrado um aumento nas taxas de suicídio e explica que tem dificuldades para pesquisar o problema no estado.

    "[Para] fazer uma pesquisa sobre esse tema em São Paulo, nós pesquisadores encontramos muita resistência por conta de um tabu […]. Entender esse problema está associado às próprias engrenagens de um sistema que tem algo a desejar", aponta Miranda.

    A pesquisadora não é a única a enxergar esse problema.

    "É um tabu discutir suicídio. Quando um policial militar morre em serviço, vai o comandante do batalhão, os colegas, vai muita gente para prestigiar o policial morto. Há um mausoléu de policiais mortos aqui em São Paulo. Quando um policial comete suicídio não vai quase ninguém, porque ainda vê no ato uma fraqueza. Então não vai prestigiar a fraqueza", relata em entrevista à Sputnik Brasil, Benedito Mariano, ouvidor que lidera a Ouvidoria das Polícias do Estado de São Paulo.

    Mariano tem sido uma das vozes a pedir mudanças na política paulista de combate ao suicídio. Apesar da ciência em diversos setores sociais acerca do problema, poucas pesquisas conseguem gerar dados sobre a questão. Em 2019, a iniciativa de Mariano gerou um relatório da Ouvidoria paulista com números alarmantes sobre o suicídio de policiais no estado de São Paulo. Os dados foram apresentados para o general João Camilo Pires de Campos, atual secretário de Segurança Pública paulista, e medidas são aguardadas.

    "Nos dois últimos anos, 2017 e 2018, 71 policiais em São Paulo cometeram suicídio — 20 policiais civis e 51 policiais militares", apresenta Mariano.

    Para o ouvidor, o suicídio entre policiais é um problema antigo, porém, não vem sendo tratado de forma adequada. Ele aponta que entre 1990 e 2000, em média, 15 policiais militares cometeram suicídio por ano. Já na Polícia Civil, apesar de não haver dados históricos, Mariano detalha que a média de 10 suicídios por ano, de 2017 e 2018, pode ser a maior em 50 anos.

    Dentro da Polícia Civil, a Ouvidoria já levanta a hipótese de que a diminuição do efetivo em cerca de 10 mil homens desde a década 1990, ao lado do aumento da demanda de trabalho, pode ter contribuído com o aumento dos suicídios.

    O ouvidor também corrobora a tese de Dayse Miranda e a denúncia de Alexandre Félix e diz que há pouco acompanhamento da saúde mental de policiais civis. O objetivo da Ouvidoria agora é a criação de um diagnóstico detalhado dos suicídios com a intenção de se propor políticas adequadas. A expectativa do ouvidor é de que 30% das famílias dos policiais que se mataram no último biênio sejam entrevistadas a fim de gerar um diagnóstico detalhado da situação.

    Para Mariano, a atual política de combate ao suicídio nas polícias em São Paulo é equivocada, pois dentro da Polícia Militar os acompanhamentos psicológicos são feitos por oficiais.

    "É muito difícil um praça que está com problema de saúde mental ir para um médico major, tenente-coronel e capitão e falar do seu problema. Porque mistura as questões hierárquicas. Por isso que é importante ser feito por profissionais de fora da instituição", defende Mariano.

    Para mudar o rumo desses dados, a Ouvidoria da polícia paulista quer que haja uma alteração na abordagem realizada pelos comandos policiais para o tratamento dos seus agentes e recomendou para a Secretaria de Segurança Pública a criação de um grupo de trabalho de profissionais de fora das instituições policiais para diagnosticar principalmente esses últimos dois anos.

    "E a partir desse diagnóstico, criar uma política de prevenção e que mantenha um grupo de profissionais de fora da polícia para acompanhar a saúde mental dos policiais civis e militares", aponta Mariano.

    Para o ouvidor, o aumento do suicídio na Polícia Militar paulista é uma "prova inequívoca" de que mudanças são necessárias na política de tratamento da saúde mental de policiais.

    "Então, isso demonstra que a saúde mental do policial não melhorou, ela foi piorando e piorou nos últimos dois anos", conclui Mariano.

    Polícia baiana alega que número de suicídios tem diminuído

    Em visita ao quartel da Polícia Militar da Bahia, em Salvador, a Sputnik Brasil foi recebida pelo coronel Marcos Nolasco, coordenador de Saúde da Polícia Militar da Bahia, e sua equipe.

    Nolasco apresentou dados sobre o trabalho da Polícia Militar da Bahia, a maior fora da região Sudeste, dizendo que o número de afastamentos por problemas psiquiátricos na corporação não está entre as principais causas de desligamento temporário de policiais. Isso, segundo ele, ajudaria a explicar uma tendência de queda nos suicídios entre os PMs baianos.

    "A gente conseguiu mapear, eu tenho aqui os dados e posso te passar, de 2006 para cá todos os suicídios de policiais militares. Mas não é tão grande. Estamos um pouquinho acima da média de 5,7 suicídios a cada 100 mil habitantes, que é a média brasileira, e a Bahia é uma das que têm menores. Se eu pegar de 2006 para cá, é 4,75 [por ano], sendo que se eu pegar de 2015, 2016, 2017 e 2018, dá quatro. Ou seja, eu posso falar para você que de 2015, 2016, 2017 e 2018 nós conseguimos, inclusive, diminuir o número de suicídios", explica o coronel.

    Segundo Nolasco, a diminuição seria, possivelmente, uma consequência de ações aplicadas pelo atual comando da corporação. Além de um programa especial no mês de setembro, em consonância com o movimento mundial de combate ao suicídio no mês, o Setembro Amarelo, há ações ao longo do ano que tentam identificar, através dos oficiais, riscos psiquiátricos entre os policiais. Todas as medidas são realizadas internamente, o que em São Paulo, por exemplo, já não surte efeito, segundo a Ouvidoria das Polícias do estado.

    "É apenas uma hipótese, eu não posso garantir, do ponto de vista científico eu não posso. Mas de 2015, 2016, 2017 e 2018 nós só tivemos quatro suicídios por ano. O que ainda é muito, porque eu queria zero, eu queria zero, não tenho dúvida que a gente queria zero. Mas ela é menos do que a média histórica e talvez esteja relacionada com esses três fatores que estou te falando: uma é a diminuição do ingresso de pessoas drogadas, que é o exame preventivo feito lá na admissão; uma preocupação maior com o mês de setembro, Setembro Amarelo; com esses exames periódicos, o que é feito mesmo fora do Setembro Amarelo. Então esse conjunto de coisas pode ter influenciado para reduzir de 4,75 para quatro suicídios por ano", apresenta o coordenador de Saúde da PM baiana.

    Ele, no entanto, se diz cuidadoso e acredita que o "ponto de vista estatístico" seja o ideal. O que, segundo ele, só será obtido com o acúmulo de dados dos anos seguintes, tendo em vista que há uma variação nos números de suicídios que vão de oito a dois por ano.

    Apesar disso, ele diz acreditar que os casos de suicídio nem sempre estão relacionados ao trabalho na polícia, especificamente, e dá um exemplo de um caso de suicídio recente dentro da corporação.

    "A grande maioria dos policiais que se suicidam são problemas particulares. Nós tivemos esse caso que foi dramático no ano passado dessa policial que brigou em casa com o marido, foi para o serviço, chegou ao vestiário e deu um tiro na cabeça. Mas assim, com problemas que qualquer pessoa pode ter. Infelizmente, ou felizmente, o policial anda armado", conta.

    Nolasco também explicita uma percepção comum entre pesquisadores do tema, que aponta que a presença constante da arma de fogo pode ser um fator de risco em situação de estresse pessoal.

    "O policial, ele está com a arma. Ele está com arma. Às vezes, se ele fosse outra pessoa que brigasse com a mulher, ou brigou por alguma outra coisa, e ele não estivesse com a arma no momento, ele poderia […] aquele momento de raiva, desespero, passar", diz Nolasco.

    As ocorrências de suicídio, explica o oficial da polícia baiana, são fatos conhecidos por toda a corporação e circulam em grupos de WhatsApp da PM baiana com velocidade, espalhando um sentimento de luto e "letargia" imediatamente.

    "Os suicídios são coisas que chocam toda a nossa tropa, nós somos uma unidade fechada. Então, quando tem um suicídio todo mundo fica sabendo, todo mundo fica sabendo. Vai para todos os grupos […] Hoje, com o WhatsApp, pior ainda. Todo mundo fica sabendo. Leva uma letargia, uma sensação de tristeza para toda a tropa. Do comandante ao soldado, lá mais longínquo", relata Nolasco.

    O Coronel também afirmou que a questão de hierarquia no momento do atendimento psicológico aos policiais não tem a influência que se imagina, apesar de reconhecer que pode criar receios. Ele explica que na corporação baiana muitos dos psicólogos seriam de baixa patente, e mesmo os de alta patente não colocariam a hierarquia sobre sua obrigação médica.

    "O pessoal pensa que a tragédia para o policial militar é sempre a troca de tiros, né? Mas eu sempre falo que isso é quem nunca foi em um atendimento de policial militar. Porque a troca de tiros é momentânea, instantânea, você morre ou mata, mas está ali, passou. Mas o problema é você ver muitas misérias, de crianças, de pessoas abandonadas e de criancinha jogada no lixo. Isso choca muito mais do que uma troca de tiros para a maioria dos policiais", conclui.

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