21:24 23 Agosto 2019
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    Delações revelam como corrupção de estendeu a todos os níveis de governo

    Corrupção no Brasil: seria engraçado, se fosse filme

    Rafael Neddermeyer/Fotos Públicas
    Brasil
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    "A partir da delação premiada da Odebrecht e agora da JBS se compreende como as grandes empresas acabaram corrompendo o sistema político-partidário como um todo. Há uma concentração maior no PT, PMDB e PSDB, mas todo o sistema foi bastante comprometido. A ideia da sociedade agora é fazer um esforço para saber quem sobrou."

    A opinião é do cientista político Ricardo Ismael, professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), que conversou com a Sputnik Brasil e traçou um cenário desafiador para a sociedade brasileira. Para o especialista, a corrupção é um problema que vem de longe na história brasileira, mas que agora assumiu proporções quase inimagináveis.

    "Nesse sistema partidário, que foi ancorado no PT, PSDB e PMDB a partir de 1994 no plano nacional, havia sempre uma polarização entre PSDB e PT. O PMDB passou a não lançar mais candidato a presidente, porque ele ficava como o guardião da governabilidade e dava apoio ao PSDB no Congresso, depois ao PT. Esse tripé conduziu o processo político nacional que está agora extremamente atingido com todas essas investigações e delações premiadas", diz o analista. Para Ismael, a sensação generalizada no país é que é preciso fazer urgentemente uma renovação de lideranças, partidos e da política, principalmente nessa" relação promíscua entre o público e o privado".

    "Isso não pode ser feito por mágica. Não tem como chegar agora e demitir senadores e deputados federais. A única coisa que mal ou bem tem sido ponto de convergência hoje num país completamente dividido é a Constituição, coisa que não acontecia no pré-64. Vamos ter que ir com eles até a próxima eleição para o Congresso Nacional", analisa Ismael, que credita ao presidente Michel Temer e a base governista boa parte do ônus pelo atual impasse, uma vez que, como governo interino e tampão, se arriscou a tentar aprovar reformas tão radicais como as trabalhista e da Previdência, que seriam para um início de governo e com índices de popularidade que o atual não tem.

    O cientista político concorda que um dos riscos para a renovação do quadro político é a descrença acentuda da população em relação à classe política, como ficou demonstrado nas últimas eleições municipais, onde a soma de votos brancos, nulos e abstenções ultrapassou de longe os recebidos pelos novos prefeitos do Rio, de São Paulo e de  dezenas cidades do país. Para Ismael, contudo, só o voto pode alterar o panorama brasileiro.

    "Esse comportamento de votar branco, nulo ou mesmo se ausentar impede a renovação de lideranças, do sistema partidário. O segundo sentimento que também tem que ser combatido é voltar aos tempos de uma intervenção militar, fecha o Congresso, bota alguém lá que vai resolver as coisas na base da canetada. O processo de renovação de valores do ponto de vista da cultura política terá que ser na democracia, mesmo com as imperfeições e problemas que ela tem. O tempo da democracia talvez seja um tempo mais longo do que as pessoas gostariam", finaliza o cientista político.

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    Tags:
    renovação, eleições, empresas, políticos, partidos, corrupção, PSDB, PMDB, PT, Congresso, PUC-RJ, Michel Temer, Ricardo Ismael, Brasil
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