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    Obama x Brasil: amigos, amigos, escutas à parte

    Roberto Stuckert Filho / Presidência da República
    Brasil
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    A menos de 48 horas da posse de Donald Trump na presidência dos Estados Unidos, a administração Obama fez um mea culpa quanto ao esfriamento das relações com o Brasil a partir de 2013. O vice-conselheiro de Segurança Nacional de Obama, Ben Rhodes, disse que faltou "timing" da administração americana em relação ao Brasil.

    Rhodes se referia ao esfriamento das relações entre os dois países depois que foi descoberto um esquema de escutas e espionagem não só em relação a então presidente Dima Rousseff, como a seu ministério, membros do Supremo Tribunal Federal (STF) e de diretorias de grandes empresas como a Petrobras. A espionagem, realizada pela Agência Nacional de Segurança (NSA, na sigla em inglês) foi denunciada pelo ex-técnico da agência Edward Snowden, há três anos radicado na Rússia. O esquema da NSA também foi utilizado para vasculhar a vida de outros importantes aliados europeus, como a chanceler alemã Angela Merkel.

    "Não há outro país no mundo com que nossas relações sofreram mais por causa dessas revelações", admitiu Rhodes, para quem os esforços dos EUA para recuperar as relações não tiveram êxodo.

    Na visão de Creomar de Souza, professor de Relações Internacionais da Universidade Católica de Brasília (UCB), a fala do conselheiro de segurança americano é típica do comportamento de administrações que estão findando, uma espécie de construção de justificativas para defender o legado do que foi realizado e do que não foi feito não foi efetivamente culpa dos membros de tomadores de decisão, mas sim de uma rede de circunstâncias. 

    "O fato é que, basicamente, a administração Obama não conseguiu entender o momento pelo qual o Brasil passava. De outro lado, as tempestades que afetaram o horizonte político do Brasil também dificultaram muito o diálogo com os Estados Unidos", diz Creomar, para quem Snowden é só um pião dentro de um jogo muito maior. 

    "Têm os interesses dos Estados, as ações de inteligência que são naturais. Nesse caso específico valem dois alertas: o primeiro é que os Estados costumam ter ações de inteligência contra outros Estados mesmo quando são aliados. O segundo é que um Estado como o brasileiro, com uma posição importante nas relações internacionais, não pode permitir que aconteça um lapso de inteligência no sentido de não saber que está sendo espionado e que potencialmente venha a ser espionado", diz o professor. 

    Creomar afirma que tanto os governos de Lula quanto os de Dilma abriram mão dos aportes de inteligência, desmobilizaram o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) e abriram uma grande brecha em termos de compreensão do que era realidade. 

    "De outro lado, uma função que é fundamental é que faltou à administração Obama foi fazer expressamente um mea culpa direto, rápido no sentido de reverter a situação e construir uma parceria de longo prazo que sempre ficou no discurso mas que nunca se colocou em termos práticos e que nunca tentou entender quais eram as necessidades políticas do Brasil em termos das relações internacionais", diz Creomar.

    Com relação a posse de Trump na próxima sexa-feira, o professor da UCB acredita que, no primeiro momento, o foco principal do republicano será a relação dos Estados Unidos com a China e a Rússia. 

    "Derivado dessas relações haverá algum tipo de construção de espaço que pode marginalmente colocar o Brasil em alguma agenda americana, mas não necessariamente estamos no rol de prioridades dos EUA, a não ser que aconteça algo muito fora da curva, e isso pode acontecer na política internacional", conclui.

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    Tags:
    empresas, escutas, aliados, relações internacionais, governo, espionagem, Universidade Católica de Brasília (UCB), Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Supremo Tribunal Federal (STF), Agência Nacional de Segurança (NSA), Ben Rhodes, Creomar de Souza, Lula, Edward Snowden, Barack Obama, Dilma Rousseff, EUA, Brasil
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