15:36 29 Outubro 2020
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    Enquanto decorre o conflito em Nagorno-Karabakh, o premiê armênio, Nikol Pashinyan, concedeu entrevista à Sputnik falando sobre o conflito na região de litígio.

    O conflito em Nagorno-Karabakh, que se intensificou no final de setembro, já tirou a vida de várias centenas de pessoas, segundo alguns dados. Até o momento não foi estabelecido um cessar-fogo estável, apesar dos acordos obtidos com intermediação da Rússia.

    O diretor-geral da agência Rossiya Segodnya (à qual pertence a Sputnik), Dmitry Kiselev, realizou entrevistas paralelas com os líderes da Armênia e Azerbaijão, Nikol Pashinyan e Ilham Aliev, respectivamente. A ambos os líderes foi dado o mesmo tempo para respostas.

    O primeiro-ministro Nikol Pashinyan explicou a Kiselev como ele avalia o cenário e a presença na região de mercenários estrangeiros.

    Da mesma forma, ele expressou sua opinião sobre quem e por qual razão está por trás da intensificação do conflito, ao passo que informou quais compromissos o lado armênio está disposto a tomar e o que seu país não aceitará, independentemente das condições.

    Dmitry Kiselev: Senhor primeiro-ministro, muito obrigado por aceitar responder a nossas perguntas neste momento difícil para a Armênia e o mundo. Como o senhor avalia os resultados dos combates desde 27 de setembro? Quais foram as perdas de [ambos] os lados e quantos são os prisioneiros de guerra?

    Nikol Pashinyan: A situação é muito complicada. Há muitas perdas de ambos os lados. O Exército de Autodefesa de Nagorno-Karabakh mantém a defensiva, organiza sua defesa, e eu posso avaliar a situação como bastante complicada.

    DK: Ou seja, avaliar as perdas dos lados e a quantidade de prisioneiros presos no momento não é possível?

    NP: Muitos especialistas dizem que esta é uma guerra sem precedentes pelas suas dimensões no século XXI. Porque aqui estão envolvidos todos os tipos de armamentos: tanques, drones, aviões e helicópteros, blindados, artilharia, sistemas de mísseis etc. E muitos soldados e tropas estão envolvidos nessas operações militares. Ou seja, estão em curso combates de grande escala e muito violentos, e no momento atual o Exército de Autodefesa de Nagorno-Karabakh mantém a defensiva. E de fato podemos dizer que os planos da Turquia e Azerbaijão de tomar o controle de Nagorno-Karabakh em uma guerra-relâmpago no momento falharam.

    DK: Senhor primeiro-ministro, nós frequentemente ouvimos falar sobre mercenários estrangeiros e terroristas lutando do lado do Azerbaijão. O senhor teria provas disso, e existem estrangeiros lutando do lado da Armênia?

    NP: Todo o mundo já fala sobre isso. É uma nuance muito importante, e também é importante porque ajuda a entender quem e com quais intenções começou essas operações militares. Claro, existem provas concretas de que militantes terroristas da Síria participam dos combates contra Nagorno-Karabakh. Estes vídeos de prova já foram publicados nas redes sociais e na mídia. Agora já é evidente que a Turquia é a principal patrocinadora desta guerra. A Turquia contratou e enviou tais militantes terroristas para a zona do conflito de Nagorno-Karabakh. Por decisão e sob patrocínio da Turquia foi tomada a decisão de começar a guerra, o ataque contra Nagorno-Karabakh. É importante entender, por que? Porque ficou evidente que o Exército do Azerbaijão sozinho não é capaz de lutar contra o Exército de Autodefesa de Nagorno-Karabakh. Por isso a Turquia decidiu envolver terroristas, tropas turcas – elas estão não só envolvidas no comando das ações militares, mas também diretamente por meio de forças especiais do Exército da Turquia. De acordo com algumas informações, também estão envolvidas nas operações forças especiais do Exército do Paquistão. E eu acho que em relação, pelo menos, à participação de militantes do lado da Turquia – isso já foi comprovado perante todo o mundo, porque muitas mídias internacionais já escrevem sobre isso. Uma informação muito interessante chegou no decorrer dos últimos dias a partir da Rússia, do norte do Cáucaso, quando na Chechênia e Daguestão foram eliminados militantes, e houve a informação de que tais militantes chegaram à Rússia do exterior, vieram da Síria. Eu vejo aqui uma ligação direta neste processo: os militantes da Síria foram transferidos pela Turquia à zona de conflito em Nagorno-Karabakh, para começar uma guerra contra Nagorno-Karabakh, e agora eles estão surgindo no norte do Cáucaso. Isso é um fato muito significativo, que mostra que tal situação não é simplesmente sobre o conflito em Nagorno-Karabakh, mas saiu de seus limites, no sentido local. Isso é um conflito regional de grande escala, o qual afeta interesses concretos de países regionais. Eu acho que, particularmente na Rússia, devem estar muito atentos a tal fato. Em relação ao lado armênio: é óbvio que não existe nenhum estrangeiro para lutar do lado de Nagorno-Karabakh. Pode haver alguns armênios que vieram da diáspora para apoiar seus compatriotas. Mas, obviamente, não podemos os considerar mercenários.

    DK: Nos acordos de Moscou de 10 de outubro são referidos os princípios básicos da regulação. Diga-nos, por favor, quais são esses princípios e como o senhor os entende?

    NP: Tais princípios são conhecidos por todos: é o direito da autodeterminação dos povos, o não uso da força, ou da ameaça de uso da força, a integridade territorial. A questão está em como tais princípios são interpretados pelos diferentes lados. Porque no curso das negociações se verificou que os diferentes lados interpretam de formas distintas estes princípios. E agora temos uma situação em que um destes princípios muito importantes foi violado. Eu já falei sobre ele – é o de não uso da força ou da ameaça de uso da força para a solução do problema de Nagorno-Karabakh.

    DK: Senhor primeiro-ministro, quando se fala sobre compromissos, para quais deles vocês estariam prontos? Existe algum limite a partir do qual vocês não vão recuar de forma alguma?

    NP: Sim, claro, existe tal limite, e este limite é a autodeterminação do povo de Nagorno-Karabakh. E sempre e em todos os tempos a Armênia esteve pronta para tal compromisso. A mais famosa iniciativa, foi a iniciativa de Kazan, quando a Armênia esteve pronta para um compromisso concreto. Mas o Azerbaijão recusou-se a assinar tais acordos, porque o Azerbaijão não queria e não quer aceitar a autodeterminação dos armênios de Nagorno-Karabakh. E o direito à autodeterminação de Nagorno-Karabakh é para nós o limite, claro, é para nós a linha vermelha que não podemos cruzar.

    DK: Desculpe, sobre qual compromisso concreto o senhor está falando?

    NP: Eu disse que a Armênia estava pronta para compromissos. Você perguntou se havia alguma linha vermelha a qual nós não cruzaríamos. Eu disse que sim – o direito à autodeterminação do povo de Nagorno-Karabakh.

    DK: Sobre o limite nós falamos, mas sobre algum compromisso em concreto [falamos]? O senhor não gostaria de citar exemplos de tal tipo de compromisso, eu entendi bem?

    NP: Sabe, agora na declaração de Moscou foram assuntados passos concretos, como recuperar um processo de negociações real. E sob tal acordo já foram descritos os passos concretos, e nós estamos prontos para dar tais passos, para solucionar a questão de Nagorno-Karabakh. E estamos prontos para tais compromissos, estamos prontos para compromissos proporcionais, para os quais está pronto o Azerbaijão.

    DK: Obrigado, senhor primeiro-ministro. Nós de fato falamos que esta guerra se distingue por sua violência incomum, esta violência já entrou na história, e ambos os líderes entraram para a história como participantes de uma guerra muito violenta. Mas como o senhor gostaria de ficar na história depois disto?

    NP: Isso não é uma questão de ambições pessoais. Eu gostaria que, em resultado deste conflito, o conflito de Nagorno-Karabakh fosse solucionado definitivamente. Na base do compromisso. Para que encontremos uma solução que seja aceitável para todos os lados: Armênia, Nagorno-Karabakh e Azerbaijão. E essa seria a solução final.

    DK: Senhor primeiro-ministro, eu já lhe perguntei tudo o que planejei. Talvez o senhor queira adicionar alguma coisa?

    NP: Claro. Respondendo a sua primeira pergunta, eu disse que é muito importante prestarmos atenção aos objetivos que a Turquia tem neste processo. Eu tenho certeza de que a Turquia, após os eventos conhecidos do início do século XX [quer] voltar ao sul do Cáucaso, para continuar sua política genocida dos armênios no sul do Cáucaso. É muito importante entender isso, que para a Turquia esse é um objetivo pragmático. Não é um objetivo emocional, mas um objetivo pragmático, porque os armênios do sul do Cáucaso são a última barreira para a Turquia, para a expansão a norte, para a expansão a leste para a expansão a sudeste, porque estou certo de que isso é a continuação da política imperial da Turquia. E tudo o que ocorre agora no sul do Cáucaso deve ser analisado no contexto da política que a Turquia executa no mar Mediterrâneo, na Líbia, na Síria, no Iraque, em relação à Grécia e ao Chipre. O que está acontecendo agora, como já disse, tal processo já saiu dos limites do conflito local de Nagorno-Karabakh, agora está acontecendo uma redefinição [de fronteiras]. A Turquia quer a redefinição do sul do Cáucaso, mais precisamente, obter controle de todo o sul do Cáucaso e o tornar em uma plataforma para sua expansão ao norte, ao leste e em direção ao sudeste. Eu acho que nesta situação já são atingidos os interesses de segurança nacional de muitos países, incluindo, em primeiro lugar, da Federação da Rússia. Não foi por acaso que eu relembrei sobre a informação que veio da Chechênia e Daguestão. De onde surgiram esses militantes, na Chechênia e Daguestão, militantes sírios? Para mim é óbvio que eles vieram da zona do conflito de Nagorno-Karabakh. A questão é se isso é um acaso ou uma ação planejada com o objetivo de desestabilizar o norte do Cáucaso, para distrair a atenção da Rússia dos eventos que ocorrem agora no sul do Cáucaso – na zona do conflito de Nagorno-Karabakh. Isso é uma nuance muito importante, a qual deve ser avaliada na Rússia.

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    Tags:
    conflito, mercenários, Turquia, Nikol Pashinyan, Azerbaijão, Nagorno-Karabakh, Armênia
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