12:30 17 Janeiro 2018
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    Soldado norte-americano Charles Jenkins, que fugiu da Coreia do Norte em 1965 (foto de arquivo)

    Morre ex-professor de Kim Il-sung e 'vilão ocidental' mais famoso da Coreia do Norte

    © REUTERS/ Darren Whiteside
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    O norte-americano Charles Jenkins, que fugiu da Coreia do Norte em 1965, morreu no Japão aos 77 anos, informa a mídia japonesa. O fugitivo viveu no país de Kim Jong-un por 39 anos e conseguiu sair do território apenas em 2004.

    Ao longo da sua jornada no "reino dos Kim", Jenkins interpretou diferentes vilões ocidentais nas películas norte-coreanas e até deu aulas de inglês ao líder Kim Il-sung.

    Em 1964, Jenkins tinha 24 anos e servia em uma unidade do exército estadunidense que estava instalada na zona desmilitarizada na península da Coreia. O sargento tinha medo de que o matassem durante uma das missões de patrulhamento na fronteira ou que fosse enviado ao Vietnã.

    Foi por isso que decidiu fugir da Coreia do Norte, ou seja, para buscar um refúgio na embaixada da URSS e assim poder regressar aos EUA no âmbito do programa de troca de prisioneiros.

    Jenkins cruzou a fronteira com a Coreia do Norte em janeiro de 1965 e se rendeu aos guardas norte-coreanos. Porém, logo se deu conta que seu plano fracassaria, dado que a União Soviética tinha rechaçado sua solicitação.

    O sargento foi alojado em Pyongyang junto com outros três desertores dos Estados Unidos. As autoridades do país os obrigaram a aprender o idioma coreano e a ideologia juche.

    Em 1972, Jenkins recebeu a nacionalidade norte-coreana e logo começou a interpretar o papel de vilão ocidental nos filmes propagandistas produzidos na Coreia do Norte. Além disso, o americano afirmou ter trabalhado como professor de inglês do então chefe de Estado, Kim Il-sung.

    Em 1980, as autoridades do país forçaram Jenkins a se casar com uma mulher japonesa de 21 anos, Hitomi Soga, que havia sido sequestrada para ensinar sua língua a espiões norte-coreanos. Passado algum tempo, Soga e Jenkins se apaixonaram. O casal teve duas filhas.

    O fugitivo contou que o Japão fazia muita falta à sua esposa. Quando eles iam dormir, Jenkins sempre lhe dizia "oyasumi", que pode ser traduzido do japonês como "bons sonhos". Soga, por sua vez, costumava responder o mesmo em inglês. Jenkins explicou que o casal fazia isso para não esquecer quem eram.

    Soga e Jenkins desfrutavam de muitos privilégios em comparação com outros habitantes do país. Quando a Coreia do Norte enfrentou fome devastadora na década de 1980, as autoridades lhes forneciam arroz, roupas, cigarros e sabão, enquanto o resto da população não tinha nada disso. No entanto, eles nunca tiveram o privilégio de deixar o país livremente.

    Jenkins disse que abandonou a esperança de deixar a Coreia do Norte, mas, em 2002, Pyongyang lançou cinco cidadãos japoneses, incluindo Hitomi Soga. Dois anos depois, Pyongyang permitiu que Jenkins e suas filhas deixassem o país e se dirigissem ao Japão também.

    O desertor foi julgado no Japão por um tribunal militar dos EUA e condenado a 25 dias de prisão por 39 anos de ausência sem permissão. Jenkins foi o único desertor americano da época a conseguir deixar a Coreia do Norte. Os restantes militares fugitivos moraram lá até a morte.

    Jenkins passou seus últimos anos na ilha de Sado, onde nasceu a sua esposa. Em 2005, ele publicou a sua autobiografia, que se tornou muito popular no Japão. No livro, ele confessou que a sua fuga para a Coreia do Norte foi o maior erro de sua vida.

    Mesmo depois de sua libertação, Jenkins temia que Pyongyang ordenasse o assassinato dele e da sua família. No entanto, Jenkins morreu por causas naturais, especificamente devido a problemas cardíacos, de acordo com a emissora japonesa Kyodo.

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    Tags:
    desertor, Kim Il-sung, Japão, EUA, Coreia do Norte
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