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    Japão pretende se divorciar dos EUA por causa da Rússia?

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    O assunto das Ilhas Curilas já funciona há muito tempo como antolhos nas relações russo-japonesas, ocultando assuntos e temas muito importantes.

    Entretanto, a futura visita do presidente russo Vladimir Putin ao Japão, bem como as negociações já realizadas em Vladivostok nas margens do Fórum Econômico Oriental, tocam temas interessantes que não receberam muita atenção.

    Primeiro, ambas as partes começaram a falar de forma intensa sobre um possível compromisso em relação às ilhas. O leque de possibilidades é extremamente amplo, desde a entrega de duas ilhas ao Japão até à atividade econômica conjunta com manutenção da soberania russa sobre as ilhas. Putin disse que a Rússia e o Japão poderão encontrar um compromisso se conseguirem construir relações de confiança mútua.

    Pelos vistos, Putin está de acordo com a divisão das ilhas Curilas do sul, mas não sem receber algo em troca. O Japão deve dar grandes passos para melhorar as relações bilaterais, se tornar em um país que faça parceria estratégica com a Rússia. Isso significa que o Japão deve cortar laços com os EUA e passar para a área de influência política da Rússia.

    Segundo, se isso é assim e o preço das ilhas é uma mudança de orientação política do Japão, por que o Japão deve aceitar esta proposta?

    A resposta a esta questão sai fora do tema das Curilas e tem que considerar a situação do Japão em geral.

    O país, que era um dos aliados militares principais dos EUA, entrou em impasse. O Japão já há mais de 20 anos que enfrenta um baixo nível de desenvolvimento econômico, a razão para o qual, segundo o economista japonês Takatoshi Ito, foi o Acordo de Plaza de 1985, quando o Japão, além de outros parceiros norte-americanos, concordou em ajudar os EUA e corrigir o défice do balanço comercial à custa de aumentar a taxa de câmbio do iene. Em resultado, os produtores japoneses perderam posições e cederam aos norte-americanos, o que travou uma economia poderosa no passado.

    Além disso, o Japão, muito limitado em termos militares depois da Segunda Guerra Mundial, contou com os EUA para as questões de segurança. Entretanto, a política norte-americana fracassou porque a Coreia do Norte conseguiu criar armas que ameaçam o Japão. Os EUA, em conjunto com a Coreia do Sul, provocam a Coreia do Norte com seus grandes exercícios. Assim, a política norte-americana na região não assegura a segurança do Japão e submete-o ao risco de uma guerra.

    Esta não é a lista completa de divergências entre o Japão e os EUA. É evidente que o Japão já recebeu todo o possível da parceria com os EUA e não receberá nada de novo. Há que destacar que o Japão já há muito tempo segue uma linha política em relação à Rússia que não corresponde à posição norte-americana.

    Se o Japão escolher a Rússia, ele obterá muito – uma oportunidade para aumentar as exportações, necessárias para restaurar a economia, e petróleo e gás por um preço razoável. Também a diminuição da ameaça de um ataque norte-coreano, porque as bases dos EUA seriam encerradas.

    Este ponto de vista pode parecer extravagante, mas explica porque as partes se prepararam tanto para a visita, apesar de Putin e o primeiro-ministro japonês Shinzo Abe expressarem pontos de vista opostos.

    Em qualquer caso, as negociações entre Putin e Abe serão interessantes. O que resta é esperar pela visita.

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    Tags:
    disputa territorial, negociações, visita, Vladimir Putin, Shinzo Abe, Ilhas Curilas, Rússia, EUA, Japão
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