21:33 18 Fevereiro 2020
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    Diretor-adjunto do IPEA, José Eduardo Brandão, discutiu as perspectivas para o BRICS em 2020 e como a tecnologia blockchain pode melhorar o comércio entre os países em áreas tradicionais, como a agricultura.

    O diretor-adjunto de estudos internacionais do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), José Eduardo Brandão, conversou com a Sputnik durante participação do Fórum Econômico Gaidar, realizado entre os dias 15 e 16 de janeiro, em Moscou, na Rússia.

    O fórum contou com a presença do vice-ministro interino das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Ryabkov, que declarou que o tema de segurança cibernética deve ir para o topo da agenda durante a presidência russa do BRICS em 2020.

    Brandão concordou com a importância da segurança cibernética, lembrando os desafios que a sociedade enfrenta com o gerenciamento de dados e manutenção da privacidade.

    "Existem várias formas de fazermos essa parceria. O Brasil e a Rússia já têm um rascunho de acordo relacionado à segurança cibernética [...] que não chegou a ser ratificado. Uma forma de cooperar seria rever esse acordo e tentar torná-lo efetivo nesse ano", propôs Brandão.

    Ele lembrou a necessidade de harmonizar as legislações sobre crimes cibernéticos de cada país do BRICS, para garantir que "se um crime for cometido no Brasil, também seja considerado crime na Rússia".

    Além da legislação, outro desafio para a cooperação na área de segurança cibernética é a confiança mútua.

    "E isso não só em relação ao BRICS. Atualmente, nenhum país confia no outro quando o assunto é segurança cibernética. Esse problema vai desde a área de negócios até a produção de armas cibernéticas", contou.

    O diretor-adjunto do IPEA propôs a intensificação do intercâmbio acadêmico como forma de aumentar os níveis de confiança entre Brasil e Rússia na área cibernética:

    "[É importante] realizar intercâmbio de pesquisadores das duas nações para que seja criada essa confiança mútua, para que ao longo dos anos [possamos] fazer desenvolvimentos tecnológicos comuns", disse Brandão.

    Tecnologia blockchain no BRICS

    Para ele, os países do BRICS devem desenvolver um algoritmo conjunto para implementar a tecnologia blockchain em suas transações comerciais.

    "Se adotarmos algoritmos comuns, fica muito mais fácil cooperar", apontou.

    A tecnologia poderia ser aplicada em áreas tradicionais do comércio, como, por exemplo, no rastreamento da origem de produtos exportados do Brasil para a Rússia, como a carne bovina.

    "Quando alguém compra um bife na Rússia, poderia rastrear de qual frigorífico a carne veio, de qual país ela originou, qual foi a vaca que gerou aquele bife, quem foram os seus pais, o que eles comeram ao longo de toda a vida, quais foram as vacinas que tomaram, tudo!", explicou.

    Para Brandão, a embalagem dos produtos poderia vir com um código QR que, escaneado pelo celular, mostraria todo o histórico do produto: "[Se] eu não quero que a carne que eu como tenha produtos transgênicos, isso vai estar registrado [...] e o consumidor poderá saber na mesma hora."

    Chineses escaneiam código QR pelo celular. Tecnologia blockchain, associada ao código QR, pode fornecer soluções ao comércio intra-BRICS
    © AP Photo / Mark Schiefelbein
    Chineses escaneiam código QR pelo celular. Tecnologia blockchain, associada ao código QR, pode fornecer soluções ao comércio intra-BRICS

    O mesmo uso da tecnologia blockchain pode ser aplicado a diversos produtos, inclusive medicamentos, apontou Brandão.

    "A cadeia de suprimentos vai ganhar muito com isso, porque você pode ter o registro de todos os componentes de um computador ou de um carro, por exemplo. Você pode saber quando e onde cada componente foi reproduzido, tudo pode ser registrado", detalhou.

    BRICS 2020

    Brandão demonstrou otimismo com o trabalho do BRICS em 2020 e acredita que os temas tradicionais de debate, como comércio e investimentos, "continuarão quentes" neste ano.

    "Nós temos uma necessidade muito grande de financiamento e muita dificuldade de consegui-lo", lembrou.

    Mas esses temas devem ser tratados sob o ponto de vista da sustentabilidade, acredita Brandão, lembrando que, durante o Fórum Gaidar, "o desenvolvimento sustentável esteve na ponta de todas as discussões".

    "A sustentabilidade não é só meio ambiente: ela envolve a sustentabilidade da dívida pública, a sustentabilidade do comércio internacional, na área de educação, saúde e bem-estar", complementou.

    Para ele, o desenvolvimento sustentável será fundamental para a agenda do BRICS, pelo menos até 2030, "quando nós precisamos encerrar a agenda" com avanços, conforme os pontos "definidos pelas Nações Unidas", lembrou.

    Líderes do BRICS reunidos na 11ª Cúpula de Chefes de Estado de Brasília, em 13 de novembro de 2019
    © Sputnik / Ramil Sitdikov
    Líderes do BRICS reunidos na 11ª Cúpula de Chefes de Estado de Brasília, em 13 de novembro de 2019

    Brandão frisou a importância geopolítica do BRICS, que agrega os "países mais populosos do mundo, que têm uma economia enorme e uma demanda por energia crescente".

    "Nós temos algumas visões discordantes, está claro, mas muitas coisas em comum", garantiu.

    O diretor-adjunto do IPEA lembrou que este tipo agrupamento de países é imprescindível para que a comunidade internacional consiga "alavancar um novo diálogo global".

    José Eduardo Malta de Sá Brandão é colaborador do IPEA desde 1998. Formado em Estatística pela Universidade de Brasília (UnB), Brandão tem mestrado em Ciência da Computação e doutorado em Engenharia Elétrica. Durante o Fórum Gaidar, Brandão fez apresentação sobre os resultados da presidência brasileira do BRICS de 2019.

    O Fórum Gaidar é um dos principais eventos acadêmicos promovidos anualmente na Rússia. O evento, organizado desde 2010 pela Academia de Administração Pública da Presidência da República, homenageia o economista e reformista russo Egor Gaidar.

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    Tags:
    Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), BRICS
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