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Com a economia em xeque, o Brasil deve se preparar para recuo de commodities?

© AP Photo / Andre PennerTrabalhadores conduzem tratores dentro de campo de soja no Mato Grosso, em 27 de março de 2022
Trabalhadores conduzem tratores dentro de campo de soja no Mato Grosso, em 27 de março de 2022 - Sputnik Brasil, 1920, 19.05.2022
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Seja qual for o vencedor das eleições presidenciais neste ano, um desafio já desponta no horizonte brasileiro: o recuo da demanda e do preço das commodities, que respondem por uma fatia considerável da economia brasileira.
Segundo relatório do Banco Mundial, as commodities energéticas deverão recuar, em média, 12,4% em 2023 e 11,9% em 2024.
Já o preço das "commodities não energéticas" deverá cair, em média, 8,8% no próximo ano e 3,2% em 2024.
Pesam ainda as atuais condições da economia da China, principal parceiro comercial do Brasil, que impôs regras rígidas na tentativa de erradicar o coronavírus (apelidadas de Covid Zero) e o afastamento, ainda que temporário, de Pequim do mercado externo.
A Sputnik Brasil conversou com economistas a fim de entender como o ciclo de recuo das commodities pode afetar o Brasil — e se o país pode ter que se preparar para o efeito rebote que isso pode eventualmente criar.
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Incertezas

Para Maria Beatriz Albuquerque David, professora de economia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), a situação neste momento é incerta.
Ela explica que as commodities raramente têm um ciclo longo em que os preços permanecem altos — fenômeno que já aconteceu alguns anos atrás. No momento, um dos fatores que estão fazendo os preços subirem muito é a volta do crescimento de algumas economias, que estavam paradas por causa da pandemia e agora estão retomando as atividades.

"Há a questão do conflito na Ucrânia, que impacta violentamente no preço dos energéticos, sobretudo os derivados do petróleo. Mas a retração e a paralisia, hoje, da economia chinesa com a política de Covid Zero vai ter um impacto na demanda mundial. Qualquer recessão ou queda na economia chinesa tem um impacto enorme no mundo inteiro", aponta.

© AP Photo / Andre PennerCaminhão de soja no Mato Grosso do Sul, em 18 de março de 2009
Caminhão de soja no Mato Grosso do Sul, em 18 de março de 2009. - Sputnik Brasil, 1920, 19.05.2022
Caminhão de soja no Mato Grosso do Sul, em 18 de março de 2009
Já para a coordenadora da graduação de economia do Insper, Juliana Inhasz, o Brasil precisa ter ciência de que essa nova fase de commodities com preços mais altos vai acabar. Por ser um produtor de commodities, o Brasil consegue, nos momentos em que os preços estão mais altos, se beneficiar. Então, explica ela, o país consegue colocar mais produtos no mercado e alavanca a economia.

"Nesse aspecto, é importante saber do recuo porque esse ciclo pode se desfazer e pode fazer com que a gente tenha redução de receita e, naturalmente, uma certa redução do crescimento econômico, a partir do momento em que essa queda de preços possa desestimular a produção", indica.

Afinal, como o Brasil pode se preparar hoje?

Uma eventual preparação para a queda no valor das commodities é muito difícil porque o Brasil é extremamente dependente dos seus preços — especificamente das agrícolas e das minerais, explica Maria Beatriz Albuquerque David.
Ela acrescenta que os preços de algumas commodities também prejudicam diretamente o Brasil. Um exemplo é o caso do aumento do trigo, no qual o país não é autossuficiente e depende da oferta mundial.
Até meados de 2023 esse preço deve cair, mas não tão violentamente como se esperava, justamente se prolongadas as tensões internacionais, prossegue.

"Nós também já temos um impacto inflacionário muito grande, em parte ligado aos fatores externos e em parte a fatores ligados à nossa própria economia, principalmente o nosso desequilíbrio fiscal. Então, no curto prazo, é muito difícil reverter essa situação. Nós podemos aumentar a oferta de algumas commodities, o que impactaria negativamente no preço internacional, mas não são as que estão mais pressionadas hoje", diz a professora da UERJ.

A economista afirma que a tendência é que produtores aumentem as áreas plantadas de trigo no Brasil nos próximos meses.
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Já a produção de fertilizantes talvez seja uma das áreas que o Brasil tenha como reverter nos próximos quatro ou cinco anos. "Mas é difícil reverter porque desmontamos muito da nossa capacidade produtiva que existia há dez, 15 anos nessa área", adicionou.
Juliana Inhasz concorda com a colega: aumentar a oferta de commodities pode fazer com que o preço caia ou até antecipar essa queda de preços.

"Ele é benéfico à medida que gera aumento da utilização da capacidade instalada, então a gente consegue fazer com que a economia cresça, a produção cresça", relata.

O ideal, indica ela, é repensar os investimentos na produção de commodities, porque, apesar da queda do preço, o comércio de matérias-primas segue rendendo benefícios.
"É importante que se olhe essas projeções e que se entenda quais são as commodities que devem ser utilizadas, porque são as que vão dar retorno apesar da queda de preços, e quais vão dar prejuízos", avalia.
© AP Photo / Andre PennerTratores operam em campo de soja no Mato Grosso, em 27 de março de 2022
Tratores operam em campo de soja no Mato Grosso, em 27 de março de 2022.  - Sputnik Brasil, 1920, 19.05.2022
Tratores operam em campo de soja no Mato Grosso, em 27 de março de 2022

Quais reformas são necessárias?

Ambas as economistas acreditam que reformas estruturais teriam impacto de médio e longo prazo. No curto prazo, não há nenhuma reforma estrutural que possa resolver essa questão.

"O Brasil não fez grandes investimentos e está muito atrasado na questão tecnológica e muito defasado em relação ao resto do mundo. Além do mais, não está integrado nas cadeias produtivas mundiais. Hoje estão faltando chips, semicondutores. O Brasil não tem nenhuma vantagem comparativa aí e levaria tempo para entrar nessa área", aponta Maria Beatriz Albuquerque David.

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Há uma luz no fim do túnel, segundo a professora da UERJ: o investimento na melhoria da logística de transporte, que pode ter reflexos a curto prazo, e o investimento em outras formas de transporte que não sejam o rodoviário, que é caro devido ao desperdício de recursos.

"Mas para isso é preciso ter uma atração de investimentos estrangeiros e uma decisão do governo de investir, porque a capacidade hoje é baixíssima pelo desequilíbrio fiscal e pelo comprometimento do orçamento — especialmente ao tentar manter uma base política azeitada", critica.

© AP Photo / Andre PennerTrator em campo de soja no Mato Grosso do Sul, em 17 de março de 2009
Trator em campo de soja no Mato Grosso do Sul, em 17 de março de 2009. - Sputnik Brasil, 1920, 19.05.2022
Trator em campo de soja no Mato Grosso do Sul, em 17 de março de 2009
A professora do Insper, por sua vez, aponta que as reformas estruturais ajudariam nesse contexto caso a economia estivesse mais ajustada, com expectativas de crescimento maiores.
Em um cenário econômico com reformas sendo feitas, confiança do consumidor e do investidor, perspectivas de crescimento, ela argumenta, os produtores enxergam que existe gente que vai consumir, que vai ter demanda; há uma aposta dentro da economia. Ou seja: continuam produzindo, porque apesar do preço cair, vão ter demanda pelo produto.

"No entanto é importante pontuar que hoje é difícil fazer reformas, no [atual] momento econômico e eleitoral. É impossível que sejam aprovadas reformas mais consistentes até o final do ano, por conta das questões políticas e institucionais", diz Juliana Inhasz.

A economista aponta para uma solução intermediária, mas eficaz a curto prazo: investimento em tecnologia.

"O interessante seria investir em máquinas, equipamentos e tecnologia no geral. Uma tecnologia que possibilitasse uma redução do custo de produção para que houvesse vantagens para quem produz. Com a tecnologia a favor, o produtor vai ter preços mais amigáveis e um aumento na margem de lucro", conclui.

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