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Doria no Itamaraty: o que o presidenciável tucano tem a oferecer em política externa?

© REUTERS / Carla CarnielGovernador de São Paulo, João Doria, fala à mídia sobre a vacinação contra coronavírus (COVID-19) no Instituto Butanta em São Paulo, Brasil, 16 de agosto de 2021
Governador de São Paulo, João Doria, fala à mídia sobre a vacinação contra coronavírus (COVID-19) no Instituto Butanta em São Paulo, Brasil, 16 de agosto de 2021 - Sputnik Brasil, 1920, 20.01.2022
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Apesar das dificuldades para consolidar sua campanha dentro do PSDB e decolar nas pesquisas de intenções de voto, Doria pode usar CoronaVac para se promover como melhor candidato para política externa brasileira.
Depois de prévias tumultuadas no PSDB, que contaram com acirrada disputa interna e até ataques de hackers, o governador de São Paulo, João Doria, luta para consolidar sua pré-campanha à presidência da República.
Com desempenho desanimador nas pesquisas de intenção de votos, os caciques do partido teriam colocado um "prazo de validade" à candidatura de Doria, de acordo com o jornal Correio Brasiliense.
O governador de São Paulo teria até março para decolar nas pesquisas, sob pena de perder apoio interno do partido. Para melhorar sua posição na corrida ao Palácio do Planalto, Doria anunciou agenda de viagens pelo Brasil e reuniões com líderes do agronegócio e empresariado.
Além disso, a equipe econômica do tucano, que conta com economistas como Henrique Meireles, Zeina Latiff, Ana Carla Abraão e Vanessa Rahal Canado, foi anunciada em dezembro.
Assessores de Doria acreditam que o pré-candidato tem um trunfo perante seus adversários: o sucesso no desenvolvimento e produção da CoronaVac no estado de São Paulo, empreitada que beneficiou a campanha de vacinação nacional.
© Folhapress / Roberto Casimiro /FotoarenaGovernador de São Paulo, João Doria, com vacina CoronaVac, 22 de agosto de 2021
Governador de São Paulo, João Doria, com vacina CoronaVac, 22 de agosto de 2021 - Sputnik Brasil, 1920, 20.01.2022
Governador de São Paulo, João Doria, com vacina CoronaVac, 22 de agosto de 2021
Essa carta na manga de Doria indica que o setor de política externa poderá gerar dividendos na sua campanha.
"Doria deve trazer a questão das vacinas para os debates [da campanha presidencial de 2022]", disse o doutorando em Ciência Política (UFSC) e membro do Núcleo de Estudos em Comportamento e Instituições Políticas (NECIP), Gabriel Mendes, à Sputnik Brasil. "Essa foi uma grande negociação internacional que ele liderou, diretamente com a China."
Para Mendes, o tucano deve enfatizar que, apesar de a China ser um país comunista, ela teve altivez e neutralidade para negociar a obtenção da vacina, em prol do povo paulista e brasileiro. Doria ainda deve capitanear na atuação internacional do governo paulista.
O governo do estado de São Paulo acaba de inaugurar um escritório de representação na América do Norte, sediado em Nova York, nos EUA, em prática conhecida como "paradiplomacia".
"A paradiplomacia é quando entes não federais, como prefeituras, estados, ou o legislativo, fazem negociações com outros entes políticos internacionais não federais", disse Mendes. "Doria é muito afeito a isso."
© Prefeitura de São Paulo/Fotos PúblicasPrefeito de São Paulo, João Dória, visita o papa Francisco
Prefeito de São Paulo, João Dória, visita o papa Francisco - Sputnik Brasil, 1920, 20.01.2022
Prefeito de São Paulo, João Dória, visita o papa Francisco
O Palácio dos Bandeirantes ainda comanda representações em Munique, na Alemanha, Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, e em Xangai, na China, no âmbito do projeto InvestSp.

Política de Defesa

De acordo com Mendes, a política externa proposta por Doria poderá ser mais alinhada com os Estados Unidos do que aquelas propostas por Lula ou Ciro.
"Ainda que não proponha o alinhamento subordinado que vemos com o governo Bolsonaro [...] Doria se voltaria novamente aos EUA, talvez dando um pouco às costas para as relações Sul-Sul, como os outros governos do PSDB fizeram", acredita o especialista.
Nesse sentido, haveria baixa possibilidade de retomada de projetos de integração da América do Sul, como a UNASUL, durante um eventual governo Doria. "Sob um governo do PSDB, não vejo possibilidade de retomada da UNASUL [...] porque se trata de um projeto de alinhamento regional na área de defesa", garante Mendes.
O especialista lembra que a política de defesa nacional brasileira foi alterada durante os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, para adquirir um caráter de parceria em relação aos vizinhos sul-americanos.
© Folhapress / Johis AlarcónSede da UNASUL, em Quito: países da região não puderam chegar a um consenso em relação à participação da Venezuela na organização, levando a sua paralisação
Sede da UNASUL, em Quito: países da região não puderam chegar a um consenso em relação à participação da Venezuela na organização, levando a sua paralisação - Sputnik Brasil, 1920, 20.01.2022
Sede da UNASUL, em Quito: países da região não puderam chegar a um consenso em relação à participação da Venezuela na organização, levando a sua paralisação
"Antes, tínhamos uma política de defesa nacional que considerava cenários de guerra com Argentina e Uruguai", lembra Mendes. "Isso tudo o PT alterou, e hoje a política de defesa é voltada para os vizinhos no sentido de formar uma parceria. [...] E esse é o objetivo central da UNASUL."
Segundo ele, "o PSDB não está de acordo, está incomodado com a política nacional de defesa brasileira", e deve propor a sua alteração, como o fez durante as campanhas presidenciais de 2014 e 2018.

De volta para o futuro

Especialista em política externa partidária, Mendes sugere que a atuação internacional de um eventual governo Doria se assemelhe à política conduzida durante o governo de Michel Temer, entre maio de 2016 e 1º de janeiro de 2019.
Durante esse governo, o PSDB ficou a cargo da política externa brasileira e emplacou dois chanceleres: José Serra, entre de maio de 2016 a fevereiro de 2017, e Aloísio Nunes, de março de 2017 a janeiro de 2019.
"Eu apostaria que o governo Doria seria uma continuação da política externa do governo Temer", declara Mendes. "Na época, o PSDB solicitou [a condução da política externa] porque viu ali uma grande vitrine de políticas que poderiam surtir efeito nas eleições de 2018."
Uma das principais conquistas do governo Temer na área externa foi a assinatura do acordo Mercosul-União Europeia, depois de mais de 20 anos de negociações. O acordo, no entanto, corre o risco de não ser ratificado, em função da oposição de países relevantes, como a França.
© Foto / Cesar Itiberê/PRMichel Temer, presidente do Brasil, na abertura da 73ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York
Michel Temer, presidente do Brasil, na abertura da 73ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York - Sputnik Brasil, 1920, 20.01.2022
Michel Temer, presidente do Brasil, na abertura da 73ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York
"Acho que o PSDB retomaria a discussão do tratado com a União Europeia [...] e fortaleceria o Mercosul, que é considerado importante para a indústria brasileira", acredita Mendes.
Já quando o assunto é a aliança com países como Rússia e China, em fóruns como o BRICS, Mendes é mais reticente.
"Se avaliarmos pelo o que ocorreu no governo Temer, poderá haver um novo freio nas negociações com o BRICS. O PSDB é mais afeito a órgãos como o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial (BM), e países como os Estados Unidos. Prefere as relações hemisféricas", explica Mendes.
© AP Photo / Pavel GolovkinDa esquerda para a direita, Xi Jinping, presidente da China, Vladimir Putin, presidente da Rússia, Jair Bolsonaro, presidente do Brasil, Narendra Modi, primeiro-ministro da Índia, e Cyril Ramaphosa, presidente da África do Sul, após reunião do BRICS no Palácio do Itamaraty em Brasília, Brasil, 14 de novembro de 2019
Da esquerda para a direita, Xi Jinping, presidente da China, Vladimir Putin, presidente da Rússia, Jair Bolsonaro, presidente do Brasil, Narendra Modi, primeiro-ministro da Índia, e Cyril Ramaphosa, presidente da África do Sul, após reunião do BRICS no Palácio do Itamaraty em Brasília, Brasil, 14 de novembro de 2019 - Sputnik Brasil, 1920, 20.01.2022
Da esquerda para a direita, Xi Jinping, presidente da China, Vladimir Putin, presidente da Rússia, Jair Bolsonaro, presidente do Brasil, Narendra Modi, primeiro-ministro da Índia, e Cyril Ramaphosa, presidente da África do Sul, após reunião do BRICS no Palácio do Itamaraty em Brasília, Brasil, 14 de novembro de 2019
Além disso, uma política externa tucana poderia voltar a dar prioridade a países desenvolvidos do continente asiático, com destaque para o Japão.
"Países da Ásia, principalmente Japão, sempre foram preferenciais nas políticas externas executadas pelo PSDB", lembra Mendes. "Então acredito em um resgate no investimento em países altamente capitalistas que deram certo, em detrimentos de áreas como América do Sul, África e Oriente Médio."
Quando o assunto é política externa, João Doria pode estar mais bem posicionado do que o atual presidente, Jair Bolsonaro. Só nos resta saber se o tema está na pauta do eleitor brasileiro para 2022 e "se é um capital político importante em termos de voto", conclui o especialista.
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