Cadê 'fogo e fúria'? Por que nem EUA, nem Pyongyang realizam suas temíveis promessas

© REUTERS / Jim Lo Scalzo/PoolPresidente dos EUA Donald Trump reage após proferir o seu primeiro discurso em uma sessão conjunta na Câmara dos Representantes em Washington, EUA, 28 de fevereiro de 2017
Presidente dos EUA Donald Trump reage após proferir o seu primeiro discurso em uma sessão conjunta na Câmara dos Representantes em Washington, EUA, 28 de fevereiro de 2017 - Sputnik Brasil
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O final da semana passada passou no contexto de uma escrupulosa análise internacional das declarações ásperas do presidente norte-americano Donald Trump contra a Coreia do Norte. Um colunista da Sputnik explica por que, apesar da retórica forte, ninguém está de fato atacando.

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"No final, o mundo entendeu que Trump não estava planejando uma guerra nuclear imediata, ele simplesmente também sabe falar como os norte-coreanos — 'fogo e fúria', 'as armas estão carregadas e engatilhadas'. […] Surge uma pergunta: o que foi isso — um falso alarme ou parte de alguma política muito inteligente e sutil, tão sutil que nós não a enxergamos?", escreve Dmitry Kosyrev.

Apenas um sinal?

De acordo com o analista, "já faz muito que todos perceberam" que nem os membros da administração de Trump sabem sempre interpretar o que ele queria dizer com suas declarações. Porém, neste caso particular, fica claro que não se planejava nem uma guerra, nem um ataque "à maneira síria" — isto é, vários mísseis de cruzeiro e pronto, como aconteceu na base aérea de Shayrat.

Esta ideia, de acordo com Kosyrev, foi expressa por quase todas as pessoas envolvidas. O diretor da CIA, Mike Pompeo, comunicou que o presidente apenas quis "enviar um sinal" a Pyongyang. O conselheiro para Segurança Nacional, Herbert McMaster, contou que "não estamos mais perto da guerra que 10 dias atrás, contudo estamos mais perto que 10 anos atrás".

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Os especialistas militares dos países asiáticos, por sua vez, afirmaram que na própria península coreana não se observa nem uma evacuação, nem movimentação de equipamentos, nem posicionamento de tropas — nada. Seus colegas estadunidenses confirmaram que a avaliação do Pentágono que uma guerra contra a Coreia do Norte levaria a um número inédito de vítimas para ambas as partes continua vigente.

Ao mesmo tempo, o secretário de Estado norte-americano, Rex Tillerson, que há pouco viajou às Filipinas para participar da cimeira da ASEAN exclusivamente para discutir o tema coreano, se queixa de uma "falta de coordenação" entre a sua entidade e a Casa Branca.

"Vamos ver se por detrás de todos estes 'fogos e fúrias' está algo sofisticado e profundo. Aceitemos que ainda poucos compreendem como é que funciona a administração de Trump, quem elabora as decisões e quais são elas, mas tanto faz. Pode ser que as decisões não sejam acidentais, mas representem uma estratégia. Por exemplo, uma estratégia para refrear a China, ou seja, não tem nada a ver com uma Coreia do Norte qualquer", aprofundou o jornalista.

Ceder ou não ceder, eis a questão

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O jornalista relembra que, ainda desde o encontro entre Trump e o líder chinês Xi Jinping nesta primavera, se discute sobre os EUA terem "incumbido" à China a responsabilidade pelo apaziguamento da Coreia do Norte. E o outro público já há muito "adivinhou" que, de fato, isso foi um pedido — um pedido para livrar os EUA de um problema irresolúvel.

"A China (e a Rússia) fizeram seu trabalho e ajudaram Trump, tanto mais que uma Coreia do Norte nuclear para estes dois países é algo extremamente indesejável, pois neste caso seus vizinhos obterão as mesmas armas. A resolução do problema se chama 'congelamento duplo'. Os coreanos param de lançar mísseis e fazer explodir dispositivos nucleares, os EUA suspendem os exercícios conjuntos com a Coreia do Sul na península coreana. Tudo isto será temporário, enquanto durarem as negociações. Assinalemos que os países asiáticos gostaram do conceito. Parece que Pyongyang também", explica Kosyrev.

Porém, há pouco tempo os EUA já argumentaram porque este conceito não serve — isto é, não se pode colocar Washington e Pyongyang em pé de igualdade.

"Eles são os vilões, nós somos o archote do bem", graceja o jornalista.

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Consequentemente, já que nem a China, nem a Coreia do Norte, querem (ou podem) concordar com isso, a Casa Branca se dedica a pressionar mais.

Nesse respeito, vale ressaltar que recentemente Trump tem não apenas falado sobre a ameaça norte-coreana, mas também sobre uma possível investigação e sanções em relação à China devido ao alegado roubo de propriedade intelectual e tecnologias americanas pelos chineses.

Ao mesmo tempo, Trump afirma com uma "sinceridade comovente": "Caso a China nos ajude [com a Coreia], eu tratarei as questões comerciais de forma muito diferente, muito diferente…"

"Isto é muito próprio dos americanos: eles precisam de ajuda, mas não podem pedi-la — apenas [podem] exigir e obrigar", expressou Kosyrev.

De acordo com o jornalista, há muitos boatos de que as conversações diretas entre os americanos e os norte-coreanos já estarão sendo preparadas, ou já estarão sendo, de fato, travadas. E tudo o que se passa — é apenas "uma imagem de marca de Trump" para reforçar suas posições nas vésperas das negociações.

"E o que teremos no final? A China não é um país assim tão orgulhoso para não ceder à pressão. Talvez ceda, e isto seria bem próprio dos chineses", resume o analista.

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