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    A crise econômica e social causada pela pandemia do novo coronavírus no Brasil caminha para ser uma das maiores da história e o governo brasileiro anunciou um pacote de medidas para lidar com questão. A Sputnik Brasil ouviu dois economistas para explicar e discutir as medidas anunciadas.

    O Ministério da Economia anunciou na segunda-feira (16), um pacote econômico de estímulo à economia diante dos efeitos da pandemia do novo coronavírus. O pacote inclui R$ 147,3 bilhões divididos em diversas áreas que vão desde o Bolsa Família à desoneração de importações de equipamento médico.

    O pacote também dá 3 meses para depósito de FGTS e antecipa o 13º do Bolsa Família, focando as medidas de assistência à população mais pobre na antecipação de valores. Além disso, o governo também apresentou na quarta-feira (18) um auxílio mensal de R$ 200,00 para trabalhadores autônomos.

    'Medidas farão pouco ou nenhum efeito'

    Para Gabriela Mendes Chaves, economista e mestranda em Economia Política Mundial na UFABC, Guedes mantém a linha econômica de outros momentos e as medidas anunciadas não surtirão o efeito necessário.

    "Acho que vai fazer pouco ou nenhum efeito. A maior parte dessas medidas são referentes a um adiantamento de prazos [...]. O problema é que essa crise tem uma dimensão estrutural muito grande. Não é uma crise para resolver em dois meses. Portanto essas medidas são paliativas que não ajudam a resolver o problema da matriz produtiva", diz a economista em entrevista à Sputnik Brasil.

    Para a pesquisadora, as medidas foram feitas e apresentadas às pressas e não reconhecem a gravidade do problema.

    "É uma medida que é feita às pressas, por um certo orgulho de reconhecer que nesse momento a gente precisa aumentar o papel do Estado brasileiro na economia. Então reconhecer isso seria voltar atrás no discurso de que todas as reformas iriam salvar a nossa economia, o que não aconteceu", avalia.
    Presidente Jair Bolsonaro e ministros do governo dão entrevista coletiva sobre coronavírus
    © Folhapress / Claudio Reis
    Presidente Jair Bolsonaro e ministros do governo dão entrevista coletiva sobre coronavírus

    A economista acredita que já se constrói um consenso, inclusive entre economistas conservadores, de que a receita adotada por Paulo Guedes não é a ideal, uma vez que o ministro segue tendo a questão fiscal no centro de suas preocupações. A economista, crítica da manutenção do Teto de Gastos (EC 95), avalia que agora é um momento em que se deve considerar o gasto público como um vetor de investimento.

    "Se de um lado o Paulo Guedes está tentando aqui ir pelas privatizações como uma forma de fazer dinheiro rápido, na Europa já existe um entendimento de que é importante aumentar o gasto público", aponta, citando países como a Espanha e a Itália.

    Chaves, que também organiza cursos de educação financeira, alerta que as projeções sobre o cenário atual são de perda de postos de trabalho e que estamos apenas no começo de uma crise econômica que pode superar a de 2008.

    "A gente está enfrentando uma crise que tem se mostrado equivalente ou superior à crise de 2008. A gente está no início do tsunami. Ainda não dá para saber quais vão ser os efeitos disso no mercado, mas as projeções do ponto de vista da produção já são muito negativas. O que significa que no que depender da iniciativa privada a gente vai ver muitos postos de trabalho fechando nos próximos meses", diz.

    'Governo ainda não entendeu a gravidade dessa crise'

    Para o economista João Prates Romero, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), as medidas anunciadas são insuficientes, apesar de necessárias. Crítico da EC 95, o pesquisador acredita que estamos diante de uma grave depressão econômica e que o governo brasileiro ainda não se deu conta disso.

    "Na minha opinião [as medidas] são insuficientes. Vão na direção correta, porque a economia vai enfrentar uma depressão grave nos próximos meses e a gente não sabe por quanto tempo isso vai durar. Então o governo precisa tomar algumas medidas para tentar recuperar a atividade econômica e tentar proteger a população que vai ficar desassistida", afirma o economista em entrevista à Sputnik Brasil.

    Diante da crise anunciada, segundo publicou a Bloomberg, a projeção do PIB do Brasil para 2020 foi derrubada pelo banco JPMorgan Chase de um crescimento de 1,6% para uma queda de 1%. Já o Goldman Sachs diminuiu a projeção de um crescimento de 1,5%, para uma queda de 0,9% no ano.

    Diante desse cenário, Romero acredita que as medidas agora precisam ser mais amplas, uma vez que ele também avalia que as medidas anunciadas "basicamente" adiantam recursos já previstos.

    "A maior parte do pacote foi isso: antecipação de despesas e adiamento de receitas. Dois problemas graves que vamos ter são a capacidade do sistema de saúde para realizar os atendimentos e como proteger a população mais vulnerável, que no Brasil é muito grande", aponta.

    Romero lembra que o Brasil já tem milhões de famílias que aguardam pagamentos de recursos do Bolsa Família, e que o que foi liberado pelo governo no pacote de emergência não será capaz sequer de sanar essa situação. Diante disso, o que economistas elenca algumas sugestões.

    "Uma possibilidade era de ampliar o Bolsa Família, encerrar essa fila, atender todas as famílias que já pleitearam, dar um aumento temporário do Bolsa Família para essas famílias e, além disso, dar uma ajuda também a outras famílias que estão em situação de vulnerabilidade", sugere.

    Na quarta-feira (18), Guedes anunciou um auxílio mensal de R$ 200,00 para trabalhadores informais autônomos. O pacote de R$ 15 bilhões voltado a "pessoas desassistidas" terá duração de 3 meses. Para Romero, a medida vai pelo caminho certo, mas pode ser ampliada.

    "A medida vai na direção correta, mas poderia ter um valor maior e incluir também um valor extra para o Bolsa Família. Uma outra questão importante é estabelecer um pacote de auxílio a empresas pra evitar um aumento muito grande do desemprego e das falências", explica.
    Mulher utiliza máscara de proteção facial como prevenção ao contágio do novo coronavírus (Covid-19) e realiza higienização em um ônibus na Rodoviária Central de Brasília (DF), nesta quarta-feira (18).
    © Folhapress / Mateus Bonomi/Agif/
    Mulher utiliza máscara de proteção facial como prevenção ao contágio do novo coronavírus (Covid-19) e realiza higienização em um ônibus na Rodoviária Central de Brasília (DF), nesta quarta-feira (18).

    Para o economista, o setor da Saúde também estará sob grande pressão e precisará de muito mais recursos do que o que foi liberado até agora. Romero também acredita que medidas mais amplas talvez tenham que ser adotadas para conter a crise.

    "Diversos países da Europa estão, inclusive, discutindo a nacionalização de algumas empresas para evitar falência. Uma vez que a empresa falir não tem mais o que ser feito. Então seriam necessárias medidas bem mais amplas e um valor de recursos muito maior", diz o economista.

    Para Romero, a ortodoxia econômica do governo atrasou o Brasil em relação em relação ao resto do mundo no combate à crise atual.

    "Boa parte do governo ainda não entendeu a gravidade dessa crise. Inclusive, o presidente tem negado isso. Acho que no Ministério da Economia os economistas do governo continuam apegados a uma ideia de equilíbrio fiscal e de Estado mínimo que é inviável no momento", diz.

    O economista recorda que medidas amplas eram anunciadas ao redor do mundo enquanto o Brasil ainda se preocupava como o equilíbrio fiscal como prioridade.

    "A maior parte dos países da Europa já discutiu e está flexibilizando as regras fiscais deles, entendendo que é um momento muito delicado e único. E aqui no Brasil perdeu-se muito tempo tentando evitar isso e tentando privilegiar o equilíbrio fiscal ao invés de combater essa crise", explica.

    Romero defende que o chamado Teto de Gastos também é uma amarra econômica que se apresenta nos momentos de crise como esse. Para ele, a medida precisa ser revista independente do novo coronavírus e com a crise a nível mundial, o Brasil sequer poderá contar com demanda externa para se recuperar, o que aumenta a necessidade do papel do investimento público

    "A crise deflagrada por causa do coronavírus torna essa revisão ainda mais urgente. Porque depois de superados os problemas mais graves do auge da crise, de apoio aos mais pobres e de capacidade hospitalar, como a economia vai se recuperar?", questiona.

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    Tags:
    COVID-19, Ministério da Economia do Brasil, Paulo Guedes
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