14:37 22 Fevereiro 2020
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    Uma pesquisa do instituto Datafolha mostrou que o número de evangélicos no Brasil pode superar o de católicos em 2032. A Sputnik explica essa semana como que esse fenômeno vem ocorrendo e de que forma ele se reflete na política brasileira.

    Segundo o levantamento feito pelo instituto e publicado pelo jornal Folha de S.Paulo, 50% dos brasileiros são católicos, 31% evangélicos, 10% não têm religião, 3% são espíritas e 2% pertencem a religiões afro-brasileiras.

    No entanto, uma projeção feita pelo doutor e pesquisador em demografia, José Eustáquio Alves, mostra que o número de evangélicos pode superar o de católicos já em 2032.

    O cálculo de Alves leva em conta a queda do número de católicos ao longo dos anos em comparação ao crescimento do número de evangélicos. Entre 1991 e 2010, o número de católicos caiu 1% ao ano, já os evangélicos cresceram 0,7%.

    No entanto, em entrevista à Sputnik Brasil, José Eustáquio Alves disse que são várias as evidências de que a queda do número de católicos passou para 1,2% nos últimos anos, e a subida dos evangélicos passou para 0,8%.

    "Todas as pesquisas e indicações me levam a hipótese de que a queda dos católicos acelerou nesta década para 1,2% ao ano e a subida dos evangélicos aumentou para 0,8% ao ano. Então se colocarmos esses dois números em uma projeção exponencial vai te dar isso, que até 2022 os católicos ficam com menos de 50% e até 2032 os evangélicos passam os católicos", explicou o autor da projeção.

    Segundo José Eustáquio Alves, a aceleração do crescimento do número de evangélicos e a diminuição do número de católicos se acelerou após a década de 1990.

    "Os católicos vieram caindo 1% por década, em média, de 1862 até 1990. Mas de 1991 até 2010 essa queda se acelerou e os católicos começaram a cair 1% por ano, ou seja, dez vezes mais rápido. E os evangélicos, que vinham subindo lentamente, a partir de 1991, começaram a subir 0,7% ao ano. Os outros 0,3% iam para os 'sem religião' ou para outras religiões não cristãs", afirmou.

    Quais os motivos que podem levar o Brasil a uma 'virada religiosa'?

    Desde o início da colonização do Brasil, em 1500, pelos portugueses, até a Proclamação da República, em 1889, a Constituição Brasileira dizia que a religião católica era a religião oficial do país.

    A queda do número de católicos começou a se dar no período após a Segunda Guerra Mundial (1939 - 1945), mesma época em que a sociedade brasileira passou a deixar de ser uma sociedade rural e passou a se organizar em grandes cidades.

    "Os católicos dominaram o panorama religioso do Brasil durante pelo menos 450 anos, de 1500 a 1950. O Brasil era um país pobre, rural, com baixo nível educacional, muito ligado a atividade agropecuária e nesse tipo de configuração social e econômica os católicos se desenvolveram bem", disse José Eustáquio Alves.

    Vista aérea da Marcha para Jesus 2018, maior evento evangélico do país, reúne multidão de fiéis na praça Heróis da Força Expedicionária Brasileira, na zona norte de São Paulo.
    © Folhapress / Edson Lopes Jr.
    Vista aérea da Marcha para Jesus 2018, maior evento evangélico do país, reúne multidão de fiéis na praça Heróis da Força Expedicionária Brasileira, na zona norte de São Paulo.

    O líder do Grupo de Estudos do Protestantismo e Pentecostalismo (GEPP) da PUC em São Paulo, o professor Edin Sued Abumanssur, também atribui o crescimento de igrejas evangélicas às mudanças ocorridas no Brasil depois da primeira metade do século passado.

    Segundo Abumanssur, o "pentecostalismo foi capaz de fazer a tradução da religiosidade brasileira para modo de vida urbano".

    "O crescimento do pentecostalismo tem a ver com o processo de urbanização e na medida que a cidades vão crescendo o pentecostalismo dialoga de uma forma muito positiva, uma tradução para a cidade de um tipo de catolicismo que sempre tivemos no Brasil", explicou.

    José Eustáquio Alves diz que o fato de alguns grupos evangélicos defenderem a chamada teologia da prosperidade é um exemplo dessa adaptação.

    "Os evangélicos quando defendem a teologia da prosperidade, eles estão fazendo um discurso que é mais adaptado para esse tipo de sociedade nova [...] Os católicos dizem que têm preferência pelo pobre, mas é o pobre rural. Quem tem um discurso para ganhar aquele pobre que quer melhorar de vida, que está na periferia das cidades, que está consumindo, são os evangélicos", completou Alves.

    Aumento de evangélicos no Brasil pode interferir no cenário político?

    As últimas eleições reforçaram a bancada evangélica no Congresso Nacional. Para a Câmara dos Deputados foram eleitos 84 candidatos identificados com a crença evangélica, nove a mais do que na última legislatura. No Senado, os evangélicos eram três e, atualmente conta com sete parlamentares. No total, o grupo que tinha 78 integrantes ficará com 91 congressistas.

    O levantamento foi feito pelo Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), com base nos dados disponíveis no portal do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

    Em 2014, o Diap identificou 75 deputados seguidores da doutrina evangélica. Em 2010, a bancada tinha 73 representantes na Câmara.

     O presidente Jair Bolsonaro participa de culto ao lado do presidente da frente evangélica, Silas Câmara (Republicanos- AM), na Câmara dos Deputados, em Brasília (DF).
    © Folhapress / André Coelho
    O presidente Jair Bolsonaro participa de culto ao lado do presidente da frente evangélica, Silas Câmara (Republicanos- AM), na Câmara dos Deputados, em Brasília (DF).

    Em entrevista à Sputnik Brasil, Antônio Augusto de Queiroz, analista político do DIAP, atribui o crescimento da bancada evangélica a um descaso da Igreja Católica em relação a política tradicional.

    "O crescimento das bancadas evangélicas é resultado de uma postura vacilante da Igreja Católica nos processos eleitorais, ela preferiu ficar a distância, isenta nesse processo, enquanto as igrejas evangélicas se engajaram no processo", afirmou.

    Antônio Augusto de Queiroz acredita que as bancadas evangélicas vão crescer ainda mais com o crescimento do número de evangélicos na sociedade brasileira.

    "A bancada evangélica aqui no Parlamento tem crescido e vai crescer ainda mais porque há um engajamento das igrejas evangélicas em combater um suposto inimigo, uma suposta ameaça em relação ao 'comunismo', atribuindo à esquerda a eventual desagregação das famílias, etc", disse.

    Edin Sued Abumanssur destaca o fato de que o "segmento dos evangélicos está se descobrindo como um segmento social com interesses próprios".

    "Se esse número de políticos ligados ao segmento evangélico vai crescer? É possível na medida em que cresce a população evangélica. Mas se a população evangélica hoje, segundo o Datafolha, corresponde a 30% da população, aqueles que são eleitos por serem evangélicos não vão exceder a 30% do Congresso também", conclui.

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