08:45 16 Setembro 2021
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    Mundo lidando com COVID-19 em meados de agosto de 2021 (17)
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    A ministra da Saúde de Portugal, Marta Temido, anunciou que o país atingiu a meta de 70% da população do país completamente vacinada contra COVID-19 nesta semana. Mas o coordenador do plano de vacinação diz que a imunidade de grupo só será alcançada acima de 85%. Médicos ouvidos pela Sputnik Brasil divergem.

    Com os 70% atingidos duas semanas antes da previsão, o governo português antecipou também a segunda fase do novo plano de desconfinamento. As novas medidas foram anunciadas nesta sexta-feira (20), após uma reunião extraordinária do Conselho de Ministros, e passam a vigorar a partir da próxima segunda-feira (23).

    A principal mudança é a de que os transportes públicos passam a circular sem limites de passageiros. Espetáculos culturais e eventos festivos, como casamentos e batizados, aumentam a capacidade para 75% de lotação. Já restaurantes, cafés e pastelarias ampliam o limite máximo para oito pessoas por grupo no interior, e 15 em esplanadas (do lado de fora).

    Com isso, Portugal sai do estado de calamidade para o estado de contingência. Contudo, o uso de máscaras em vias públicas continuará obrigatório até 12 de setembro, pelo menos, já que é uma medida que depende da Assembleia da República, que estará em recesso até esta data. 

    A apresentação do Certificado COVID-19, que indique vacinação completa, remissão da doença ou teste negativo, continua obrigatória em restaurantes, aos fins de semana, e em eventos, dependendo da lotação: em casamentos e batizados com mais de dez pessoas e em eventos culturais, esportivos ou corporativos  com mais de mil participantes (em ambiente aberto) ou 500 (fechado).

    No dia anterior, o vice-almirante Henrique Gouveia e Melo já havia dito que, com a variante Delta, com 99,5% de predominância em Portugal, a imunidade de grupo não seria mais atingida com 70% da população completamente vacinada, como se cogitara antes. O militar, responsável pelo plano nacional de vacinação, traçou a nova meta dos 85% para setembro, entre a terceira e quarta semanas. 

    "Não se tem a certeza [de] que se atingirá a imunidade de grupo. Mas, se for atingida, é acima dos 85% [de pessoas vacinadas]", disse Gouveia e Melo à SIC. 
    Marcelo Rebelo de Sousa, presidente de Portugal, ao centro, condecora o vice-almirante Gouveia e Melo (esquerda)
    © Foto / Miguel Figueiredo Lopes/Presidência da República
    Marcelo Rebelo de Sousa, presidente de Portugal, ao centro, condecora o vice-almirante Gouveia e Melo (esquerda)

    Na verdade, não há consenso dentro da comunidade científica sobre esse novo patamar. O próprio responsável pela criação da vacina da AstraZeneca, Andrew Pollard, afirmou recentemente a deputados britânicos que, com a maior transmissibilidade da variante Delta, não há mais possibilidades de se alcançar a imunidade do grupo, o que seria algo "mítico".

    "A variante Delta vai ainda infectar as pessoas que já foram vacinadas, e isso significa que qualquer pessoa que ainda não foi vacinada vai ser infectada com o vírus a qualquer momento, e não temos nada que pare [completamente] essa transmissão", explicou Pollard na ocasião.

    'Com cepa mais transmissível, limiar é mais elevado', diz especialista

    Em entrevista à Sputnik Brasil, o epidemiologista Ricardo Mexia, presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública de Portugal, segue uma linha de raciocínio similar. De acordo com ele, desde o início, houve uma ideia equivocada de que a imunidade de grupo seria atingida com 70% da população vacinada, o que não foi desfeito. A própria imprensa portuguesa usava esse patamar até o início desta semana.

    "Isso nunca foi uma realidade. Havia essa estimativa, mas são dois conceitos diferentes. Naturalmente, agora, com uma variante mais transmissível, o limiar para atingir a imunidade de grupo é mais elevado. Por isso que se fala agora nos 85%. Mas, de qualquer forma, há quem discuta se vai ser possível atingir a imunidade do grupo", pondera Mexia.

    Para o especialista, o aspecto mais essencial é ter havido uma redução muito importante da severidade da doença, com queda nos números de internamentos e óbitos, quando comparados com a incidência que havia em janeiro ou fevereiro. O boletim epidemiológico divulgado nesta sexta-feira (20) pela Direção-Geral da Saúde (DGS) indica que, nas últimas 24 horas, houve nove mortes e 2.507 novos casos.

    Já o relatório semanal das "Linhas Vermelhas para a COVID-19", elaborado pela DGS e pelo Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA), aponta uma tendência "estável a decrescente" no número de internamentos em unidades de cuidados intensivos (UCI) em todas as faixas etárias, correspondendo a 55% (contra 66%, na semana anterior) do valor crítico definido de 255 camas ocupadas.

    "O que me parece é que atingimos um bom nível de cobertura vacinal, nomeadamente, naqueles grupos mais vulneráveis, como idosos e pessoas com doenças pré-existentes. Neste contexto, acredito que já conseguimos proteger de forma relevante essa população", avalia.

    O epidemiologista acredita que se aproxima a fase em que todas as pessoas que queiram ser vacinadas e se inscreveram para isso sejam imunizadas. Depois de uma polêmica sobre a vacinação universal de crianças e adolescentes dos 12 aos 15 anos, essa faixa etária começa a ser inoculada neste fim de semana. Cerca de 110 mil jovens dessas idades, um quarto do total, devem ser contemplados. 

    A meta é terminar de vaciná-los até 19 de setembro, no fim das férias escolares, para que voltem às escolas completamente imunizados. Mexia relativiza a importância e não considera que isso seja requisito para eles regressarem às aulas. Conforme o especialista, apesar de os colégios terem registrado casos, até com o isolamento de turmas, não foram um grande foco de disseminação da doença, mesmo na pré-vacinação.

    "Não me preocuparia tanto com essa questão. Evidentemente, estando as crianças também protegidas, temos melhores condições para avançar. Agora, importa tentar perceber aquelas pessoas que não foram vacinadas, por que é que não foram? Ainda temos algumas, bastantes, em grupos com mais idade, nas faixas dos 40 ou 50 anos. Temos que assegurar que elas são esclarecidas e que se deslocam até um centro de vacinação para poderem ser vacinadas", recomenda. 

    'Gouveia e Melo é o Pazuello que todo país devia ter', diz médico carioca

    O médico carioca Marcio Sister, que mora e trabalha em Vila Nova de Gaia, cidade vizinha ao Porto, no Norte de Portugal, endossa o coro de Mexia de que, mais importante do que a imunidade de grupo, são as quedas nos números de mortes e internamentos em cuidados intensivos. 

    Sister ressalta que nem especialistas, como virologistas e infectologistas, têm consenso sobre o tema e questiona a mudança de metas, como a de 70% para 85%, que parece ser aleatória. Segundo ele, isso já mostra que ninguém está seguro quanto à imunidade de grupo.

    "A finalidade é vacinar todo mundo. Enquanto isso não acontecer, falar em nível de imunidade de grupo é bobagem. Esses 85% podem continuar transmitindo para os 15%, os 15% para os 85%, vão transmitir entre si, e o vírus vai mudar. Nesse momento é a variante Delta. Depois, vai ter outra, com certeza. Por que 85% e não 80% ou 90%? Quem estabelece isso?", indaga Sister.

    Apesar de considerar confusos os critérios, o médico brasileiro elogia o trabalho exercido pelo vice-almirante Gouveia e Melo à frente da coordenação do plano de vacinação. Vale lembrar que o militar assumiu o comando no início de fevereiro, com a missão de resgatar a credibilidade do plano, depois que o antigo coordenador, Francisco Ramos, pediu demissão por detectar irregularidades no processo de seleção de profissionais de saúde vacinados no Hospital da Cruz Vermelha Portuguesa.

    Avesso a holofotes, Gouveia e Melo tem dito que quer completar sua missão para voltar ao anonimato. Nesta quinta-feira (19), ele foi condecorado pelo presidente Marcelo Rebelo de Souza com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Avis por sua carreira militar. O vice-almirante também já havia sido condecorado por Jair Bolsonaro com a medalha da Ordem do Mérito Naval, em 2020. Sister faz um paralelo com o Brasil.

    "Sou fã incondicional do vice-almirante. Logisticamente, ele é o [general Eduardo] Pazuello que todo país devia ter. É o cara que o Pazuello deveria ter sido no Brasil em termos logísticos. Ele foi para a rua e carregou essa vacinação nas costas. Aparentemente, ele não gosta dessa evidência", opina. 
    O médico carioca Marcio Sister mora em Vila Nova de Gaia, no Norte de Portugal
    © Foto / Divulgação
    O médico carioca Marcio Sister mora em Vila Nova de Gaia, no Norte de Portugal

    Sister também defende o uso de máscaras, mesmo em vias públicas. De acordo com ele, ainda é a barreira física mais eficiente para prevenir a proliferação do vírus. Por outro lado, apesar de reconhecer a eficácia do confinamento, ele concorda que as pessoas já não podem mais ficar confinadas. 

    "Vírus a gente tem o tempo todo. As pessoas se adaptam, e os vírus também. Vão aparecer novas cepas. Acho que as companhias farmacêuticas têm conhecimento disso e, até por isso, [com] as duas primeiras doses meio que não ganharam dinheiro. Tenho certeza de que, daqui para frente, vão ganhar muito dinheiro, porque vamos precisar de novas vacinas", prevê.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    COVID-19, pandemia, vacinação, imunidade, Portugal
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