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    COVID-19 no mundo em meados de junho de 2021 (15)
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    A Câmara Municipal de Lisboa cancelou, pelo segundo ano consecutivo, as festas dos Santos Populares, as mais tradicionais de Portugal, que aconteceriam neste fim de semana. Devido ao aumento no número de casos de COVID-19, a capital não avançou à quarta fase do desconfinamento.

    A incidência subiu em Lisboa de 181 para 222 casos por 100 mil habitantes nos últimos 14 dias, aproximando a cidade da linha vermelha dos 240 casos aplicada a regiões com alta densidade populacional.

    Antecipada para esta sexta-feira (11) no resto do país, à exceção de outros três municípios (Braga, Odemira e Vale de Cambra), a quarta etapa do plano de desconfinamento consiste principalmente na ampliação do horário de funcionamento de restaurantes e bares até 1h. Com isso, os estabelecimentos comerciais na capital terão que fechar às 22h30 até o fim de junho. 

    A medida frustrou as expectativas da cearense Ariane Monteiro, dona da cervejaria Canil, na Baixa de Lisboa. Ela conta que o horário de pico do bar costumava ser às 23h antes da pandemia. Segundo ela, comparado com maio de 2019, o estabelecimento teve 55% de quebra no mês homólogo deste ano.

    "E junho, no acumulado/dia, está pior do que maio. Foi uma pena, em especial pelo alargamento do horário de funcionamento dos restaurantes. Sem falar que este ano, como não houve nada, todo mundo viajou para o interior do país. Duvidava muito que [Lisboa] fosse avançar antes das festas. É como se fosse o carnaval daqui, as coisas tendem a se descontrolar um pouco. Nesta altura, não ia ser boa ideia", reconhece Ariane.

    Morando em Lisboa desde julho de 2018, ela abriu o bar em janeiro de 2019. Questionada pela Sputnik Brasil se acredita que a manutenção da capital na terceira fase do plano de desconfinamento também foi uma precaução para evitar aglomerações no fim de semana das comemorações do Dia de Santo Antônio, ela concorda.

    "Sim, decerto. Estão acontecendo muitas festas clandestinas. Mas às vezes acho que foi pior, porque se os bares e restaurantes ficam abertos, ao menos as autoridades conseguem fiscalizar o cumprimento das normas. Se mandam fechar, as pessoas acabam indo para algum lado ou para casa de alguém", pondera.
    A cearense Ariane Monteiro, dona da cervejaria Canil, em Lisboa
    © Foto / Divulgação
    A cearense Ariane Monteiro, dona da cervejaria Canil, em Lisboa

    Nesta semana, a polícia fez ações de conscientização na Praça Camões, no Centro de Lisboa, para desmobilizar pessoas aglomeradas à noite. No fim de semana, a fiscalização promete ser mais rigorosa. A Polícia de Segurança Pública (PSP) anunciou que vai isolar, com grades e fitas, áreas do Bairro Alto, Alfama e Madragoa, bairros tradicionais nas festas dos Santos Populares. 

    Durante coletiva de imprensa, Domingues Antunes, superintendente da PSP, também prometeu combater o consumo de álcool na rua. As restrições vão valer a partir das 19h deste sábado (12) até as 3h de domingo (13). Ele referiu que já foram levantados 15 mil autos por violação das regras durante a pandemia.

    "Sempre que verificarmos que existe uma maior afluência nesses bairros, vamos condicionar o acesso às pessoas que não são residentes ou que não tenham uma justificação para se deslocarem a esses locais", disse Antunes, citado pela TSF.

    Epidemiologista diz que festa poderia ocorrer com restrições 

    Diretor do Lisboa Clube Rio de Janeiro, uma das mais tradicionais coletividades (agremiações) das marchas dos Santos Populares, o português Rui António lamenta o cancelamento dos desfiles, que compara com o carnaval carioca, guardadas todas as proporções. Mas diz à Sputnik Brasil que é compreensível a medida da prefeitura.

    "É normal que tenha havido [o cancelamento] com esta situação toda da pandemia. Acima de tudo, está a [saúde da] população, depois está o restante. As festas de Lisboa são as que mais atraem pessoas, principalmente estrangeiros para ver os desfiles das marchas. É uma festa equivalente ao carnaval do Brasil, no Sambódromo", compara. 

    Fundado em 1938 por portugueses radicados no Rio de Janeiro, o Lisboa Clube Rio de Janeiro tem um bar homônimo que também tem sofrido o impacto negativo da pandemia. Ainda assim, Rui António concorda que a capital não deve avançar à próxima fase do desconfinamento, com a extensão do horário de funcionamento até 1h.

    Ele também acredita que Portugal se precipitou ao reabrir as fronteiras a viagens não essenciais para turistas do Reino Unido e de outros países europeus. Na percepção dele, estrangeiros têm descumprido as regras em Lisboa, da mesma forma que fizeram os britânicos durante a final da Champions League no Porto, promovendo aglomerações.

    "Aqui no Bairro [Alto], que é muito frequentado por turistas, teve um impacto negativo. Tenho reparado que muitas pessoas que cá habitam têm respeitado as recomendações da DGS [Direção Geral de Saúde]. As pessoas que vêm de fora não têm respeitado muito essa questão. Há países em que as pessoas andam sem máscara", observa. 

    Já o epidemiologista Ricardo Mexia, presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública de Portugal, opina que as comemorações poderiam acontecer de uma forma menor do que a habitual, com as devidas regras de distanciamento social e uso de máscara, e um número limitado de pessoas. 

    Ricardo Mexia, presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública de Portugal
    © Foto / Reprodução/Ministério da Saúde
    Ricardo Mexia, presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública de Portugal

    Em entrevista à Sputnik Brasil, o médico recorda que já são permitidos casamentos, batizados e outros tipos de comemorações, ainda que com redução do público presente. Ele acredita que seria possível adotar o mesmo tipo de restrições em um modelo adaptado das festas dos Santos Populares. 

    "Parece-me um pouco assimétrico terem suspenso todo e qualquer ajuntamento. Acho que teria que haver regras claras, incluir uma lotação limitada, ao ar livre, com as pessoas testadas antes de aceder [acessar] o espaço. É um aspecto que poderia ter sido equacionado, com uma preparação e uma logística importantes", defende Mexia. 

    Ele cita como exemplo as fanzones montadas no Porto para que torcedores pudessem assistir à final da Liga dos Campeões, entre Chelsea e Manchester City. Indagado pela Sputnik Brasil se esse seria o melhor exemplo, já que muitos britânicos provocaram confusões, desrespeitando o distanciamento social e o uso de máscaras, Mexia diz que essa não foi a realidade nas arenas, apenas na rua.

    "Não estou a falar do que se passou na rua e na Ribeira, mas nas fanzones, que eram espaços fechados, com regras próprias. Inclusive, uma coisa a se equacionar era não haver uma total liberdade na venda de bebidas alcoólicas. Poderia haver, mas com algumas restrições. Podemos comemorar, festejar, com regras próprias que permitam reduzir os riscos. [Isso] implica planejamento e restrições", ressalta.

    Porto e Gaia vão celebrar São João; Ordem dos Médicos é contra

    Se, por um lado, não haverá festejos no Dia de Santo Antônio em Lisboa, por outro, o São João será comemorado no Porto e em Vila Nova de Gaia, municípios vizinhos no Norte de Portugal. Ainda que sem os habituais fogos de artifícios, arraiais, shows e bailes, serão permitidas as tradicionais comidas em feirinhas populares em espaços fechados e com a entrada controlada.

    "São João haverá sempre. Na noite de 23 para 24 [de junho] é São João no Porto. Aquilo que a Câmara permitiu, com o parecer das autoridades de saúde, foram três zonas de diversões, onde as pessoas podem ir em condições consideradas de total segurança por parte da Direção-Geral [da Saúde]", disse Rui Moreira, presidente da Câmara Municipal do Porto, citado pelo SAPO24.

    Nesta quarta-feira (9), o bastonário (presidente) da Ordem dos Médicos de Portugal, Miguel Guimarães, foi incisivo ao dizer que não pode haver as festas de Santo Antônio e São João, sob o risco de que o número de casos aumente muito mais. O médico carioca Marcio Sister, que mora e trabalha em Vila Nova de Gaia, concorda com Guimarães.

    Em entrevista à Sputnik Brasil, Sister é enfático ao defender o distanciamento social e o uso de máscara mesmo para as pessoas que já foram vacinadas, pois ressalta que mesmo quem já foi imunizado ainda pode transmitir o novo coronavírus. Por isso, ele é também totalmente contrário à realização das festas de São João, mesmo que com restrições.

    "É uma temeridade. Quando você faz uma festa dessas, me considero afrontado pelos organizadores, porque todo mundo sabe que a coisa [pandemia] não está contida. Entre escolher ficar doente, superlotar os hospitais, fazer com que o SNS [Sistema Nacional de Saúde] atinja os seus limites e dar uma folga para o comércio, a escolha é não fazer [as festas]", recomenda Sister.
    O médico carioca Marcio Sister mora em Vila Nova de Gaia, no Norte de Portugal
    © Foto / Divulgação
    O médico carioca Marcio Sister mora em Vila Nova de Gaia, no Norte de Portugal

    Ele reconhece a situação econômica difícil por que passa Portugal, sobretudo para alguns setores como o comércio, devido às restrições em função da pandemia, mas recorda que outras datas festivas passaram em branco, como a Páscoa e o réveillon. 

    "São João e Santo Antônio vão continuar acontecendo nos outros anos. Agora, vamos ficar quietos em casa", aconselha.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

    Tema:
    COVID-19 no mundo em meados de junho de 2021 (15)

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    Tags:
    pandemia, COVID-19, Lisboa, Portugal
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