11:24 05 Março 2021
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    Preso há mais de quatro meses no Centro de Detenção de Ekaterinburgo, na Rússia, Eduardo Fauzi concedeu entrevista exclusiva à Sputnik Brasil. Ele é o único suspeito identificado e detido pelo ataque com coquetéis molotov à produtora Porta dos Fundos, no Rio de Janeiro, na véspera do Natal de 2019.

    Fauzi foi preso em 4 de setembro de 2020, quando desembarcou no Aeroporto de Ekaterinburgo, e não em Moscou como chegou a ser noticiado pela imprensa brasileira, segundo ele detalha na entrevista exclusiva. Ele vivia na Rússia desde o fim de 2019, com a namorada russa e o filho do casal.

    "Eu consegui uma janela de segurança que me permitiu embarcar com tranquilidade em Moscou, mas, devido ao mau tempo, meu voo atrasou, a janela de segurança se fechou e, quando eu desembarquei em Ekaterinburgo, o red notice da Interpol acabou sendo ativado, o que fez com que eu fosse localizado e detido, depois do salão de desembarque, no saguão do aeroporto, pouco antes de tomar um táxi. Um golpe de azar, infelizmente", conta Fauzi à Sputnik Brasil.

    O nome dele estava na Difusão Vermelha da Interpol. Ainda em setembro, a Justiça do Rio de Janeiro aceitou a denúncia do Ministério Público, tornou Fauzi réu e decretou a prisão preventiva por tentativa de homicídio, sob a alegação de que um segurança da produtora estava no local no momento do ataque. O crime é investigado pela 10ª DP (Botafogo), na zona sul do Rio.

    As perguntas foram enviadas a Fauzi no último dia 10 de dezembro, após o Porta dos Fundos (PDF) lançar seu especial de Natal "Teocracia em vertigem", no YouTube. O vídeo humorístico tem pelo menos três referências (in)diretas a Fauzi. As respostas da entrevista, manuscritas, foram recebidas nesta terça-feira (12) pelo correspondente da Sputnik Brasil em Lisboa e transcritas.

    Em sua primeira entrevista exclusiva a este jornalista, pelo site do Projeto #Colabora há um ano, Fauzi admitiu, pela primeira vez, sua participação no ataque e revelou que estava pedindo asilo político na Rússia. Agora, ele revela contatos com "camaradas gregos" que o orientaram com protocolos de segurança para não ser preso em Moscou. Por isso, ele optou por viajar para a fronteira russa entre Europa e Ásia.

    Na nova entrevista, Fauzi também conta que está preso em uma cela com 10 acusados de homicídio e um hacker ucraniano. Ele, que também esteve preso no Rio, compara o tratamento dispensado pelas autoridades russas com o dos policiais brasileiros, bem como aponta as diferenças entre os sistemas penitenciários dos dois países.

    Sputnik Brasil publicará a entrevista em duas partes, com as respostas quase na íntegra, inclusive com inconsistências da narrativa de Fauzi, como quando ele relata que disse ao agente que o deteve no aeroporto que teria "obrigação moral de se evadir" se ele ficasse sozinho, contradizendo-se logo em seguida ao afirmar que "não é bandido para correr da polícia".

    Por uma opção editorial, foram suprimidos trechos em que Fauzi se identifica como "herói" ou que atribui este relato a outros. Além de ser suspeito do ataque ao PDF, ele tem mais de 20 anotações criminais e, em fevereiro de 2019, foi condenado a quatro anos e meio de prisão por agredir Alex Costa, ex-secretário municipal da Ordem Pública do Rio de Janeiro, quando do fechamento de um estacionamento irregular na região portuária carioca, onde Fauzi atuava em uma cooperativa de guardadores de carro e era investigado por supostamente ter ligações com milicianos.

    Confira a primeira parte da entrevista exclusiva a seguir.

    Sputnik: Um ano depois, você se arrepende de ter participado do ataque com coquetel molotov à produtora Porta dos Fundos? Por quê?

    Eduardo Fauzi: Quando os bons se omitem, o mal prevalece... E covardia é um defeito que eu não possuo. O destino bateu à minha porta, e eu atendi ao seu chamado. 'Jesus Cristo gay' é completamente inadmissível, sob qualquer ótica que se pretenda analisar. Não existe nenhuma possibilidade de convivência democrática, pacífica e harmoniosa, em uma sociedade plural e multifacetada, como é a sociedade brasileira, se nós não tivermos a obrigação institucional de respeitar o que é sagrado para o outro. O deboche, o escárnio e a humilhação pública do objeto do amor do outro deveriam ser exemplarmente punidos pela Justiça que, ao invés disso, se omitiu covardemente diante dos interesses de uma corporação bilionária e transnacional, como a Netflix, e dos seus vassalos prediletos, o PDF [Porta dos Fundos]. Essa omissão da Justiça brasileira acelera ainda mais o processo de divisão e rivalidade em uma sociedade dividida como a nossa. Eles, o PDF, e os seus senhores, a Netflix, é que são os verdadeiros criminosos, não eu. Eles são os que seguem empenhados em dividir ainda mais nosso povo, artistas socialmente irresponsáveis, trabalhando para ampliar ainda mais o fosso ideológico que separa esses dois Brasis, que joga irmão contra irmão brasileiro. Nunca antes na história da humanidade se teve notícia de uma obra artística, cinema, teatro ou literatura, em que Nosso Senhor tenha sido retratado como bicha e amante homossexual do diabo! Se o preço para dar combate a isso for o exílio político e a prisão na Sibéria, essa será uma cruz que eu carregarei com a fé e coragem. E até alegria! Eu sigo aqui, absolutamente em paz com a minha consciência e aguardando o juízo da História. Tudo vale a pena quando a pátria não é pequena.

    S: Como foi sua prisão? Pode contar o que você se lembra daquele dia? 

    EF: Eu vim cumprindo um protocolo de segurança que me foi passado por alguns camaradas gregos e que deveria, em tese, me garantir um espaço de manobra, com segurança, pelo prazo de um ano, aproximadamente. No entanto, esse protocolo veio sendo paulatinamente exaurido por agentes ligados à Interpol. A gente considerou que a minha permanência em Moscou era temerária e que eu seria localizado e preso em algum momento entre setembro e outubro. Por isso, eu optei por me refugiar no interior, onde a possibilidade de monitoramento e localização é menor. Eu consegui uma janela de segurança que me permitiu embarcar com tranquilidade em Moscou, mas, devido ao mau tempo, meu voo atrasou, a janela de segurança se fechou e, quando eu desembarquei em Ekaterinburgo, o red notice da Interpol acabou sendo ativado, o que fez com que eu fosse localizado e detido, depois do salão de desembarque, no saguão do aeroporto, pouco antes de tomar um táxi. Um golpe de azar, infelizmente. 

    Trecho da carta com as respostas de Fauzi para o correspondente da Sputnik Brasil em Lisboa
    © Sputnik / Lauro Neto
    Trecho da carta com as respostas de Fauzi para o correspondente da Sputnik Brasil em Lisboa

    S: Você foi preso por quem? Quantos policiais? 

    EF: Eu fui identificado por um único agente que fez uma busca randômica e acabou me reconhecendo. Ele depois acabou me dizendo que a altura e o porte físico facilitaram o reconhecimento. Ele me abordou de forma absolutamente cordial, um perfeito cavalheiro. Como ele não estava armado, ele requereu que eu ficasse parado, no meio do aeroporto, enquanto ele ia correr atrás de auxílio policial para efetuar minha prisão. Eu tive que explicar, educadamente, que eu não poderia ajudá-los nestes termos e que, se ele me abandonasse sozinho no aeroporto, eu teria a obrigação moral de me evadir. Após alguns breves momentos de impasse, ele me pediu que o acompanhasse até o escritório da Interpol, no 3º pavimento, onde ele me mostraria os papéis que autorizariam a minha detenção. Ele foi tão polido e cortês que eu não pude dizer não a ele.

    Ele me perguntou ainda se era necessário o uso de algemas, e eu respondi que não, que não sou bandido para correr da polícia - ou usar máscaras. Eu o acompanhei, ele me mostrou a ordem de prisão, me ofereceu café e biscoitos, e conversamos sobre os aspectos políticos ligados ao meu caso enquanto a unidade policial era mobilizada para efetuar os procedimentos de custódia. Ele ainda me conseguiu um tradutor técnico, às custas do governo russo, para quando a ordem de prisão fosse dada.

    A abordagem foi tão eficiente, discreta e harmoniosa que me causou uma profunda impressão, altamente positiva, considerando o contexto. Ao que me parece, a categoria 'preso político' é cara ao governo russo. Eu fui espantosamente bem tratado, todos os meus direitos foram pormenorizadamente explicados, todos os oficiais que me acompanharam foram extremamente educados e até amistosos, o que contrasta amplamente com os procedimentos policiais que nós vemos no Brasil, nos EUA e, de forma geral, no Ocidente. E todos os momentos jurídicos foram acompanhados por um tradutor técnico, em português, o que é, no mínimo, espantoso.

    S: Com quantos criminosos você divide a cela? Que tipos de crimes eles cometeram?

    EF: A inclusão do meu nome na lista de procurados da Interpol foi feita de forma administrativa, via WhatsApp, entre a 10ª DP, o escritório brasileiro da Interpol e a Interpol russa. O relatório original, produzido pela 10ª DP, foi repleto de fantasias e hipérboles dramáticas. Eles informaram à Interpol que eu cometi um homicídio, o que é uma mentira, já que ninguém morreu ou ficou ferido no 'ataque santo' [aspas nossas]. Disseram que eu seria um indivíduo de elevadíssima periculosidade, com treinamento marcial, fluente em vários idiomas, líder de uma organização extremista com contatos ao redor do mundo e acesso a fontes de financiamento misteriosas. Não fosse esse exagero, o meu nome não teria sido incluso no red notice da Interpol. Pela lei russa, detentos precisam ficar presos com outros detentos de classificação idêntica. Assim, graças à 'licença poética' da 10ª DP, eu tive que ficar preso com homicidas, boa parte dos quais, segundo eu pude entender, lideranças criminosas. Somos 11, todos são assassinos menos um, um hacker ucraniano, responsável pelo desvio de mais de € 200 milhões [R$ 1,26 bilhão] de bancos europeus e de tentar comprometer as eleições americanas em favor de Trump.

    Apesar do perfil meio dramático dos meus companheiros de cela, eles são todos pessoas integralíssimas, com um rico histórico de vida e, usualmente, com muito bom humor. São barulhentos e bem humorados, o que garante boas risadas quase todos os dias. O fato de eu ter sido preso, sob a alegação de homicídio, contra os patifes que retrataram Nosso Senhor Jesus Cristo como gay, acabou involuntariamente contando em meu favor, já que essa tipificação criminosa acabou me rendendo respeito. O fato de eu ser brasileiro também atrai simpatias e bastante curiosidade. 'Como é que um brasileiro veio parar na Rússia?' é uma pergunta recorrente. Apesar das diferenças culturais e das especificidades dos códigos carcerários russos, uma regra comum permanece em todos os ambientes de escassez, como é o caso das carceragens ao redor do mundo: você tem que ser malandro, mas não pode ser 'malandrão'. Respeitado isso, o resto flui sem obstáculos. Como na vida.

    S: Como é sua rotina no Centro de Detenção de Ekaterinburgo? Pode descrever o seu dia a dia?

    EF: Graças aos exageros da 10ª DP, eu precisei ser alocado em um regime de encarceramento restritíssimo, triplamente fechado. Nós não colocamos o nariz fora da cela nem para respirar. Não temos contato com outros presos. Sem rádio ou televisão, as refeições são servidas na própria cela. Só saímos às sextas-feiras, o dia do banho. Sim... Banho é uma vez por semana, sem visitas, com exceção dos advogados e apenas por 20 minutos, e telefonemas precisam ser autorizados pelo juiz. Mesmo livros precisam ser vistoriados e liberados por uma comissão técnica que verifica se os livros não contêm mensagens cifradas ou possuem conteúdo 'extremista' e que possa prejudicar a harmonia carcerária. Livros em português nem pensar, já que a comissão técnica não tem como avaliar o conteúdo. Eu recebi de presente cerca de 20 livros, em inglês, para ajudar a passar o tempo. Passados dois meses, só tive a liberação de 14. Até [o fim de] janeiro, espero, o resto terá sido liberado. E veja que são clássicos da literatura universal, consagrados pelo uso comum. A disciplina é rigorosíssima, sem direito à exceção, como, me parece, faz parte do espírito russo.

    Imagem de Eduardo Fauzi, foragido da Justiça do Rio de Janeiro
    © Foto / Divulgação / Polícia Civil do Rio de Janeiro
    Imagem de Eduardo Fauzi, foragido da Justiça do Rio de Janeiro

    Às 07h00, somos vistoriados, as camas têm que estar feitas e permanecer assim até as 19h00, hora do segundo check-up. As luzes da minha cela nunca são apagadas e, a cada 30 minutos, um oficial faz uma checagem visual pelo olho mágico. Isso me trouxe problemas para dormir, mas que já foram superados, felizmente.

    Se por um lado a disciplina é espartana, por outro lado, as instalações são extremamente bem conservadas. A minha cela é ampla, possui seis beliches, lavabo, cozinha e banheiro. Não fosse pelas grades na janela, poderia ser  tranquilamente o quarto coletivo de um hostel em uma grande capital europeia. O aquecimento funciona bem, e a comida é de boa qualidade e em quantidade suficiente para todos. O local é confortável e limpo, melhor que muitos lares brasileiros, infelizmente.

    Como meu principal problema é o tédio, eu preciso desenvolver ferramentas para passar o tempo. Faço mil flexões de braço todos os dias, escrevo cartas para alguns correligionários, leio (devagar, para os livros não acabarem rápido) e jogo xadrez com meus companheiros de cela. Também tenho me dedicado a entrevistá-los e tomar notas biográficas que talvez virem um livro.

    S: Quais as diferenças para a prisão no Brasil? 

    EF: Há um abismo separando a realidade carcerária dos dois países. Todo um universo de códigos e posturas que precisam ser aprendidos e observados por quem quiser ser 'feliz' no seu tempo de 'serviço' e que diferem amplamente entre os dois países. Algumas diferenças me chocam. Por exemplo, enquanto no Brasil, e de forma geral na América Latina, traficantes de drogas possuem destaque no ambiente carcerário, especialmente por causa do dinheiro que possuem, na Rússia, eles são considerados criminosos de segunda categoria, e se tornam alvo justamente por causa do dinheiro que têm, sendo frequentemente extorquidos pelos demais presos (ou poderão sofrer maus-tratos).

    Explorar o vício e a fragilidade dos outros não é bem recebido pelo coletivo carcerário. Estupradores e estelionatários também não têm uma vida fácil ao que parece. Quem quiser ter moral no cárcere precisa abraçar atividades que envolvam risco e combate, o que reflete algo da alma russa (difícil não amar um país assim). Assaltantes de banco estão no topo da pirâmide social (ninguém gosta de banqueiros, justamente porque eles vivem de explorar o vício e a fragilidade dos outros).

    Sede da Porta dos Fundos foi atacada na véspera do Natal
    © Foto / Reprodução da Internet
    Sede da Porta dos Fundos foi atacada na véspera do Natal

    Outra diferença gritante é a questão da corrupção policial. Enquanto que no Brasil é a norma, aqui é a exceção. De fato, eu não vi nenhum indício de corrupção entre os agentes. Facilidades como armas, drogas e telefones celulares não existem. Ao menos no local onde eu estou detido, eu não encontrei qualquer indício do comércio de itens proibidos ou da venda de facilidades, tão comum no Brasil. Os agentes são bem treinados, extremamente educados (mas sem simpatias) e sempre atenciosos às requisições dos detentos, especialmente remédios e itens de higiene. Não existem facções carcerárias na Rússia e todos os presos, via de regra, se ajudam e se auxiliam, se entendendo como parte de uma mesma comunidade. Já no Brasil, é meio que 'cada um por si e todo mundo contra todo mundo'. Até aqui, toda a experiência tem sido extremamente enriquecedora e, por mais terrível que possa ser a experiência de ser prisioneiro em uma prisão estrangeira, eu saberei sair daqui mais forte e melhor, enquanto homem e intelectual, com a ajuda de Deus.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Prisão, Jesus, Brasil, Rússia, Ecaterimburgo, ataques, Porta dos Fundos
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