05:56 01 Agosto 2021
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    Após responder à pergunta sobre as relações entre a Rússia e a Ucrânia durante a Linha Direta, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, escreveu um artigo sobre sua posição quanto a este assunto e avaliou a situação atual.

    O presidente declarou que esta tragédia nas relações entre os países foi provocada por uma série de erros cometidos por ambas as partes durante diferentes períodos. Mas, além disso, é também resultado do trabalho de forças externas que queriam minar a unidade entre os dois países.

    Putin sublinhou que, para entender o presente, é preciso recordar também o passado. O presidente russo lembrou que os antepassados dos russos e ucranianos eram um único povo, eles são herdeiros do maior Estado da Europa, a Rússia de Kiev, eram unidos pelo mesmo idioma e pela mesma fé.

    'Bomba de relógio' da União Soviética

    Putin lembra vários períodos da história dos dois países, em que houve disputas e divisões territoriais que foram causadas por invasões e políticas de países vizinhos. Mas tudo isso acabou com a criação da União Soviética.

    "Em 1922, durante a criação da URSS, um dos fundadores da qual foi a República Socialista Soviética da Ucrânia, após uma discussão bastante acalorada entre os líderes bolcheviques, foi implementado o plano de Lênin de formar um Estado como uma federação de repúblicas com direitos iguais. O texto da declaração sobre a formação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas e, posteriormente, a Constituição da URSS de 1924 incluíam o direito das repúblicas se separarem livremente da união. Dessa maneira, na fundação de nosso Estado foi colocada a 'bomba de relógio' mais perigosa."

    "Ela explodiu assim que desapareceu o mecanismo de segurança na forma do papel dirigente do Partido Comunista da União Soviética [...] Começou o 'desfile das soberanias'. Em 8 de dezembro de 1991, foi assinado o chamado Pacto de Belaveja sobre a criação da Comunidade dos Estados Independentes [CEI], que declarou que 'a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, como sujeito do direito internacional e da realidade geopolítica, termina sua existência'. A propósito, a Carta da CEI, adotada em 1993, não foi assinada nem ratificada pela Ucrânia", escreve Putin.

    "Assim, a Ucrânia é total e completamente um produto da época soviética. Nós sabemos e nos lembramos que em grande parte ela foi criada devido às custas da Rússia histórica", escreve o presidente.

    Alexander Lukashenko (E-D), presidente da Bielorrússia, Vladimir Putin, presidente da Rússia, Angela Merkel, chanceler da Alemanha, François Hollande, presidente da França, e Pyotr Poroshenko, presidente da Ucrânia
    © REUTERS / Grigory Dukor
    Alexander Lukashenko (E-D), presidente da Bielorrússia, Vladimir Putin, presidente da Rússia, Angela Merkel, chanceler da Alemanha, François Hollande, presidente da França, e Pyotr Poroshenko, presidente da Ucrânia

    O presidente sublinhou que os bolcheviques trataram o povo russo como material para experimentos sociais, sonhando com a revolução mundial que eliminaria totalmente os Estados nacionais.

    "Portanto, eles cortavam arbitrariamente as fronteiras e distribuíam generosos 'presentes' territoriais. Ao final, não importam as razões exatas pelas que os líderes bolcheviques se orientaram, recortando o país [...] Uma coisa é evidente: de fato, a Rússia foi roubada", explica o presidente russo.

    "Na URSS", explica Putin, "as fronteiras entre as repúblicas não eram entendidas, claro, como fronteiras nacionais, elas tinham um caráter convencional dentro de um país unido que, apesar de todos os atributos de uma federação, era essencialmente altamente centralizado graças, repito, ao papel de liderança do Partido Comunista. Mas, em 1991, todos esses territórios e, o mais importante, as pessoas que lá viviam, de repente se encontraram no exterior. E então foram realmente afastados de sua Pátria histórica", diz Putin.

    Ucrânia após fim da URSS

    Putin lembrou a opinião do primeiro prefeito de São Petersburgo, o jurista Anatoly Sobchak, que dizia que qualquer decisão deve ser legítima e, por isso, como as repúblicas que formaram a União Soviética anularam o Acordo de 1922, elas devem voltar a suas fronteiras iniciais, que tinham quando entraram na União; o resto deve ser discutido em negociações.

    A Rússia reconheceu a nova realidade geopolítica, diz Putin, e fez muito para que a Ucrânia tivesse sucesso como Estado independente. Durante décadas, Ucrânia e Rússia se desenvolveram como um sistema econômico único. "A profundidade da cooperação que tinhamos há 30 anos poderia ser objeto de inveja para a União Europeia [...] Essa estreita ligação tinha capacidade para aumentar o potencial de ambos os países, que era grande na Ucrânia."

    "Ele [potencial] incluía uma poderosa infraestrutura, um sistema de transporte de gás, indústrias avançadas de construção naval, construção de aeronaves, produção de foguetes, de aparelhos de precisão, escolas científicas, de projetos e de engenharia de classe mundial. Tendo recebido este legado, os líderes da Ucrânia, anunciando a independência, prometiam que a economia ucraniana se tornaria uma das mais avançadas e que o nível de vida seria um dos mais altos da Europa", diz Putin.

    Mas hoje em dia, segundo Putin, a Ucrânia é um dos países mais pobres da Europa. E a culpa não é do povo ucraniano. "Foram exatamente as autoridades ucranianas que desbarataram os avanços de várias gerações."

    "As elites ucranianas [depois do fim da União Soviética] decidiram fundamentar a independência de seu país através da negação de seu passado, contudo, sem incluir a questão das fronteiras [...] Eles começaram a falar do período de permanência da Ucrânia [...] na União Soviética como de uma ocupação [...] Radicais e neonazistas anunciavam suas ambições cada vez mais descaradamente. Eles eram apoiados tanto pelas autoridades oficiais como pelos oligarcas locais [...]", diz Putin.

    Relação Rússia-Ucrânia após crise política no país

    "Muito antes de 2014, os EUA e países da UE influenciavam de maneira planejada e constante a Ucrânia para reduzir e limitar a cooperação econômica com a Rússia. Nós, como o maior parceiro econômico e comercial da Ucrânia, sugerimos discutir os problemas que surgiam no formato 'Ucrânia-Rússia-UE', mas de cada vez nos diziam que a Rússia não tem nada a ver com isso e que a questão respeita apenas à UE e Ucrânia.

    "Passo a passo, Ucrânia foi envolvida em um perigoso jogo geopolítico, cujo objetivo era tornar a Ucrânia em uma barreira entre a Europa e a Rússia [...] Chegou inevitavelmente a hora em que o conceito 'Ucrânia não é Rússia' já não era suficiente. Precisavam de uma [ideia] 'anti-Rússia', o que nós nunca vamos aceitar."

    E isso não está sendo feito no interesse da Ucrânia. Nem em fevereiro de 2014 pensavam nos interesses do povo ucraniano.

    "O justo descontentamento do povo, causado pelos graves problemas socioeconômicos, pelos erros e ações inconsistentes das autoridades nessa época, foi simplesmente explorado cinicamente. Os países ocidentais se ingeriram diretamente nos assuntos internos da Ucrânia e apoiaram o golpe. Grupos nacionalistas radicais agiram como seu aríete. Seus slogans, sua ideologia e sua russofobia ostensiva e agressiva passaram a determinar em grande parte política estatal na Ucrânia", diz Putin.

    Começaram com a língua russa, e já neste ano o atual presidente apresentou o projeto de lei sobre "povos nativos". Tudo isso em um país muito complexo no que diz respeito a sua composição territorial, étnica, linguística e à história de sua formação.

    Vemos hoje na Ucrânia processos de mudança forçada de identidade. "O mais repugnante é que os russos na Ucrânia são obrigados a renunciar não só a suas raízes, a gerações de antepassados, mas também a acreditar que a Rússia é o inimigo deles", escreve Putin.

    Moradores locais de Donbass, 9 de abril de 2021
    © AP Photo
    Moradores locais de Donbass, 9 de abril de 2021

    O projeto "anti-Rússia" foi rejeitado por milhões de moradores na Ucrânia. A população da Crimeia fez sua escolha histórica, as pessoas do sudeste tentaram defender sua posição de forma pacífica, mas foram tratados como separatistas e terroristas.

    "Moradores de Donetsk, de Lugansk pegaram em armas para defender suas casas, sua língua, suas vidas. Será que eles tiveram outra escolha após o caos que percorreu cidades da Ucrânia e o horror e tragédia de 2 de maio de 2014, quando neonazistas ucranianos queimaram pessoas [...]?"

    A Rússia fez tudo para parar isso. Foram assinados os Acordos de Minsk, que ainda hoje continuam sem alternativas, diz Putin.

    Mas eu estou cada vez mais convencido: Kiev não precisa de Donbass. Porque o povo da região não vai aceitar esses princípios que querem lhes impor e também porque isso contradiz o projeto "anti-Rússia", declara presidente russo.

    "Isto é o que está acontecendo na prática. Em primeiro lugar, na sociedade ucraniana está sendo criado um clima de medo, uma retórica agressiva, indulgência perante os neonazistas e a militarização do país. Além disso, não se trata apenas de dependência total, mas sim de um controle externo direto, incluindo a supervisão por conselheiros estrangeiros das autoridades, serviços especiais e Forças Armadas ucranianos, de 'aproveitamento' militar do território da Ucrânia, de implantação da infraestrutura da OTAN. Não é por acaso que a já mencionada escandalosa lei sobre 'povos nativos' tenha sido adotada sob a cobertura dos exercícios em larga escala da OTAN na Ucrânia", escreve Putin.

    Secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, e o presidente da Ucrânia, Vladimir Zelensky, posam para foto após encontro em Kiev, Ucrânia, 6 de maio de 2021
    © REUTERS / Efrem Lukatsky
    Secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, e o presidente da Ucrânia, Vladimir Zelensky, posam para foto após encontro em Kiev, Ucrânia, 6 de maio de 2021
    Os autores ocidentais do projeto "anti-Rússia" ajustam o sistema político ucraniano de tal forma que os presidentes, deputados e ministros mudam, mas a atitude de separação e inimizade com a Rússia permanece inalterada. O slogan principal do atual presidente antes das eleições era o avanço em direção à paz. Mas todas as promessas se revelaram mentiras. Nada mudou.

    Em busca do diálogo

    Mas repito, escreve Putin, "para muitas pessoas na Ucrânia o projeto "anti-Rússia" é simplesmente inaceitável. E essas pessoas são milhões. Entretanto, um patriota "correto" na Ucrânia de hoje é apenas quem odeia a Rússia. Ademais, propõe-se que toda a estrutura do Estado seja construída exclusivamente com base nessa ideia.

    Mas nós nunca não vamos permitir que nossos territórios históricos e as pessoas que moram lá sejam usados contra a Rússia. E quero dizer, a quem tentar realizar isso, que assim eles destruirão seu país.

    Navios da OTAN chegam para Odessa, Ucrânia
    © AFP 2021 / SERGEI SUPINSKY
    Navios da OTAN chegam para Odessa, Ucrânia
    "As autoridades atuais da Ucrânia gostam de se referir à experiência ocidental e a consideram um exemplo a ser imitado. Vejam como vivem lado a lado a Áustria e a Alemanha, os Estados Unidos e o Canadá. Próximos por sua composição étnica, cultura, praticamente com o mesmo idioma, eles continuam sendo Estados soberanos, com seus próprios interesses, com sua própria política externa. Mas isso não os impede de se integrarem ou de estabelecerem relações de aliança. Eles têm fronteiras bastante convencionais e transparentes. E seus cidadãos se sentem em casa quando as atravessam. Eles criam família, estudam, trabalham e fazem negócios. A propósito, tal como milhões de nativos da Ucrânia que vivem agora na Rússia. Para nós, eles são parte de nós, são nosso próprio povo", escreve Putin.

    A Rússia está aberta ao diálogo com a Ucrânia e está pronta para discutir as questões mais complexas. Mas para nós é importante entender que nosso parceiro está defendendo seus interesses nacionais e não servindo interesses de outros, não representa uma ferramenta para lutar contra nós. Estou convencido que a verdadeira soberania da Ucrânia é possível precisamente em parceria com a Rússia.

    "Nossos laços espirituais, humanos e civilizacionais foram formados ao longo dos séculos, remontam às mesmas raízes [...] Nosso parentesco é transmitido de geração em geração. Está nos corações, na memória das pessoas que vivem nas atuais Rússia e Ucrânia, nos laços de sangue que unem milhões de nossas famílias. Juntos sempre fomos e seremos muito mais fortes e bem-sucedidos. Pois nós somos um só povo", diz Putin.

    A Rússia nunca foi nem será "anti-Ucrânia". Mas como será a Ucrânia, isso serão seus cidadãos a decidir, concluiu Putin.

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    Tags:
    União Soviética, Vladimir Putin, Ucrânia, Rússia
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