03:53 21 Outubro 2019
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    Pessoas esperam perto da casa de câmbio, Istambul, Turquia, 14 de agosto de 2018

    'Briga' entre Erdogan e Trump ficará na memória dos turcos por muito tempo

    Oriente Médio e África
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    A Turquia está pronta para virar as costas para os EUA, reorientando-se para novos mercados e alianças.

    Depois da queda da lira devido às sanções dos EUA, Recep Tayyip Erdogan se pronunciou. Ele prometeu responder com firmeza à "guerra econômica". Mas mesmo quando esse confronto terminar, os turcos guardarão seus rancores por muito tempo.

    Pastor da discórdia 

    "Os EUA estão constantemente ignorando os problemas do povo turco. Enquanto Washington não respeitar a soberania da Turquia e não provar que compartilha nossos receios, a parceria está ameaçada. Não vamos deixar sanções unilaterais sem resposta", Erdogan recorreu ao público norte-americano através do The New York Times depois que o Departamento de Estado aumentou as tarifas do alumínio e o aço turcos.

    As sanções provocaram uma desvalorização ainda maior da lira turca: literalmente, em meia hora, a moeda foi de 5,8 para 6,7 por dólar. 

    "Agora a moeda turca está caindo rapidamente e o dólar está muito forte. As tarifas para o alumínio serão de 20%; para o aço – 50%", escreveu Donald Trump no Twitter.

    Há uma semana, Ancara esperava por um compromisso. Uma delegação turca liderada pelo vice-ministro das Relações Exteriores, Sedat Onal, chegou a Washington para conversações. No entanto, os convidados foram informados que as concessões não seriam feitas até que o pastor evangélico Andrew Brunson fosse libertado. Na Turquia, ele é suspeito de ter ligações com a organização FETO do pregador islâmico Fethullah Gulen.

    As autoridades turcas começaram a agir apenas quando a taxa da lira registrou o mínimo histórico. Para acalmar o mercado, o Banco Central da Turquia prometeu fornecer às instituições de crédito a liquidez necessária, e o governo endureceu as políticas monetária e fiscal.

    Erdogan entrou em um ataque verbal: ele chamou as autoridades norte-americanas de "terroristas econômicos" que "atacam pelas costas". Ele pediu aos cidadãos turcos que trocassem dólares e euros por liras. 

    "Se os EUA continuarem nos pressionando com seu dólar, vamos nos voltar para novos mercados, parceiros e alianças, então responderemos ao homem que declarou guerra à Turquia", enfatizou ele a seus partidários.

    Turquia não vai ficar sozinha

    O crescente conflito turco-americano ainda não afetou as relações de Ancara com outros parceiros. Os países europeus adotaram uma atitude de esperar para ver e não comentaram a situação. Mas o Irã apoiou as autoridades turcas, acusando os EUA de pressão e extorsão.

    "Teerã está interessada em uma política externa turca mais independente. Neste caso, Ancara não desistirá de seus interesses na compra de petróleo e gás iranianos, como exigido pelas sanções norte-americanas", explicou à Sputnik Timur Akhmetov, especialista russo em assuntos internacionais que reside na Turquia.

    Moscou também está do lado da Turquia. Recep Tayyip Erdogan e Vladimir Putin discutiram projetos conjuntos e concordaram que as flutuações das moedas nacionais não afetarão na concretização dos projetos. No dia anterior, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, chegou a Ancara para dar início aos preparativos para a reunião de setembro dos líderes da Rússia, Turquia, França e Alemanha.

    O cientista político turco, Aydin Sezer, vê no fortalecimento de contatos com a Rússia e o Irã tentativas de mostrar aos EUA que a Turquia tem outros parceiros. 

    "Isso não significa que Washington não seja mais importante, mas mesmo assim Ancara não ficará sozinha", comentou à Sputnik o especialista sobre a situação.

    O apoio russo dá ao presidente turco a confiança na correção de suas ações. 

    "Ao mesmo tempo, a Rússia não se opõe abertamente às relações EUA-Turquia. No caso do acordo sobre a compra de sistemas de mísseis antiaéreos S-400, Moscou oferece uma alternativa às armas dos EUA, mas apenas depende das autoridades turcas se aceitarão ou não a proposta", disse Akhmetov.

    Farão as pazes, mas guardarão na memória por um longo tempo

    O conflito entre a Turquia e os EUA é mais profundo do que contradições políticas e econômicas. 

    "Ancara há muito vem exigindo que Washington conte com seus interesses no Oriente Médio, mas nem a questão curda, nem o fornecimento vital do gás iraniano ao país, nem a regularização síria encontra resposta dos norte-americanos", afirma Orhan Gafarli, especialista do Centro de Pesquisa Política em Ancara.

    "A natureza multivetorial da política externa é a principal mensagem das autoridades turcas, não a mudança de parceiros: a Europa e os EUA ainda representam cerca de 50% da circulação de mercadorias da Turquia, mas Moscou, Teerã, Pequim são áreas promissoras de cooperação, e o Ocidente terá que levar isso em conta", esclarece.

    Quanto ao conflito da situação em torno do pastor Andrew Brunson, isso pode ser atribuído às próximas eleições do Congresso em novembro. O pastor é de grande importância para os partidários de Trump, entre os quais há muitos evangélicos. Isso significa que, exigindo sua libertação, o presidente norte-americano aparece aos olhos dos eleitores como um defensor do cristianismo.

    Prevendo o desenvolvimento do conflito turco-americano, os especialistas entrevistados pela Sputnik concordaram que, mais cedo ou mais tarde, os países chegarão a um acordo. Mas, ao contrário dos norte-americanos, os cidadãos turcos lembrarão por muito tempo o que aconteceu: a queda da lira depreciou drasticamente seus salários. E culpam os EUA por isso. 

    É possível superar a fase de pico da crise nas relações entre os dois países se a Turquia conseguir impedir que a economia caia. No entanto, as ações de apenas um país são insuficientes para mudança.

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    Tags:
    guerra econômica, tarifas, moeda nacional, sanções, Fethullah Gulen, Andrew Brunson, Donald Trump, Recep Tayyip Erdogan, Washington, Rússia, Turquia, EUA
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