17:06 31 Julho 2021
Ouvir Rádio
    Análise
    URL curta
    Por
    5383
    Nos siga no

    O vice-presidente Mourão voltou a agir pela relação Brasil-China após tensões entre Eduardo Bolsonaro e a embaixada chinesa. Para discutir a questão, a Sputnik Brasil ouviu o professor de Relações Internacionais da ESPM, Alexandre Uehara, que lembrou a relação "assimétrica" entre os países.

    Na segunda-feira (23), o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), presidente da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara, criticou o 5G da China em suas redes sociais, associando a tecnologia à espionagem. A postagem foi apagada posteriormente, mas o filho do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) recebeu uma resposta enfática da embaixada chinesa, que classificou a postura do deputado como "ofensiva" e "totalmente inaceitável". A embaixada foi depois criticada pelo Itamaraty pela resposta ao deputado por meio das redes sociais.

    Diante de mais um imbróglio diplomático na relação bilateral, o vice-presidente, Hamilton Mourão, se posicionou na disputa enaltecendo a relação sino-brasileira durante seminário organizado pela Câmara Empresarial Brasil-China, na quinta-feira (26), tentando botar panos quentes na situação. Mais cedo, nesta sexta-feira (27), Mourão, porém, reforçou a crítica do Itamaraty ao uso de redes sociais pela embaixada chinesa. Essa não é a primeira vez que Mourão surge como um agente moderador das relações entre os dois países após comentário do deputado Bolsonaro.

    Alexandre Uehara, professor de Relações Internacionais e coordenador do Centro Brasileiro de Estudos e Negócios Internacionais da ESPM/SP, avalia que a posição do governo, incluindo aí o filho do presidente brasileiro, tem sido "bastante contrária à China". Dessa forma, com a ausência do Itamaraty e também do presidente no alívio das tensões com o gigante asiático, o professor acredita que o papel de Mourão é importante.

    "Não havendo essa ação desses atores [Bolsonaro e Itamaraty], creio que o papel do vice-presidente Mourão é importante, dada a importância que a China tem para o Brasil", afirma o pesquisador em entrevista à Sputnik Brasil.

    Uehara ressalta que a postura de Mourão não é o problema, e sim a ausência de atores como o próprio presidente Bolsonaro na garantia de boas relações com os chineses.

    "O problema é menos o papel que o vice-presidente Hamilton Mourão tem desempenhado agora e muito mais essa reiterada atitude que tem acontecido contra a China, de maneira geral, que acaba logicamente afetando as relações com o país e criando tensão e afastando [os dois países]", avalia.
    Presidente Jair Bolsonaro fala com o vice-presidente Hamilton Mourão na tomada de posse de Eduardo Pazuello como novo ministro da Saúde
    © REUTERS . Adriano Machado
    Presidente Jair Bolsonaro fala com o vice-presidente Hamilton Mourão na tomada de posse de Eduardo Pazuello como novo ministro da Saúde

    O professor recorda que Brasil e China seguiam há décadas um caminho de aproximação, o que inclui iniciativas recentes no campo internacional como o grupo dos BRICS. Apesar disso, as relações bilaterais sino-brasileiras se deterioraram desde o início do governo Bolsonaro.

    "China e Brasil vinham em um caminho de convergência, aproximações, inclusive pelo grupo dos BRICS, por ser um país em desenvolvimento. Isso há décadas já, desde o desenvolvimento da década de 1970 [...]. Então isso nesse momento é preocupante, eu creio que não é suficiente. Acho que é importante nesse momento a ação do vice-presidente em tentar reduzir as tensões, mas eu creio que não é suficiente para estancar esse afastamento e essa deterioração das relações que vem acontecendo desde a ascensão do presidente Bolsonaro", afirma Uehara.
    Presidentes da China, Xi Jinping, e do Brasil, Jair Bolsonaro, se cumprimentam durante cúpula dos BRICS em Brasília, em 2019
    © AP Photo / Eraldo Peres
    Presidentes da China, Xi Jinping, e do Brasil, Jair Bolsonaro, se cumprimentam durante cúpula dos BRICS em Brasília, em 2019

    O pesquisador explica que o atual rumo assumido pelo governo Bolsonaro pode trazer consequências para as relações econômicas entre os dois países, o que "seria muito ruim" para o Brasil, tendo em vista que há uma relação comercial assimétrica com o país asiático. A China é o maior parceiro comercial do Brasil.

    "A China tem o Brasil como um importante fornecedor de alguns insumos, como o minério e a soja, mas só que é uma relação, como chamamos em Relações Internacionais, de 'interdependência assimétrica'. Hoje, o Brasil representa para a China algo em torno de 3% do que a China importa. No lado contrário, no que o Brasil exporta, a China representa mais de 30%. Então é uma interdependência assimétrica em que alguma retaliação, alguma atitude da China, teria impacto muito grande para o Brasil", aponta.

    Uehara ressalta ainda que, em contrapartida, a China poderia, em certa medida, diversificar os fornecedores dos insumos hoje vindos do Brasil. Entre as possibilidades para a soja, por exemplo, estariam a Argentina e alguns países africanos, e no caso do minério, a Austrália.

    Bolsonaro e a China em um mundo sem Trump

    Na resposta da embaixada da China ao deputado federal Eduardo Bolsonaro, o órgão diplomático identifica o discurso anti-China do filho do presidente brasileiro como uma retórica importada da extrema-direita dos Estados Unidos. O professor de Relações Internacionais da ESPM, Alexandre Uehara, explica que o discurso empregado pelo presidente norte-americano, Donald Trump, isolou os EUA do mundo.

    "O presidente Trump, desde que assumiu, colocou os EUA em uma posição de isolamento, rompeu o apoio com vários países. Na verdade, a política do America First [América Primeiro] colocou os EUA como America Alone [America Sozinha]", explica o professor.

    Sendo o governo Bolsonaro próximo do governo do atual presidente dos EUA, Uehara aponta que o Brasil seguiu um caminho semelhante ao empregado por Trump no campo internacional e afirma que há uma expectativa de mudança de atitude a partir da chegada do democrata Joe Biden à Casa Branca.

    "O Brasil, seguindo esses passos [de Trump], também acabou se isolando, acabou tendo problemas com países europeus, teve problemas com a China, que é um país importante. Então a expectativa que se tem é que com saída do presidente Trump e a chegada do presidente Biden, o Brasil reformule ou realinhe a sua política", avalia o professor.
    Presidente eleito dos Estados Unidos, o democrata Joe Biden, faz discurso em Delaware
    © REUTERS / Jonathan Ernst
    Presidente eleito dos Estados Unidos, o democrata Joe Biden, faz discurso em Delaware

    Para Uehara, porém, a saída de Trump não é suficiente para uma mudança de postura do governo brasileiro, que só deve ocorrer a partir de uma reformulação interna, levando em conta os interesses do Estado brasileiro.

    "Não é suficiente a saída de Trump, é uma necessidade de ter também internamente no Brasil, de fato, uma decisão de mudança de postura. A saída do presidente Trump não vai mudar por si só a situação do Brasil. Acho que precisa ter uma reavaliação e ver quais são os interesses do Brasil como país, como Estado e não como opiniões específicas de um ou outro governo", ressalta.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

    Mais:

    China diz estar pronta para cooperar com Rússia e Brasil em ensaios de vacina contra o coronavírus
    Mourão diz que morte em supermercado não foi racismo, porque 'no Brasil não existe racismo'
    Qual é a situação das ações que pedem a cassação da chapa Bolsonaro-Mourão no TSE?
    Tags:
    Joe Biden, EUA, Donald Trump, Argentina, Austrália, Eduardo Bolsonaro, Brasil, China, Jair Bolsonaro, Antonio Hamilton Mourão
    Padrões da comunidadeDiscussão
    Comentar na SputnikComentar no Facebook
    • Comentar