07:54 28 Novembro 2020
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    Caso Donald Trump perca as eleições norte-americanas, o governo brasileiro pode acabar isolado externamente e enfraquecido internamente, acreditam especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil.

    Nesta terça-feira, pesquisas de intenção de voto indicaram vantagem de 9,1 pontos percentuais ao candidato à presidência do Partido Democrata, Joe Biden, em relação a seu opositor e atual presidente dos EUA, Donald Trump.

    De acordo com o portal especializado FiveThirtyEight, essa é a vantagem mais expressiva entre dois candidatos a uma semana das eleições presidenciais norte-americanas em 24 anos.

    Nesse contexto, o governo brasileiro se prepara para eventualmente perder nos EUA uma administração que considera sua aliada.

    O que o governo Bolsonaro tem a perder com uma eventual vitória de Biden? Quais serão os impactos para as relações entre Brasil e EUA? A Sputnik Brasil conversou com especialistas para saber a resposta a essas perguntas.

    Alinhamento com os EUA

    Para a doutora em Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP) Lívia Milani, "há uma tentativa intensa de aproximação com os EUA por parte do governo Bolsonaro".

    "Nos tornamos um aliado dos EUA extra-OTAN, o que formalizou nossa aliança militar-estratégica", explicou Milani à Sputnik Brasil.

    Nesse processo, "assinamos acordo de salvaguardas tecnológicas para permitir a utilização da base espacial de Alcântara por empresas dos EUA", medida que seria "impensável" em governos anteriores.

    Brasileira realiza ato em apoio ao presidente e candidato à reeleição nos EUA, Donald Trump, na frente da Embaixada dos EUA em Brasília, 4 de outubro de 2020
    © AP Photo / Eraldo Peres
    Brasileira realiza ato em apoio ao presidente e candidato à reeleição nos EUA, Donald Trump, na frente da Embaixada dos EUA em Brasília, 4 de outubro de 2020

    Além disso, "o Brasil enviou um militar para trabalhar junto com o Comando Sul dos EUA, iniciativa que deve ser mantida se Biden chegar ao poder".

    Para o professor da UFABC e coordenador do Observatório da Política Externa e da Inserção Internacional do Brasil (OPEB), Giorgio Romano, "as relações militares não devem sofrer impacto" em caso de mudança de governo nos EUA.

    "O governo republicano atual dos EUA é muito carregado ideologicamente e o Brasil está alinhado a ele como nunca", disse a professora e coordenadora do programa de mestrado em Segurança da Universidade Torcuato Di Tella, Monica Hirst, à Sputnik Brasil.

    Moradores de rua dormem embaixo do Minhocão próximo a grafite representando os presidentes de EUA e Brasil, São Paulo, 22 de julho de 2019
    © REUTERS / Nacho Doce
    Moradores de rua dormem embaixo do Minhocão próximo a grafite representando os presidentes de EUA e Brasil, São Paulo, 22 de julho de 2019

    Esse alinhamento seria "feito dentro de uma nuvem ideológica, e não de um processo de negociações e de reciprocidades, que normalmente estão presentes em um alinhamento", acredita Hirst.

    "É um alinhamento cego, que não tem fundamentação em interesses concretos", acredita Hirst, autora do livro "Brasil–Estados Unidos: desencontros e afinidades".

    'Eu te amo'

    Para os especialistas, a eventual saída de Trump da presidência poderá ter impacto na sustentação ideológica do governo brasileiro.

    "Na pauta ideológica, Bolsonaro se espelha, se inspira e apoia os posicionamentos do Trump", disse Romano. "Bolsonaro parece estar sempre atento às ideias e posições do Trump para depois importá-las para o Brasil."

    Durante a campanha eleitoral brasileira, Bolsonaro teria feito "conexões muito importantes com a direita estadunidense e com pessoas que eram próximas ao Trump".

    "A própria escolha dos EUA como parceiro preferencial é motivada pela crença de que eles fazem parte do mesmo movimento global de ascensão da extrema direita", acredita Milani.

    Manifestante usa máscara do presidente americano, Donald Trump, durante manifestação de apoio a Jair Bolsonaro no Rio de Janeiro (foto de arquivo)
    © AP Photo / Silvia Izquierdo
    Manifestante usa máscara do presidente americano, Donald Trump, durante manifestação de apoio a Jair Bolsonaro no Rio de Janeiro (foto de arquivo)

    Apesar da identificação mútua, o esforço de aproximação foi realizado com mais vigor por Bolsonaro em relação a Trump do que o contrário.

    Essa assimetria teria ficado evidente "durante a Assembleia Geral da ONU [de 2019] quando o presidente do Brasil disse para o Trump que o amava", lembrou Milani.

    Para Romano, o Ministério das Relações Exteriores formula a política externa brasileira com base na tese de que o país integra uma onda conservadora cristã liderada pelo atual presidente dos EUA.

    "Com a saída de Trump, perde-se o líder, perde-se o farol", disse o professor.

    Isolamento internacional

    Com a perda de apoio dos EUA nas pautas mais conservadoras na arena internacional, o país corre o risco de ficar isolado.

    "Quando um país como os EUA contesta a ordem liberal internacional, isso pode de fato gerar mudanças nessa ordem. Mas quando um país semiperiférico como o Brasil faz isso, o resultado é que esse país se transforma em um pária internacional", explicou Milani. "E isso não seria interessante para o Brasil de forma alguma."

    Ela lembra que o Brasil já se encontra isolado na América Latina, uma vez que é "um dos poucos países sendo governado pela extrema direita na região".

    "Vemos alguns indícios na região de que a extrema direita não conseguiu se consolidar, como as recentes eleições na Bolívia e a volta dos peronistas na Argentina", notou Milani.

    Em transmissão ao vivo no Facebook, Bolsonaro assiste pronunciamento de Trump
    Reprodução Internet
    Em transmissão ao vivo no Facebook, Bolsonaro assiste pronunciamento de Trump

    Para Hirst, a eventual eleição de Joe Biden não deve aprofundar o isolamento internacional do Brasil.

    "Já estamos muito isolados. Retoricamente, entrou para a ordem do dia de que ser pária não é um problema", comentou Hirst.

    Caso queira evitar o isolamento, o Brasil poderá "amenizar sua política externa" para evitar "se contrapor" a uma possível administração Biden.

    "Caso Biden ganhe as eleições e o governo Bolsonaro opte por uma amenização de sua política externa é inclusive possível que haja uma mudança na liderança do Ministério das Relações Exteriores", apostou Milani.

    Brasil fora de foco

    As especialistas concordam que o Brasil não será prioridade na política externa norte-americana em um eventual governo Biden.

    "Do ponto de vista da política regional, o foco vai estar na América Central, na questão migratória e de segurança", disse Hirst.

    Na América do Sul, Biden deve focar os esforços norte-americanos na Colômbia e na política de mudança de regime na Venezuela.

    "O Biden é um dos formuladores do Plano Colômbia e tem conhecimento sobre a questão do narcotráfico, por isso terá uma relação importante com Bogotá", acredita Hirst.

    Homem participa de ação em apoio ao presidente dos EUA, Donald Trump, em frente à embaixada americana em Brasília, 4 de outubro de 2020
    © AP Photo / Eraldo Peres
    Homem participa de ação em apoio ao presidente dos EUA, Donald Trump, em frente à embaixada americana em Brasília, 4 de outubro de 2020

    Segundo ela, "o Brasil é muito útil para os EUA nessa cartada da Venezuela e da Colômbia e tem sido funcional nesse sentido".

    Se Trump perder as eleições, o maior prejuízo para governo Bolsonaro será na política interna, acredita Hirst.

    "Para segmentos que apoiam Bolsonaro, perceber que a grande estrela internacional do atual governo caiu em desgraça pode ser um elemento que enfraqueça o governo internamente", disse a professora.

    As eleições norte-americanas serão celebradas no dia 3 de novembro. Mais de 70 milhões de norte-americanos optaram pelo voto antecipado e 46,7 milhões votaram pelo correio, o que pode atrasar a divulgação dos resultados do pleito.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    Joe Biden, eleições, Donald Trump, Bolsonaro, EUA, Brasil
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