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    A pecuária é o setor do agronegócio brasileiro que mais quer investir em tecnologia, aponta pesquisa. Confinamento e rastreabilidade são as tendências do setor para 2021.

    Dentre 27 culturas pesquisadas, a pecuária é a que mais quer investir em tecnologia. Confinamento e rastreabilidade são as tendências do setor para 2021.

    Pesquisa realizada pela Inteligência no Agro (INA) revela que mais da metade dos pecuaristas brasileiros querem aumentar a produtividade de seus rebanhos investindo em tecnologia.

    A pesquisa englobou 27 culturas, 500 produtores rurais e mais de 150 profissionais do agronegócio para compreender quais as prioridades do setor para os próximos 12 meses.

    "Mais de 50% dos pecuaristas elencaram o aumento de produtividade como uma das prioridades", disse o sócio da INA Edson Fávero Júnior à Sputnik Brasil.

    A predisposição em aumentar a produtividade a partir do investimento em tecnologia é mais acentuada na pecuária de grandes propriedades rurais, acima de 200 hectares.

    Modelo de confinamento

    De acordo com Fávero, os pecuaristas estão interessados em adotar o sistema de criação em confinamento e semiconfinamento. Esse sistema usa a ração, e não o pasto, como fonte de alimentação do animal.

    "Esse é o modelo americano de produção, que é completamente intensivo em confinamento", disse a especialista em sustentabilidade no agronegócio brasileiro Beatriz Domeniconi à Sputnik Brasil.

    "Nos EUA, praticamente só uma das etapas da vida do animal é realizada em pasto [...] Ele desmama e já entra no confinamento", explicou Domeniconi.

    Gado se alimenta de milho em fazenda em Ipameri, Goiás (foto de arquivo)
    © AFP 2020 / Evaristo Sa
    Gado se alimenta de milho em fazenda em Ipameri, Goiás (foto de arquivo)

    No entanto, "o ganho de produtividade do sistema de confinamento e semiconfinamento é muito grande", garantiu Fávero.

    "O Brasil tem duas vezes e meia a quantidade de bovinos dos EUA e produz menos do que os norte-americanos", disse.

    Segundo ele, o sistema brasileiro pode demorar até 12 meses para preparar o gado para o abate, enquanto o confinamento é capaz de fazê-lo em três a quatro meses.

    O custo do sistema de confinamento, no entanto, é mais elevado, uma vez que exige gastos com ração animal, muitas vezes oriunda de soja ou milho.

    "O aumento dos custos com a soja é visto como um aumento nas vendas também. [O pecuarista] aumenta os custos, mas aumenta as vendas", asseverou Fávero.

    De acordo com o Censo de Confinamento DSM, mais de 5,18 milhões de bovinos foram criados em confinamento em 2019, um aumento de 2% em relação ao mesmo período do ano passado.

    Peão com gado em fazenda próxima à Sinop, Mato Grosso, 10 de agosto de 2020
    © AFP 2020 / Carl de Souza
    Peão com gado em fazenda próxima à Sinop, Mato Grosso, 10 de agosto de 2020

    "Essa mudança já é perceptível no interior do estado de São Paulo e Mato Grosso do Sul", contou Fávero.

    Com a adoção de confinamento e semiconfinamento "vamos diminuir a área utilizada, talvez podendo deixar área disponível para outros tipos de cultura que abasteçam a própria pecuária", acredita o sócio da INA.

    Pecuária sustentável

    Os resultados da pesquisa foram divulgados em meio à necessidade da pecuária de reduzir o desmatamento no Brasil.

    "A área disponível para a pecuária hoje no Brasil é mais do que suficiente para [...] praticamente dobrar o volume de produção, sem a necessidade de nenhum novo desmatamento", disse Domeniconi. "Só que isso demanda investimento."

    Investimentos nas pastagens tropicais podem não só aumentar a produtividade da pecuária brasileira, mas também diminuir sua emissão de carbono.

    "Melhorar a condição das pastagens, sua capacidade de suporte dessas pastagens e de recuperação, torna possível produzir um número maior de animais em uma área menor", disse Domeniconi.

    Nesse sistema, "a pastagem é a ração do boi, então se garantirmos um bom manejo do pasto [...] teremos uma produção mais intensiva, com mais cabeças por hectare, porém em pastagem", garantiu.

    A pecuária e a indústria de carne brasileiras são alvo de forte pressão internacional para minimizar a emissão do gás de efeito estufa emitido pelos animais, o metano.

    Vista aérea de gado em vegetação queimada no Pantanal, Mato Grosso, 19 de setembro de 2020
    © AFP 2020 / Mauro Pimentel
    Vista aérea de gado em vegetação queimada no Pantanal, Mato Grosso, 19 de setembro de 2020

    "Em um sistema bem manejado de pastagem, nós temos a captura do carbono atmosférico através das pastagens e uma fixação desse carbono no solo através de suas raízes", disse Domeniconi.

    "Um sistema equilibrado pode ter um balanço melhor de emissões na pecuária, em alguns casos inclusive um balanço negativo, isto é, com menos emissões do que captura de gases da atmosfera", concluiu a especialista.

    Tecnologia para exportação

    Outra prioridade para o pecuarista brasileiro é o investimento em tecnologia de gestão, revelou pesquisa da INA.

    "A tecnologia que eles querem adotar é a rastreabilidade do boi, que permite uma melhora na venda para mercados internacionais", explicou Fávero.

    A tecnologia permite que o consumidor final rastreie a origem da carne que consome, acesse dados sobre seu local de nascimento, regime de alimentação e condições sanitárias.

    "Com a rastreabilidade de todo o processo de produção do bovino, o pecuarista pode vender seu produto para a indústria [frigorífica] mais caro e possivelmente até exportar", disse o sócio da INA.

     Gados na fazenda Nossa Senhora do Carmo, em Cumaru do Norte, no interior do Pará (foto de arquivo)
    © Folhapress / Eduardo Anizelli
    Gados na fazenda Nossa Senhora do Carmo, em Cumaru do Norte, no interior do Pará (foto de arquivo)

    Atualmente, o pecuarista pode lucrar mais ao produzir o chamado "boi China", cuja carne pode ser exportada para o gigante asiático.

    "A pesquisa mostrou que todas as culturas ficaram preocupadas com as relações com a China, que hoje é o nosso maior comprador", disse Fávero.

    Dentre outras exigências, o "boi China" deve ser brasileiro, ter menos de 30 meses de idade no momento do abate e ter garantia de rastreabilidade.

    De acordo com o jornal Agrolink, o produtor que atende a essas condições pode vender seu produto até duas vezes mais caro para a indústria frigorífica.

    Para enfrentar tempos difíceis como o de pandemia, os produtores rurais e a indústria se aproximaram de maneiras sem precedentes.

    Carne bovina em um dos supermercados no Rio de Janeiro
    © AFP 2020 / Yasuyoshi Chiba
    Carne bovina em um dos supermercados no Rio de Janeiro

    "A pesquisa mostrou que, por causa da pandemia, a indústria se preocupou mais em se aproximar do produtor, trazendo-o para dentro da empresa e levando a empresa para dentro da propriedade rural", comemorou Fávero.

    Esse aumento de coordenação pode favorecer a organização da cadeia para tornar-se mais produtiva, lucrativa e sustentável.

    O levantamento da Inteligência no Agro (INA) foi realizado no mês de julho e deve se repetir anualmente, a fim de consolidar novo parâmetro de inteligência nas áreas de economia e tecnologia do agronegócio.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    tecnologia, sustentabilidade, agronegócio, Brasil, pecuária
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