05:52 23 Outubro 2020
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    Neste domingo (9), o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, anunciou o envio de ajuda humanitária para o Líbano, após a tragédia em Beirute. A Sputnik Brasil ouviu dois pesquisadores de Relações Internacionais que destacaram a importância da medida e avaliaram as consequências políticas do anúncio em meio à pandemia.

    Na terça-feira (4), uma explosão de grandes proporções arrasou a região portuária de Beirute, capital libanesa, deixando mais de 150 mortos e pelo menos seis mil pessoas feridas, além de outros milhares de desalojados. Diante da situação de emergência no país, o Brasil participou de uma reunião com líderes internacionais neste domingo (9) e anunciou o envio de ajuda técnica e humanitária para o Líbano. Bolsonaro indicou o ex-presidente Michel Temer para liderar a missão, que se disse "honrado" em aceitar o convite.

    ​​A posição brasileira é vista como algo positivo e responde à tradição da comunidade libanesa no Brasil e à importância diplomática das relações bilaterais entre os países, segundo o pesquisador Maurício Santoro, professor de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

    "O Brasil agiu da maneira correta. O Líbano é um país importante para o Brasil, principalmente por questões ligadas à imigração. A gente tem uma quantidade muito grande de brasileiros de ascendência árabe, um número que é estimado entre seis e dez milhões de brasileiros, e boa parte deles é ou de origem síria, ou de origem libanesa", aponta o professor Maurício Santoro em entrevista à Sputnik Brasil.
    Em Beirute, dois homens caminham no local de uma grande explosão ocorrida na capital libanesa em 4 de agosto de 2020.
    © REUTERS / Mohamed Azakir
    Em Beirute, dois homens caminham no local de uma grande explosão ocorrida na capital libanesa em 4 de agosto de 2020.

    O analista destaca ainda que essa comunidade é expoente também na política, citando o próprio ex-presidente Michel Temer e também ex-governadores e ex-ministros como Paulo Maluf, Tasso Jereissati, Gilberto Kassab e Fernando Haddad.

    "Claro, existem as limitações que vêm desse momento de crise econômica, desse momento de crise na saúde pública por causa da pandemia, mas aquilo que o Brasil puder fazer é bem-vindo e é importante", avalia Santoro.
    Imagem da zona portuária de Beirute depois da forte explosão que atingiu a capital do Líbano, 5 de agosto de 2020
    © REUTERS / Mohamed Azakir
    Imagem da zona portuária de Beirute depois da forte explosão que atingiu a capital do Líbano, 5 de agosto de 2020

    O pesquisador Guilherme Casarões, professor da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV-EAESP), também avalia a posição brasileira de forma positiva, e acredita que a postura seria a mesma em outros governos.

    "O anúncio, em linhas gerais, é correto. Além de termos uma tradição de ajuda humanitária e cooperação com os países em desenvolvimento, o Brasil é lar de milhões de descendentes de libaneses. Nesse sentido, penso que qualquer governo brasileiro faria o mesmo", aponta Casarões em entrevista à Sputnik Brasil.

    Pandemia no Brasil e ajuda ao Líbano exigem esforços distintos

    O anúncio de envio de ajuda humanitária ao país do Oriente Médio vem no dia seguinte da chegada do Brasil à marca de 100 mil mortos por COVID-19, o que não rendeu comentários do presidente Jair Bolsonaro.

    Para o professor Maurício Santoro, o envio de ajuda ao Líbano, porém, não impacta na crise do novo coronavírus no Brasil. Segundo ele, se tratam de duas situações diferentes e com exigências de recursos distintos.

    "No caso brasileiro, o problema da pandemia não tem sido uma escassez de recursos, é uma questão de negacionismo do presidente, uma dificuldade dele em aceitar fatos científicos básicos, como a necessidade de se fazer isolamento social, respeitar a quarentena. Então se a gente mandar, digamos, toneladas de comida para o Líbano, isso não vai ter impacto, para o bem ou para o mal, na tragédia que vem sendo a pandemia aqui no Brasil", diz Santoro.  
    Ato da ONG Rio de Paz sobre as 100 mil mortes por COVID-19 no Brasil, na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, em 8 de agosto de 2020.
    © Folhapress / Felipe Duest
    Ato da ONG Rio de Paz sobre as 100 mil mortes por COVID-19 no Brasil, na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, em 8 de agosto de 2020.

    O pesquisador Guilherme Casarões vai na mesma linha, e aponta que o combate à COVID-19 e a ajuda humanitária "não são coisas excludentes". O pesquisador, no entanto, aponta que é "chocante" o silêncio de Bolsonaro em relação aos 100 mil mortos no Brasil.

    "Há orçamento e estrutura institucional para o desempenho adequado de ambas as tarefas. O Brasil sempre sofreu inúmeras mazelas sociais, violência extrema e isso nunca nos impediu de assumir um papel internacional proativo e solidário. O chocante, no caso do presidente Bolsonaro, é o absoluto silêncio frente às mais de 100 mil vidas perdidas no Brasil, em contraste às mensagens autocongratulatórias ou desnecessárias (como sobre a vitória do Palmeiras no Campeonato Paulista) postadas nas redes sociais", avalia Casarões.

    Medida pode ter maior impacto político positivo dentro do que fora do Brasil

    O pesquisador Guilherme Casarões acredita que a medida anunciada por Bolsonaro neste domingo (9) pode repercutir positivamente entre os apoiadores do presidente, além de fortalecer determinados laços.

    "Tenho a impressão de que o anúncio da ajuda brasileira serve, principalmente, para consumo interno. Ajuda a consolidar a imagem de estadista do presidente, em fotos e mensagens que circulam rapidamente nas redes sociais. Aproxima Bolsonaro da comunidade libanesa e fortalece a narrativa de boas relações com o governo Trump", aponta o analista.
    Chanceler Ernesto Araújo ao lado do presidente Jair Bolsonaro em São Paulo
    © Folhapress / Paulo Guereta / Photo Premium
    Chanceler Ernesto Araújo ao lado do presidente Jair Bolsonaro em São Paulo

    Apesar disso, Casarões recorda que o governo Bolsonaro tem atualmente uma imagem desgastada no exterior devido a uma série de políticas internas, o que não deve mudar com o anúncio em relação ao Líbano.

    "Por outro lado, os parceiros internacionais do Brasil ainda me parecem muito reticentes quanto ao presidente brasileiro, tanto pelo seu histórico de brigas (com o próprio Macron, um ano atrás) quanto pela condução desastrosa da pandemia", finaliza.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    Jair Bolsonaro, Michel Temer, Beirute, Brasil, Líbano
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