11:02 30 Novembro 2020
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    Em junho, refinarias dos EUA receberão nove milhões de barris de óleo russo, o dobro de março. Por que não podem EUA prescindir dos fornecimentos da Rússia, mesmo com excesso de estoque no mercado?

    De acordo com os portais de navegação MarineTraffic e VesselFinder, dez petroleiros com petróleo russo estão agora se aproximando das costas da América: oito partiram do porto de Ust-Luga e dois de Novorossiysk.

    Ambos pertencem à classe Aframax, podendo carregar até 900 mil barris, pelo que até o final do mês cerca de nove milhões de barris de petróleo russo Urals chegarão aos Estados Unidos – o recorde nos últimos nove anos.

    Por que os EUA estão comprando petróleo Urals, sendo eles um dos maiores produtores do mundo e tendo esgotado sua capacidade de armazenamento, e qual será o resultado?

    Compra recorde

    Vale recordar que as maiores refinarias norte-americanas não podem processar isoladamente o petróleo leve WTI, o chamado petróleo de xisto e o produzido no Texas ocidental, que requer ser misturado com petróleo pesado, que anteriormente era adquirido na Venezuela.

    Com a imposição em janeiro de 2019 de sanções a Caracas pelos EUA, as exportações venezuelanas de petróleo caíram 32%, sendo agora a China seu maior cliente, enquanto as refinarias norte-americanas do Golfo do México e da Costa Leste enfrentam a perspectiva de parar de laborar devido à falta de matéria-prima.

    Sonda de perfuração móvel da empresa Tatneft na república de Tatarstão, Rússia
    © Sputnik / Maksim Bogodvid
    Sonda de perfuração móvel da empresa Tatneft na república de Tatarstão, Rússia

    Para evitar o desastre, os norte-americanos viraram-se para o petróleo russo Urals, chegando a Rússia a ocupar no último trimestre de 2019 o lugar de segundo maior exportador de petróleo bruto para os EUA depois do Canadá, superando o México e a Arábia Saudita.

    Guerra saudita

    Especialistas observam que os EUA se aproveitaram da queda na cotação do petróleo em abril, quando o preço do petróleo Urals caiu para US$ 12 (R$ 60,61) por barril, para aumentar drasticamente as compras. No entanto, a Rússia também ficou ganhando.

    Após o fracasso da reunião da OPEP+ em março de 2020, a Arábia Saudita decidiu "punir Moscou por sua intransigência", inundando os mercados com petróleo barato.

    Riad optou por uma política de produção massiva, instruindo a Saudi Aramco a aumentar as exportações em um terço, ao mesmo tempo que jogavam duro no mercado europeu, oferecendo o barril a US$ 10,25 (R$ 51,77) – bem abaixo da cotação do petróleo Brent.

    A política saudita, além do colapso das cotações de petróleo, resultou em um esgotamento da capacidade de armazenamento de petróleo em todo o mundo.

    Sonda de perfuração móvel da empresa Tatneft na região de Almetyevsk, república de Tatarstão, Rússia
    © Sputnik / Maksim Bogodvid
    Sonda de perfuração móvel da empresa Tatneft na região de Almetyevsk, república de Tatarstão, Rússia

    No final de março, os traders não conseguiam encontrar compradores para o petróleo russo na Europa, mesmo a preços baixos sem precedentes. Com a perspectiva de esgotamento de sua capacidade de armazenamento, um cenário de parada da extração de petróleo tornou-se bastante real na Rússia.

    As aquisições norte-americanas acabaram ajudando as petroleiras russas no período mais agudo da guerra desencadeada pelos sauditas. Não só não houve necessidade de encerrar os poços, como ocorreu um aumento da demanda em abril. E, pela primeira vez em muitos anos, a cotação do petróleo Urals superou a do Brent.

    Vencedor óbvio

    Como resultado, a Rússia saiu desta guerra do petróleo com as menores perdas, logrando evitar a suspensão da extração, enquanto que nos EUA o número de plataformas petrolíferas em operação desde o início do ano caiu quase 70%: de 677 para 206 em 5 de junho, superando o acontecido durante a crise global de 2008-2009.

    Quanto aos sauditas, sofreram enormes perdas pela política de dumping, levando seu ministro da Fazenda em maio a reconhecer a pressão sobre as finanças públicas causada pela queda das receitas petrolíferas, afetando a macroeconomia a médio e longo prazo. O reino viu-se mesmo obrigado a cortes nas prestações sociais e a aumentos de impostos.

    Segundo os especialistas, a demanda por petróleo russo continuará a crescer em julho, por duas ordens de razões.

    A primeira tem a ver com o fato de os países da OPEP+ terem prorrogado as restrições de produção até agosto. Contudo, estamos falando sobretudo de tipos de petróleo mais pesados e menos valiosos.

    Uma fileira de caminhões-tanque em um terreno vazio em Mentone, Loving County, Texas, Estados Unidos, 22 de novembro de 2019 (foto de arquivo)
    Angus Mordant
    Uma fileira de caminhões-tanque em um terreno vazio em Mentone, Loving County, Texas, Estados Unidos, 22 de novembro de 2019 (foto de arquivo)

    A segunda, porque à medida que as quarentenas vão sendo levantadas, cresce a demanda por diesel, a um ritmo superior ao da gasolina. E os petróleos mais pesados são os mais usados para produzir combustível diesel.

    Entretanto, a cotação do petróleo Urals ultrapassou esta semana os US$ 42,40 (R$ 213,15) por barril, atingindo o valor orçado no orçamento federal para 2020.

    Assim, tudo aponta para que a Rússia já esteja se recuperando da guerra do petróleo, ao contrário de seus principais concorrentes.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    Venezuela, Emirados Árabes Unidos, Rússia, EUA, petróleo
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