17:42 01 Outubro 2020
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    Brasil luta com pandemia em meados de maio (78)
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    A Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou um relatório revelando que o Brasil investe menos em saúde do que os países vizinhos e europeus. A Sputnik Brasil consultou um médico sanitarista sobre o assunto, que apontou como esse quadro agrava situação na pandemia da COVID-19.

    Os dados da OMS apontam que dos 193 países membros da organização, 81 gastam mais com a Saúde do que o Brasil, proporcionalmente ao orçamento público. Em 2017, o Brasil gastava 10,3% de seu orçamento público com saúde, abaixo da média dos países das Américas - 13,2% - e também da Europa -12,3%.

    A pandemia revelou a fraqueza do sistema público de saúde em diversos países e já se inicia um debate em torno do reforço dos sistemas de saúde mundo afora. É o que lembra o médico sanitarista Gonzalo Vecina Neto, professor da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) e um dos fundadores da ANVISA.

    "Todos os países do mundo nesses últimos 15-20 anos, depois da crise de 2008, tiveram uma retração em seus investimentos sociais. Todos esses países de alguma forma privilegiaram o que é chamado de equilíbrio fiscal. E para alcançar o equilíbrio fiscal reduziram seus investimentos na área social, particularmente na área da saúde. A conta está chegando agora com a epidemia do coronavírus", afirma o médico sanitarista em entrevista à Sputnik Brasil.

    Vecina Neto lembra que os cortes no investimento público em saúde também ocorreram no Brasil, seguindo a mesma tendência internacional.

    "Nós estamos gastando muito pouco em saúde, essa é uma realidade insofismável. Compare do jeito que quiser comparar. O resto é hipocrisia e mentira", afirma.
    O sanitarista Gonzalo Vecina Neto em entrevista ao Ministério da Saúde sobre a 1ª Conferência Nacional de Vigilância em Saúde, em 2017.
    O sanitarista Gonzalo Vecina Neto em entrevista ao Ministério da Saúde sobre a 1ª Conferência Nacional de Vigilância em Saúde, em 2017.

    O médico recorda que o Brasil investe menos em saúde do que os países vizinhos em relação ao PIB, conforme aponta a OMS, mas acrescenta que o país tem também características diferentes que devem ser ressaltadas, tanto no investimento quanto em relação à pandemia.

    "Em primeiro lugar é o tamanho. O Uruguai tem quatro milhões de habitantes, o Paraguai tem 6 [milhões], a Argentina tem 38 [milhões], o Chile tem 18 milhões de habitantes. Essa doença é uma doença que precisa de gente para se espalhar. Quanto mais pessoas você tiver mais ela se espalha", aponta Vecina Neto.

    A desigualdade social brasileira é uma outra diferença que aponta o médico fundador da Anvisa em relação aos países vizinhos.

    "A outra diferença é que nós temos diferenças sociais muito maiores do que os vizinhos. Talvez o Paraguai seja um pouco mais próximo da nossa realidade. Mas a concentração de renda no Brasil é uma coisa estúpida. Nós somos um dos países que tem maior concentração de renda", aponta.
    Desigualdade social: vista da favela de Paraisópolis, ao lado de um dos bairros mais ricos de São Paulo, o Morumbi
    © Folhapress / Eduardo Knapp
    Desigualdade social: vista da favela de Paraisópolis, ao lado de um dos bairros mais ricos de São Paulo, o Morumbi

    Das diferenças sociais brasileiras, há consequências diretas sobre a saúde e também sobre a pandemia, explica Vecina Neto.

    "E concentração de renda implica em dizer pobreza, temos muitos pobres. Essa doença mata mais pobres, aliás isso já está acontecendo aqui. Quando a gente olha a mortalidade em São Paulo, a mortalidade foi para a periferia. Essa doença é uma doença que começou pela cobertura e vai terminar pelo subsolo, no porão do país", afirma o médico, ressaltando que essa situação faz com que negros morram progressivamente mais pela doença do que brancos no Brasil.

    O orçamento brasileiro em 2020 alcançou R$ 3,8 trilhões, dos quais R$ 125 bilhões foram encaminhados para a área da Saúde. Para Vecina Neto, uma boa medida que poderia ser retomada para aumentar os gastos no setor é a proposta da Emenda Constitucional nº 29, que define um gasto mínimo em saúde.

    "Nós temos muito a pagar para a sociedade brasileira para ter um sistema de saúde melhor, que trate de maneira igual todos os cidadãos. Mas para isso, temos que melhorar a nossa capacidade de financiamento e temos que, principalmente também, melhorar a gestão. Esse movimento nós temos que fazer no pós-COVID, é o futuro. Mas todos nós temos que saber que temos que construir esse futuro, senão não vamos construir esse futuro", conclui.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    COVID-19, Paraguai, Chile, Argentina, Brasil, Organização Mundial da Saúde (OMS)
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