11:41 05 Dezembro 2019
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    Linha de produção da MAN Caminhões, em Resende, no Rio de Janeiro, em 17 de julho de 2012.

    Indústria do Brasil perde relevância e tende a sair da 'elite' mundial, diz economista

    © Folhapress / Daniel Marenco/Folhapress
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    A indústria brasileira está encolhendo e perdendo participação no cenário global. Para analisar o assunto a Sputnik Brasil entrevistou Rafael Cagnin, economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI).

    Cagnin é autor de um estudo que aponta que o Brasil poderá deixar o ranking dos 10 países mais industrializados - lista elaborada pela Organização para o Desenvolvimento Industrial das Nações Unidas (UNIDO), agência da Organização das Nações Unidas (ONU).

    "Especificamente, ele [o estudo] vai ganhando bastante relevância dado o ambiente hostil ao desenvolvimento, ao crescimento industrial do Brasil", aponta o economista em entrevista à Sputnik Brasil.

    Cagnin acrescenta que as dificuldades para a indústria brasileira têm aumentado desde 2014.

    Segundo o economista, há uma possibilidades real de o Brasil deixar de figurar entre as economias mais industrializadas do mundo.

    "Se mantivermos a trajetória que temos mostrado na última década, por exemplo, é possível que a gente saia desse rol, da elite, do batalhão de elite da indústria mundial", afirma.

    Os motivos, segundo Cagnin, são variados. Entre eles, o baixo desempenho da economia brasileira e o avanço de outras economias ao mesmo tempo.

    Cagnin cita o exemplo da Indonésia, que deve ultrapassar o Brasil em breve no desempenho da indústria e faz parte de um grupo de países do leste asiático que tem mostrado bons resultados nesse setor.

    O recuo da indústria brasileira

    O economista Rafael Cagnin afirma que a indústria no Brasil vem tendo um duplo movimento de perda de pressão.

    "Internamente, que é aquilo que a gente chama em economia de desindustrialização, ou seja, a indústria vem perdendo participação no PIB brasileiro, isso de forma bastante acentuada e de forma muito mais rápida do que outros países", diz.

    A outra face dessa, diz Cagnin, é a perda de participação dentro do panorama internacional da indústria, o que se dá de duas formas.

    "Um, por perda muito precoce de peso dos setores industriais na estrutura produtiva brasileira [...]. E um outro fator que muitos setores industriais importantes para a indústria de manufatura contemporânea têm uma participação muito pequena no Brasil. O Brasil não conseguiu desenvolver alguns ramos da fronteira tecnológica internamente", aponta.

    Cagnin destaca que o Brasil tem pouca incidência em tecnologias de ponta e tem um parque industrial atrasado em relação a concorrentes como de países do leste asiático.

    Falta de continuidade e competição desleal

    O economista explica que um dos fatores que construíram esse cenário está nas políticas de investimento em Ciência e Tecnologia no Brasil, que "são descontinuadas muito rapidamente".

    "A gente não tem essa tradição de grandes projetos na área que durem décadas, por exemplo. A gente já conseguiu fazer isso concretamente, por exemplo, na indústria do petróleo no Brasil com a Petrobras [...], mesmo em aviação quando a Embraer ainda era uma empresa estatal, por exemplo, a gente desenvolveu durante anos uma competência na área", aponta.

    Cagnin acrescenta ainda outros exemplos, como no caso dos combustíveis, com o desenvolvimento do Etanol.

    "Então veja, a gente já conseguiu fazer políticas de Ciência, Tecnologia e Inovação mais consistentes, mais estáveis e com resultados mais satisfatórios", afirma.

    O economista explica que essa capacidade foi sendo perdida a partir da década de 1980, quando começa o declínio da indústria brasileira.

    Essa trajetória decadente também pode ser atribuída a outros fatores, como o regime macroeconômico com taxas de câmbio voláteis e juros altos.

    "Isso dispõe o sistema industrial a uma concorrência quase desleal frente aos similares estrangeiros. A gente tem um conjunto de disposições que prejudicam a nossa competitividade, como por exemplo a a tributária brasileira", diz.

    Prognóstico negativo

    A situação da indústria brasileira, que acumula queda de 1,7% em 2019, não é das melhores, segundo o economista, que ressalta que não houve recuperação do triênio negativo de 2014, 2015 e 2016.

    Em comparação, a atividade industrial brasileira caiu 15% desde 2014, enquanto cresceu 10% no resto do mundo.

    Segundo Cagnin, além dos fatores apresentados - falta de políticas de longo prazo, estrutura econômica pouco competitiva e recuperação lenta - é grave também a comparação com o cenário internacional.

    "É um problema ainda mais grave o fato de que no restante do mundo o setor industrial vem passando por transformações tecnológicas das mais importantes", aponta, referindo-se à chamada "indústria 4.0", sinônimo de inovação mundo afora.

    "No ambiente que a economia brasileira está hoje - baixíssimo crescimento - a indústria que tem interrompida essa recuperação em 2019 tem menos chances de acompanhar esse movimento de profunda transformação que está ocorrendo no resto do mundo", explica.

    Para Cagnin, mantida a direção atual, a indústria brasileira tende a consolidar sua perda de relevância diante do resto dos países.

    "E se não acompanhar, o que a gente vai ver é um agravamento dessa trajetória de queda de participação da indústria no total mundial, e aí sacramentando cada vez mais a expulsão do Brasil desse batalhão de elite da indústria mundial", conclui.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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