17:34 12 Novembro 2019
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    O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, prestes a discursar na abertura da 74ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), no dia 24 de setembro de 2019.

    Bolsonaro põe militares à disposição em gesto político na ONU, diz professor

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    Nesta terça-feira (24), o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, fez seu aguardado discurso na abertura da 74ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). Para analisar a fala do presidente, a Sputnik Brasil falou com cientista político.

    Em um discurso de mais de 30 minutos, o presidente do Brasil passeou por vários temas. Entre alguns destaques, Bolsonaro chamou os governos petistas de socialistas, falou em sensacionalismo da mídia sobre Amazônia, defendeu a Ditadura Militar e se comprometeu com as missões de paz da ONU.

    Para o cientista político Rodrigo Gallo, professor de Relações Internacionais no Instituto Mauá de Tecnologia, esse discurso pode ser dividido em três blocos principais, tratando da Amazônia, das missões de paz da ONU e também de elementos do discurso político que o presidente sustenta desde a campanha.

    Discurso sobre a Amazônia já era esperado

    O primeiro destaque do cientista político Rodrigo Gallo é sobre o já esperado trecho relacionado à Amazônia, tema que pôs o Brasil no centro das atenções mundiais nas últimas semanas.

    O presidente brasileiro chamou de sensacionalista a cobertura midiática sobre a Amazônia, criticou o líder indígena cacique Raoni e leu a carta de uma indígena youtuber que o apoia, Ysany Kalapalo.

    "É uma falácia dizer que a Amazônia é patrimônio da humanidade e um equívoco, como atestam os cientistas, afirmar que a nossa floresta é o pulmão do mundo", disse Bolsonaro durante seu discurso.

    Rodrigo Gallo acredita que essa postura do presidente brasileiro já era esperada.

    Árvores queimadas durante os incêndios florestais na Amazônia (imagem ilustrativa)
    © REUTERS / Bruno Kelly
    Árvores queimadas durante os incêndios florestais na Amazônia (imagem ilustrativa)

    "Apesar de adotar um discurso relativamente moderado, sem apontar nomes de Estados, sem dar nomes, ele disse que tem muitos interesses estrangeiros em relação à Amazônia. Então acho que aí não foge muito do roteiro, acho que era o que se esperava", disse o professor.

    Gallo acrescenta que o discurso manteve o tom crítico ao G7, com quem Bolsonaro teve atritos recentemente.

    "Me parecia que ele estava direcionando a crítica sobretudo ao G7, estava mostrando aos países que nós cuidamos sim da Amazônia, ou pelo menos que supostamente cuidamos", explica.

    Bolsonaro se compromete com as missões de paz da ONU

    O cientista político destacou também um trecho do discurso do presidente brasileiro em que ele afirma que o Brasil tem um "sólido histórico de contribuições para as missões da ONU" e se comprometeu a "manter contribuição concreta às missões".

    "Nas circunstâncias mais variadas – no Haiti, no Líbano, na República Democrática do Congo –, os contingentes brasileiros são reconhecidos pela qualidade de seu trabalho e pelo respeito à população, aos direitos humanos e aos princípios que norteiam as operações de manutenção de paz", disse Bolsonaro.

    Augusto Heleno participa evento no Haiti, em 2005.
    © AP Photo / Ariana Cubillos
    Augusto Heleno participa evento no Haiti, em 2005.

    Para Gallo, Bolsonaro ainda não havia discutido esse tema, que é considerado importante para a agenda da ONU e no qual o Brasil tem relevância. O especialista entende que esse foi um aceno político para a organização.

    "Em 70 anos de Nações Unidas, o Brasil é um dos Estados que mais participa das missões de paz. Então ele ter falado isso no discurso também é uma forma de sinalizar que essa política de Estado não sofre alteração na gestão dele", aponta.

    'Discurso de campanha' foi levado à ONU

    Rodrigo Gallo destacou ainda que o bloco majoritário do discurso do presidente Bolsonaro se deu em torno de temas levantados por ele desde a campanha presidencial.

    "Foram os momentos em que basicamente ele discursou na tribuna da ONU usando os mesmos argumentos, as mesmas agendas, as mesmas pautas que foram marcantes na campanha presidencial e quem tem sido marcantes nesses nove meses e pouco de mandato", aponta o cientista.

    O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, discursa na abertura da 74ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), no dia 24 de setembro de 2019.
    © REUTERS / Lucas Jackson
    O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, discursa na abertura da 74ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), no dia 24 de setembro de 2019.

    A palavra socialismo, por exemplo, foi citada cinco vezes no discurso de Bolsonaro, e assim como ideologia está entre as mais citadas do discurso, ao lado de Amazônia, citada seis vezes.

    "É a discussão crítica contra o socialismo, é o debate sobre a ideologia de gênero, é a agenda de segurança pública e por aí vai", especifica Gallo.

    Temas domésticos podem atrapalhar Brasil lá fora

    Para Rodrigo Gallo, é nítido que Bolsonaro endereçou o discurso principalmente para a população interna do Brasil.

    "É uma agenda doméstica, não necessariamente para os eleitores, até para os críticos. De certa forma ele está sinalizando para a população doméstica que aquelas agendas elas não são discursivas internamente, quando ele vai para fora ele continua seguindo a coerência do mesmo discurso", opina.

    Externamente, para o professor, o discurso aponta de forma clara o posicionamento do Brasil sobre questões relacionadas aos direitos humanos.

    Gallo acredita que pouco do que foi dito é novidade, mas que dessa vez toda a atenção do planeta estava sobre Bolsonaro.

    "Tudo isso, no final das contas, já tinha causado alguma repercussão pela mídia internacional. Agora, a questão de hoje é que é o único momento em que as câmeras do mundo inteiro estão voltadas para a tribuna da ONU e ele juntou todos esses elementos em um discurso só e falou de tudo isso ao mesmo tempo para o mundo inteiro ouvir", analisa.

    O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, discursa na 74ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), no dia 24 de setembro de 2019.
    © REUTERS / Carlo Allegri
    O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, discursa na 74ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), no dia 24 de setembro de 2019.

    Para o especialista esse momento reforça uma visão que já existia sobre o presidente acerca de temas como a Amazônia, direitos humanos e os indígenas.

    "Isso é ruim. É ruim porque pode resultar em uma retração de movimento de investimento estrangeiro. Empresas desses Estados podem se indispor com a política do governo brasileiro e eventualmente deixar de fazer negócios com a gente", explica.

    Gallo entende que o discurso de Bolsonaro tem um impacto imediato, mas que é o desdobramento do debate em torno dele que trará efeitos concretos, inclusive econômicos.

    "Acho que isso causa um impacto na questão abstrata, na questão simbólica da política, logo de cara. Agora, dependendo de como as repercussões acontecerem e como o Bolsonaro ou o próprio Estado brasileiro reagir a essas repercussões, a gente pode agravar a situação a ponto de desencadear a reversão de algumas questões econômicas", conclui.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    Amazônia, ONU, Jair Bolsonaro
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