01:27 19 Outubro 2019
Ouvir Rádio
    Helicópteros dos Bombeiros sobrevoando área depois do rompimento de barragem em Brumadinho (MG)

    Brumadinho: o que fez da gigante mineradora Vale uma bomba relógio?

    © AP Photo / Andre Penner
    Análise
    URL curta
    250
    Nos siga no

    Muitos fatores, dentre os quais se destacam a falta de fiscalização e a má manutenção, fizeram com a barragem da gigante mineradora brasileira Vale sucumbisse.

    A tragédia, que completou um mês na segunda-feira (25), ocorreu bem no começo do governo do presidente Jair Bolsonaro, que havia a poucos dias antes eliminado o Ministério do Meio Ambiente, encarregado de exercer este tipo de supervisão.

    Durante entrevista à Sputnik Mundo, o pesquisador argentino Patricio Gómez Talavera disse que a Vale tem presença nacional e internacional, cujos lucros, em termos empresariais, são equivalentes aos da Petrobras.

    "Talvez sirva como uma grande negação de que privatizar tudo é uma excelente e grande ideia. Como a Petrobras não foi privatizada, a Vale, exceto em 1997, 1998, 1999 e 2000, nunca teve lucros superiores aos da Petrobras, que permaneceu sendo estatal", acrescentou o analista especializado em política brasileira.

    Devido ao seu status privado, amparou-se no processo de desregulamentação iniciado em 1997, ainda no governo de Fernando Henrique Cardoso (1995-2003), e continuou assim por mais de duas décadas "durante os governos seguintes".

    Para Talavera, professor da Universidade de Buenos Aires, esse processo foi complementado há uma década pela quase completa ausência de fiscalizações ambientais baseadas em duas causas: uma jurídica e outra econômico-financeira.

    A razão jurídica teve relação com a diminuição nas exigências para que as empresas da categoria operassem no estado de Minas Gerais, o que veio de uma disposição do governo estadual. Enquanto que a causa econômico-financeira estava relacionada à crise econômica, que tirou o orçamento destinado a funcionários para as inspeções.

    "A crise econômica implicou cortes de mais de R$ 1,3 bilhão [em fevereiro de 2018] no orçamento do Ministério do Meio Ambiente. Este ministério não existe mais por causa de uma decisão do governo de Bolsonaro", afirma o professor.

    "Isso fez com que todos os promotores ambientais, todos os órgãos oficiais de controle tivessem problemas operacionais claros por falta de orçamento e, portanto, enfraqueceu a capacidade de realizar as fiscalizações com a necessária recorrência, número e intensidade", acrescentou.

    Apenas em Minas Gerais existem oito barragens em risco de ruptura, colocando mais de 200 mil pessoas em risco de morte, comunica à Sputnik o professor de arquitetura e defesa urbana da Universidade de Brasília (UnB), Frederico Flósculo. Este número aumenta exponencialmente se considerarmos todo o território brasileiro, onde 45 barragens não possuem as condições necessárias de segurança de operação.

    A barragem da Mina do Feijão, localizada próxima a Brumadinho (a 57 quilômetros de Belo Horizonte), rompeu-se no dia 25 de janeiro e acaba de completar 30 dias. Até agora, 179 corpos foram resgatados da lama. Outras 131 pessoas continuam desaparecidas, segundo a Defesa Civil de Minas Gerais.

    O Corpo de Bombeiros mineiro estima que os trabalhos de resgate devam se estender por mais dois ou três meses, além de afirmar que a busca não vai ser cessada enquanto todos os corpos não tiverem sido encontrados.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

    Mais:

    CEO da Vale diz que empresa é 'joia brasileira' e não pode ser condenada por Brumadinho
    Vale perde R$ 73 bi em valor de mercado após tragédia de Brumadinho
    Tragédia em Brumadinho: relatório mostra que Vale sabia que barragem podia se romper
    Depois da lama: pesquisador comenta impactos na saúde da população de Brumadinho
    Tags:
    tragédia, rompimento de barragem, barragem Mina do Feijão, Vale, Brasil, Minas Gerais, Brumadinho
    Padrões da comunidadeDiscussão
    Comentar no FacebookComentar na Sputnik
    • Comentar