20:18 17 Agosto 2019
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    Estúdio da Al-Jazeera International em Doha, Qatar (Arquivo)

    Al-Jazeera pode estar com os dias contados

    © AP Photo / Osama Faisal
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    Os escritórios da mais importante emissora do mundo árabe, Al-Jazeera, estão sendo fechados em diversos países. Esta semana, Arábia Saudita e a Jordânia revogaram a licença de atividade da TV, cuja sede fica no Qatar.

    "Essa medida foi adotada em função do canal Al-Jazeera ter colaborado com os planos de grupos terroristas, ter apoiado os houthis, que realizaram um golpe de estado no Iêmen, bem como ter tentado desestabilizar a situação no nosso país", informou o comunicado do ministério de Informação e Cultura da Arábia Saudita. 

    Os especialistas árabes da área de comunicação explicaram à Sputnik porque os escritórios da Al Jazeera estão sendo fechados.

    Segundo o ex-diretor da Al-Jazeera no Egito, Muhammed Fahmi, a relação com a sede do canal, no Qatar, acabou provocando a sua prisão.

    "Dirigi por três meses o escritório da Al-Jazeera no Egito, de setembro a dezembro de 2013. Depois fomos presos, no âmbito do caso 'células do Marriot'. [A imprensa local chamou assim o caso, pois todos os suspeitos residiam na rede de hotéis com o mesmo nome. Os jornalistas, acusados pelas autoridades egípcias de apoiar os terroristas, foram condenados a três anos de prisão.] Fiquei 438 dias preso. Dizem que eu fui anistiado pelo presidente al-Sisi", revelou o jornalista.

    Ele contou que o escritório da emissora, a revelia dele, acabou colaborando com a organização Irmandade Muçulmana. 

    "Quando eu estive na prisão, fiquei surpreso de encontrar lá uma grande quantidade de estudantes, ligados à Irmandade Muçulmana, e que eram colaboradores da emissora. Nós disponibilizávamos para eles o nosso material filmado. Eles contaram que o canal oferecia a eles todo o necessário para realizar transmissões e câmaras compactas", disse Fahmi.

    "A partir desse momento eu declarei guerra ao canal, pois sou jornalista das antigas. Eu nunca antes vi um canal trabalhar como Al-Jazeera. Eles mancham o nome do jornalismo, trabalhando para atender os interesses de um determinado grupo da oposição ou terrorista. Infelizmente, era justamente essa a cobertura dos acontecimentos na Síria, na Líbia, no Iraque e muitos outros países", lamentou o interlocutor da agência.

    "Eu contratei advogados canadenses para abrir um processo contra a Al-Jazeera. Juntamos muitos depoimentos de ex-funcionários do canal e de pessoas que já desempenharam funções no governo do Qatar. Eles confirmaram que o canal cumpria ordens diretas do governo. O canal colabora com ativistas da oposição e com grupos terroristas. O canal muitas vezes opera sem as licenças necessárias. E os jornalistas da Al-Jazeera, geralmente, não sabem disso", concluiu o especialista. 

    Já o professor de jornalismo marroquino, Ahmed al-Dafiri, contou à Sputnik que o canal se desenvolveu rapidamente assim que foi aberto. A emissora recebeu intenso financiamento, abriu escritórios no mundo todo, contratou correspondentes e adquiriu o melhor equipamento.

    Segundo ele, no início a Al-Jazeera foi muito bem recebida no mundo árabe, pois o canal apresentava um outro ponto de vista sobre os acontecimentos. Com o passar do tempo, entretanto, ficou claro que a TV dava preferência aos conflitos internos e aos conflitos políticos. Muitos oposicionistas e inimigos dos respectivos governos ganharam uma excelente plataforma de divulgação. 

    "Existem muitas provas de que o canal trabalha para fomentar conflitos. Ele é capaz, de forma deliberada, de intensificar as diferenças entre dois países amigos", alertou Dafiri.

    "A prova mais evidente das atividades subversivas do canal são os acontecimentos da Primavera Árabe. Foi dada a voz a diversos grupos e oposicionistas. No entanto, não era apresentada uma avaliação objetiva desses ativistas. Os acontecimentos eram retratados de um certo modo, ao qual deveriam se adequar. Não havia uma tentativa de entender a realidade daquilo que estava acontecendo nas ruas", disse o marroquino.

    Segundo o ex-membro do conselho da Associação de jornalistas do Egito, o editor-chefe do site al-Gad, Ibrahim Mansour, o fechamento dos escritórios da Al-Jazeera é uma consequência direta da crise diplomática envolvendo o Qatar. 

    "Aquilo que está acontecendo entre o Qatar e a Arábia Saudita parece uma verdadeira guerra. O motivo oficial para o rompimento — apoio ao terrorismo pelo Qatar — não é o principal. Tenho certeza de que o verdadeiro motivo não está sendo dito", disse Mansour.

    Alguns jornais afirmam que a Arábia Saudita apresentou uma série de demandas para retomar as relações com Qatar. A exigência de acabar com a Al-Jazeera e de interromper o financiamento de alguns outros canais de mídia seria uma delas, revelou Ibrahim Mansour. Dessa forma, seria plausível supor que a Al-Jazeera continue a diminuir e a interromper a sua programação nos próximos meses ou semanas.

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    Tags:
    comunicação, opinião, análise, TV, Primavera Árabe, Associação de Jornalistas do Egito, Al Jazeera, Irmandade Muçulmana, Sputnik, Ibrahim Mansour, Ahmed al Dafiri, Muhammed Fahmi, Qatar, Egito, Oriente Médio, Arábia Saudita
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