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    João Roberto Kelly: 'Quem quer censurar minhas músicas?'

    Alexandre Vidal / Riotur
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    A poucos dias do Carnaval de 2017, João Roberto Kelly se tornou alvo de uma grande polêmica: algumas de suas famosíssimas composições de Carnaval, sucessos no Brasil e no exterior, foram consideradas inadequadas pelos chamados "politicamente corretos".

    Entre as músicas do pianista e compositor João Roberto Kelly cujas letras foram criticadas estão duas composições de 1963, sucessos no Carnaval de 1964 e de todos os anos seguintes – "Cabeleira do Zezé", na interpretação de Jorge Goulart, e "Mulata Iê Iê Iê", com Emilinha Borba – e uma outra composição, esta de 1980, sucesso a partir do Carnaval de 1981 e seguintes: "Maria Sapatão", cantada pelo irreverente Abelardo Chacrinha Barbosa.

    Os que agora criticaram estas composições alegaram que elas podem ser interpretadas com conteúdo preconceituoso: "Cabeleira do Zezé" e "Maria Sapatão" supostamente contra os homossexuais, e "Mulata Iê Iê Iê", também supostamente, contra as mulheres negras.

    Como um compositor tão festejado se vê envolvido em questões absolutamente impertinentes de que algumas de suas letras são consideradas inadequadas nos dias atuais? O próprio João Roberto Kelly comenta, em entrevista à Sputnik Brasil:

    "Eu gostaria de perguntar: [estas músicas] são consideradas inadequadas por quem? É essa a pergunta que faço. Porque não é nenhum órgão, nenhuma entidade oficial, não é nenhuma pessoa de credibilidade [que está criticando]. Então, essa pergunta não faz sentido na cabeça de um homem inteligente."

    O compositor tem uma visão distinta dos fatos:

    "Eu vejo isso como uma minoria que está querendo fazer uma contestação, no meu modo de ver sem sentido, porque Carnaval é a grande festa do faz de conta. É quando homem se veste de mulher, mulher se veste de homem, o sujeito sai fantasiado de palhaço, de tirolês, de caubói, etc. É o grande faz de conta que o Brasil lançou para o mundo, porque o Carnaval daqui é diferente de todos os outros, e eu conheço vários. A brincadeira que tem aqui [no Brasil] no Carnaval não tem em lugar nenhum no mundo. Eles querem transformar uma brincadeira saudável em uma brincadeira comprometida com outras coisas, com outras teorias. Eu não vejo isso no Carnaval e acho isso uma coisa de mau gosto e muito desagradável."

    João Roberto Kelly afirma querer que as pessoas entendam que "A Cabeleira do Zezé", por exemplo, é uma brincadeira.

    "O Zezé é uma figura interessantíssima, foi motivo de uma entrevista do 'Fantástico' comigo há uns 20 anos. A 'Cabeleira do Zezé' já era uma música veterana, ela já tem 50 e tantos anos, é do Carnaval de 1964. A [repórter] Glória Maria produziu uma entrevista muito simpática na minha casa, em Copacabana, e a TV Globo localizou o Zezé, o Zé Antônio, e o levou à minha casa. Foi uma farra danada, no bom sentido, com o Zezé, já mais velho, sem a cabeleira, inclusive. Foi uma emoção muito grande quando nós nos encontramos. Ele era um garçom num bar chamado São Jorge, que ficava na Avenida Princesa Isabel [no Leme], que eu costumava frequentar depois que terminavam minhas atividades na TV Excelsior, na TV Rio, onde eu musicava programas como 'Noites Cariocas' e 'Praça Onze'. Esse camarada [Zé Antônio] apareceu um dia lá como garçom e parecia um beatlezinho, cabeludo, um camarada esperto, alegre, agradável, paquerava as meninas, era uma figura interessantíssima. Eu disse a ele 'meu querido, se eu fosse um pintor, eu faria uma caricatura sua, porque você é a própria, mas como eu não sou, eu vou fazer o que eu sei fazer, que é uma marchinha'. E assim nasceu 'A Cabeleira do Zezé'."

    E quem era a "Mulata Bossa Nova" ou "Mulata Iê Iê Iê"?

    "A mulata bossa nova era a Vera Lúcia Couto, que foi a primeira Miss Guanabara do Clube Renascença. Eu fui assistir ao desfile em 1964 e vi uma moça esguia, linda, linda, linda, fazendo um desfile diferente, com um rodopio na passarela. Eu achei que a menina estava muito mais para os ritmos modernos que surgiam no momento, que eram o hully gully, o chá chá chá, o twist, etc., do que para o samba propriamente. Foi daí que nasceu 'Mulata bossa nova caiu no hully gully e só dá ela'. Essa música é a descrição da Vera Lúcia desfilando na passarela do Maracanãzinho quando ela se sagrou Miss Guanabara."

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    Tags:
    mulata, Samba, músicas, bloco carnavalesco, censura, carnaval, Rio de Janeiro, Brasil
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